
Hoje caiu uma saraivada monumental em cima de mim. Apanhou-me desprevenido quando ia à Livraria Barata. Nunca tinha visto a Avenida de Roma quase branca. Parecia uma alucinação criada pelos irmãos Cohen. É engraçado que no meio da intempérie, parece que nada mais existe. No meio do nada, ao sabor dos elementos. Quando ia a atravessar a avenida senti um prazer especial em andar em cima das pequenas pedras de gelo. É interessante como este fenómeno altera a percepção do espaço e do tempo. Estava eu nesta espécie de metafísica quando sinto um choque. O meu guarda-chuva embate com o de outra pessoa, quando atravessava a passadeira. Apanhado se surpresa, levantei o guarda-chuva e ainda tive tempo de pedir desculpa. Ela também pediu. Olho melhor para a cara e tenho a sensação que a conheço. Mas não me lembro de onde. Ela seguiu caminho e eu coloquei o meu GPS cerebral a funcionar. Demorou um pouco, mas, de repente, fez-se luz. A Xana. É a Xana de Malaca. Puxa. Já lá vão uns anos. Que loucura. Mas eu explico melhor. Tinha chegado à Malásia há três dias quando decidimos ir a Malaca. Estava de férias. Depois de uma visita ao “medan portuguis”, ou seja, a comunidade portuguesa de Malaca, cuja comida "portuguesa" é a mais picante que alguma vez provei, fizemos uma visita aos vestígios lusos deixados na região. Isto significa a Porta de Santiago, o que resta da fortaleza “A Famosa”, as ruínas da igreja de S. Paulo e a estátua de S. Francisco Xavier.

Depois do turismo de calções e sandálias, fomos jantar a um restaurante com animação musical. Quanto à comida, escolhemos todos o "steak". O vinho era australiano. A banda atacava com música rasca dos anos 60. Neil Diamond e coisas assim. Mas de uma mesa barulhenta ao lado, vem um pedido: Can we sing? "We" significa a Xana e o namorado. Ele na guitarra e ela na voz cantam "A minha sogra é um boi". A Xana cantava com uma voz rouca e acelerada: "Estávamos em casa sem nada para fazer/ Fomos para a cama e começamos a foder/ Tudo estava bem até certo momento/ Apareceu a minha sogra pior que um jumento/ A minha sogra é um boi/ A minha sogra é um boi...." Pensei com os meus botões: "eis uma mulher interessante". Mas a cantar Mata-Ratos? Que coisa mais insólita e absurda. Aqui, no fim do mundo? Mas, aos poucos, o que parecia alucinação virou prazer. Uma revelação. Aquela voz, tipo "Janis Joplin meets Patti Smith" versão tuga, é muito poderosa. Fiquei à espera que voltasse para a mesa, para falar com ela. Mas nunca mais a vi. Ainda perguntei ao empregado, mas ele disse-me que já tinha regressado ao hotel. Que pena. Só queria cantar um dueto com ela: "It's now or never", do Elvis Presley, ou qualquer coisa romântica... Sem segundas intenções, é claro. De qualquer maneira, foi um prazer tornar a vê-la hoje, no meio do granizo. Continua bonita.
22 vox pop:
Olha que prazer inesperado, ouvir Mata-Ratos em Malaca! "A minha sograaaaaaaaaa é uma ganda boi!!!" Excelente texto, gostei muito.
Uma história muito divertida de facto. Pena a granizada não ter sido melhor aproveitada... Os guarda-chuvas são lixados!
Estou tendo muito prazer em conhecer novos cantinhos e mais prazer ainda de estar participando desta tertúlia maravilhosa.
Belíssima participação...parabéns!
Beijos.
Isso de fato aconteceu?
Rsrs, um tanto fantástico!
Prazer e dor.
Abraços tertulianos,
Gustavo
As tuas viagens são sempre fantásticas mas, melhor ainda é a narrativa. GPS cerebral... é um prazer imenso te acompanhar nas tuas viagens e participar dos teus delírios. Marinheiro de muitas viagens, em cada porto uma paixão.
que deleite foi ler seu texto... muito " prazeroso ".
parabens!!
bjocas
Um prazer revisitado é prazer dobrado!
Boa estória!
Abraços!
A vida é cheia de surpresas prazerozas, né?
Também estou participando da tertúlia deste mês. Me visita tá?
Bjim.
Uma vida recheada de episódios fantásticos e ricos prazeres. Mas para que casos destes não se repitam que tal começares a usar um guarda chuva "transparente"? Existem, sabes?
bj
Sempre esse teu jeitinho peculiar de contar estórias!...A julgar pelos antecedentes, confesso que estava à espera de algo mais "picante". Mesmo assim, nota 10.
E um pedregulho de granizo em cima dessa môna?
Coisas pequenas que, sem contarmos, nos enchem de prazer.Assim foi o teu, assim é o meu ao ler este texto.
Aqui se pode aplicar o provérbio: "Nunca se viu prazer senão quando não se espera" ....
António,
grade texto. Prazer enorme em te-lo entre os melhores participantes desta e das Tertúlias anteriores!
Forte abraço
Foi um prazer passar por aqui e ler este texto. Parabéns. Dentro desta tertulia que acompanho é de facto um dos melhores.
De facto o poder de criar não é para todos. Que texto este, surgido de uma grande saraivada!!!
É bem mais fácil fazer um copy/paste :)
Concordo em absoluto com o comentário do/a JB.Gostei muito.
Olá amigo. Ora aqui está uma história interessante, por vezes esquecemo-nos de pequenas coisas que nos deram prazer. É bom ter memória para o passado, pois isso aguça-nos o engenho para o futuro. Pois creia que tive muito prazer nesta visita e espero voltar mais tarde para o conhecer melhor. Tudo de bom para si, obrigado.
Belo encontro, belo PRAZER, Fernando, bela participação.
Um grande abraço.
Quem é o Fernando? Não te enganaste com o post de cima "Adelino"? Este é do António, tá?????
É só para passar a linha dos 20ehehehe
Ok.
Gostei, adorei, és o maior!..
Tá bem assim?
Uma secreta admiradora
Muito bom ter chegado aqui, foi mesmo um prazer.
Beijoca.
Nilda.
http://meucantin5.blogspot.com/
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