Dezembro 31, 2007

2008, um ano fértil

2007 está quase a encerrar portas. Nestes últimos dias não tive hipótese de actualizar regularmente o blogue, mas tudo vai voltar ao normal em 2008. A culpa é da frente fria na terra nova e do raio da crista anticiclónica, está-se mesmo a ver. Boas saídas e melhores entradas. Deixo-vos com uma imagem da Flor Garduño com uma imensidão de leituras. Vai dar até ao próximo ano, ou seja, até daqui a pouco.

Dezembro 29, 2007

Trilhos Urbanos

A contagem decrescente para o fim-de-ano já começou. 2007 está praticamente no fim e é hora de começar a preparar o salto para 2008. Os astros dizem que o novo ano promete e a bruxa Isadora D confirma. Verifique a garrafeira, os pneus do carro, o estado da namorada e os restantes acessórios fundamentais para tornar a festa na melhor de sempre. Depois não diga que não avisei. Isto, às vezes, também é serviço público.

Dezembro 28, 2007

Benazir Bhutto

Era uma líder nata e uma mulher de convicções. Goste-se ou não do seu alinhamento político, Benazir Bhutto lutou por aquilo em que acreditava. E morreu por ele. O futuro do Paquistão apresenta-se agora cheio de nuvens negras, em que tudo é possível. Rawalpindi foi a estação terminal de uma carreira e de uma vida. Passa a ser um símbolo da determinação e da vontade de mudar. O fanatismo religioso e político mostrou mais uma vez o que vale. Nada.

Dezembro 27, 2007

Oscar Peterson

Oscar Peterson morreu aos 82 anos no Canadá. Foi um pianista e compositor de Jazz de excepção. Começou a estudar trompete e piano aos cinco anos e foi o primeiro músico negro a actuar numa orquestra de baile no Canadá, em 1943. Nos anos 50 fez vários concertos e gravações com os grandes nomes do Jazz. Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Carmen McRae, Louis Armstrong, Lester Young, Count Basie, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, e muitos outros renderam-se à sua forma de tocar. Teve várias formações ao longo da sua carreira. Um dia disse: "Não tenho um único estilo. Toco como sinto".

Jazzin'

Para saber como vai a cultura jazzística na blogosfera, fiz uma sondagem por e-mail com algumas perguntas. A pesquisa foi planetária e em várias línguas. O curioso foi que 50% dos inquiridos disseram ter idades compreendidas entre os 20 e os 30 anos e os restantes entre os 40 e os 55 anos. Fora destas faixas, o deserto. Será que o inquérito foi controlado pela CIA ou a Al-Qaeda? Esta sabe o que é o Jazz? As respostas que nada tinham a ver com este assunto não foram consideradas mas o meu vocabulário enriqueceu... As perguntas eram fáceis, mas os resultados surpreendentes.

1. Quem foi Oscar Peterson?
15% General do Iraque.
30% Presidente da Austrália.
25% Fuck Off.
30% Escritor hardcore.

2. Já ouviu música de Jazz?
20% Não tem nada com isso.
35% Acho que sim, no elevador.
15% Quem é o Jazz? Não conheço o cantor.
30% Quando os vizinhos de cima fazem amor.

3. O que é um crooner?
40% Um chulo que come muitas gajas.
30% Um sapateiro.
25% Um cachimbo de ópio.
5% Um desentupidor de canos.

4. Diferença entre um trompete e um sax?
35% Sax não conheço, só sex.
25% São irmãos, mas o sax usa sempre gola alta.
25% A pergunta é um pouco ordinária, não?
15% Nenhuma, são ambos árabes.

Dezembro 26, 2007

Eros em Segredo

Este é um dos quadros que está em exposição numa estação fantasma de metro de Paris. Voltou a funcionar apenas para promover uma exposição de obras eróticas chamada "O Inferno da Biblioteca – Eros em Segredo". A estação Croix-Rouge não está nos mapas do metropolitano parisiense, porque está desactivada desde a Segunda Guerra Mundial. Para receber a exposição, o espaço foi melhorado e decorado com desenhos e textos eróticos. Obras do Marquês de Sade e outros libertinos podem agora ser vistos de um novo ângulo. Quando uma carruagem do metro passa, os painéis colocados nas paredes levantam-se e revelam o seu conteúdo erótico. Em exposição está também um um guia das "demoiselles de Paris", com endereços de prostitutas, datado de 1791. Mas há mais curiosidades sobre a libertinagem de outras eras. As obras de arte erótica podem ser vistas até 2 de Março de 2008.

Foi há 3 anos

Mulher chora morte de familiar vítima do tsunami
Fotografia de Arko Datta
World Press Photo of the Year 2004

Dezembro 25, 2007

O Poeta

Fotografia de Kok Nam

Trabalha agora na importação e exportação.
Importa metáforas, exporta alegorias.
Podia ser um trabalhador por conta própria,
um desses que preenche cadernos de folha azul
com números de deve e haver.
De facto, o que deve são palavras;
e o que tem é esse vazio de frases
que lhe acontece quando se encosta
ao vidro, no inverno, e a chuva cai do outro lado.
Então, pensa que poderia importar o sol
e exportar as nuvens.
Poderia ser um trabalhador do tempo.
Mas, de certo modo, a sua prática confunde-se
com a de um escultor do movimento.
Fere, com a pedra do instante,
o que passa a caminho da eternidade;
suspende o gesto que sonha o céu;
e fixa, na dureza da noite,
o bater de asas, o azul,
a sábia interrupção da morte.
Nuno Júdice

Dezembro 24, 2007

Natal alternativo

Estamos em plena época da engorda. No Natal saltita-se de comício em comício e de bebício em bebício até ao fastio final. A espiritualidade da estação esmoreceu completamente. Por isso, a época também é dada a depressões e tristezas. Mas estas, há muito que deixaram de ser doenças alternativas da época. Acompanham-nos o ano todo. Para afastar a tristeza e para quem não gosta do bacalhau nem da tia Lulu que está sempre a dizer "estás mais magro, vê lá se te alimentas", fique a saber que há vida para além da sala de jantar. Eis algumas propostas em Lisboa e no Porto. Na capital, pode-se dançar na noite de Natal. Na discoteca W, é a noite Bollywood. Estar "in" é ir vestido como as vedetas do cinema indiano. Pode ir com pinta ou sem pinta vermelha na testa. Mas a melhor noite de Natal é no Maxime. As comemorações estão a cargo dos Pop Dell´Arte. Um regresso sempre aplaudido e que garante casa cheia. O espectáculo chama-se PopPlastik. No Porto, é a 12ª vez que se realiza a festa Natal Comix. Acontece no Bar Porto Rio. As sonoridades estão a cargo do DJ Peter Shark. Have fun.

Dezembro 23, 2007

BCP no fio da navalha

O BCP está pior do que se pensava. Mas que dizer? É um banco português, carago. De banco de sucesso, passou a um antro sórdido. Normal. As práticas pouco limpas que, ao que parece, têm sido habituais ainda não revelaram a existência de cadáveres. É só o que falta neste caso sórdido. As revelações têm saído a conta-gotas mas vão num crescendo de gravidade. Tudo isto tem um nome: Jardim Gonçalves. O anjo negro. Se havia ainda algumas dúvidas, o resultado está aí: o Banco de Portugal retira o tapete ao gang de Jardim Gonçalves. E condena as operações feitas com sociedades «offshore». Para já Filipe Pinhal, o presidente do BCP, está fora da jogada. Mas os grandes investidores também não morrem de amores por Carlos Santos Ferreira, da CGD, apontado como o "next big boss". Todos querem fumo branco, mas é coisa que não há nos meios ínvios por onde o banco tem andado ultimamente. O ar e as práticas estão viciados. Cheira mal. Se o Banco de Portugal considera a situação grave e estes negócios se enquadram nos considerados crimes de colarinho branco, a pergunta óbvia que mais uma vez se põe é: ninguém vai preso?

Dezembro 21, 2007

A vida segundo Charlie

"A coisa mais injusta da vida é a maneira como ela termina. Está tudo ao contrário. Acreditem que o verdadeiro ciclo da vida está de pernas para o ar. Devíamos primeiro viver num asilo, até nos expulsarem por sermos demasiado novos. Ganhávamos um relógio de ouro e íamos trabalhar. Depois estávamos 40 anos num ou vários empregos até ficarmos suficientemente novos para podermos aproveitar a reforma. Era uma curtição. Podia-se fumar à vontade, beber muito álcool, ter muitas namoradas ou esposas e fazer muitas festas. No fim deste período, preparamos a entrada na universidade. Depois entramos num colégio, também com várias namoradas, mas mais novinhas. Algum tempo depois ficávamos criança. Sem nenhuma responsabilidade, hem? Depois, passa-se à fase do bebézinho amoroso, de colo. Esta parte passa depressa e rapidamente se regressa ao útero materno. Os últimos nove meses de vida são passados a flutuar e a dar pontapés. Tudo termina com um grande e fantástico orgasmo! Não seria perfeito?"
Charles Chaplin

Dezembro 20, 2007

Amy Winehouse

They tried to make me go to rehab
I said no, no, no.
Yes I been black, but when I come back
You wont know, know, know.
I ain’t got the time
And if my daddy thinks im fine
He’s tried to make me go to rehab
I wont go, go, go.

Dezembro 19, 2007

Chicago, Oporto

A polícia andou tão atarefada nestes últimos seis meses com a União Europeia que o crime teve de pôr ordem no território. A secção regional do Porto da Camorra teve de intervir e controlar a noite do Porto com mão de ferro. Limpou uns tipos que não quiseram beijar o anel ao “capo” e alargaram a sua zona de influência na invicta Chicago. As mortes vieram estragar tudo. Se fosse uma ou duas, as coisas passavam. Mas chegou à meia dúzia e uma foi em Lisboa. Aqui, o caldo entornou-se.
Os Maus. Tudo começou com uma estalada e acabou com várias mortes. Os Al Capones nacionais passearam-se durante o tempo que quiseram e foram matando quando e quem lhes apetecia. Às vezes o destino marcava a hora por encomenda digital. Cenas de pancadaria, carros a chiar, gajas aos molhos e droga da melhor fez parte da vida dos gangs do norte durante os meses da presidência europeia.
Os Bons. Os polícias, que são malta fixe, divertiam-se com o que viam mas não se metiam. Essa coisa chamada “Ordem Pública” é para o ministro que ganha bem. Entre um morto e dois feridos, lá aparecia o porta-voz do sindicato a dizer que não têm equipamento adequado nem armas capazes. Só com um aumento salarial é que conseguem cumprir a sua missão. No meio desta história chegou-se à conclusão que havia polícias que queriam ser Al Capones e Al Capones que estavam na lista de espera para entrarem na polícia.
Os Chefes da Banda. O Procurador-geral nomeia a procuradora Helena Fazenda se dedicar em exclusivo ao assunto. O director nacional da PJ não gostou: mandou avançar a operação “Noite Branca”, que deteve 11 suspeitos. Seis já estão cá fora e a acusação de terrorismo caiu. Os interrogatórios continuam, mas o Bruno Pidá vai ser entronado como o novo Lucky Lucciano. Perante esta agitação, os grupos mafiosos estão atentos e não se mexem. A guerra a sério é agora entre polícias e procuradoria. Helena Fazenda, a procuradora designada, está no Porto, enquanto a PJ do norte contínua as investigações. Quando os paraquedistas lisboetas” se cansarem de andar por lá e regressarem à capital, tudo volta ao normal. Polícias a quererem ser Al Capones e os Al Capones a quererem ser polícias. Ah. E rappers, com carrões, gajas, armas e aditivos. Gostaram de se ver no You Tube.

Dezembro 18, 2007

Arthur C. Clarke

Arthur C. Clarke fez 90 anos. Vive desde 1954 no Sri Lanka e continua à espera que um ET lhe dê um toque, porque "não estamos sozinhos no universo", diz ele. O que ele não disse é que há muitos extraterrestres entre nós. Não andam muito escondidos e temos de os aturar em todo o lado. No trabalho, no cinema ou no bar de alterne. Quem anda desaparecido é o Hal, o computador do filme "2001, Odisseia no Espaço". Aquele engenho estranho é louco. Aquilo que ele fez, está mal. Arthur C. Clarke é um visionário e previu essa dependência dos computadores. Hoje eles dominam tudo. Arthur C. Clarke é o último dos "três gigantes da ficção científica" ainda vivo. Isaac Asimov e Robert A. Heinlein já cá não estão. Na sua nonagésima viagem à volta do sol, disse: "sabemos que estamos a envelhecer quando as velas começam a pesar mais do que o bolo". É verdade. Mas hoje com os computadores, há remédios para tudo. O Sarkosy que o diga.

Dezembro 17, 2007

Carla Bruni

Esta é a nova namorada de Nicolas Sarkozy. A cantora Carla Bruni, que também já foi modelo, além de ter um corpo de morrer, tem também uma voz fabulosa. O que surpreende neste novo romance é o estilo do presidente de França. Está-se nas tintas para o que se diga. E sendo de direita deve estar a provocar dores de cabeça no sector mais conservador de França. Esta nova ligação não se enquadra muito nos padrões tradicionais. Carla Bruni é uma bomba. Com Carla Bruni, qualquer homem fica hirto e firme. Sarkozy divorciou-se em Outubro e, ao que parece, estava farto de pôr notas na calcinha da stripper do cabaret do bairro. E quis uma relação mais estável. Enganou-se. Estava melhor com a stripper. Carla é um furacão. Uma mulher com muita vida e bastante motivada. Para tudo. Além do mais, joga bem em vários campos. Depois de se destacar na passerelle, foi a cantora revelação em 2002. Considerada pela crítica como a nova Françoise Hardy. "Quelqu'un m'a dit" foi a música que embalou muitos romances e cambalhotas. Uma coisa é certa. Nicolas Sarkozy está de novo na ribalta. Em França, já ninguém se lembra do Tratado Reformador, o que é mau, e todos têm inveja de Sarkozy, o que é bom. E eu a pensar que ele andava atrás da filha do padeiro que fornece a presidência francesa. Erros de trajectória.
PS: Este post deve-se unicamente a Carla Bruni, uma mulher que admiro pelos seus enormes atributos.

Dezembro 16, 2007

Pablo Picasso

Picasso e Jacqueline, 1957
Fotografia de Davis Douglas Duncan

''A arte é uma mentira
que nos faz compreender a verdade.''

Pablo Picasso

Dezembro 15, 2007

Ike & Tina

É definitivo. Deixou de ser possível a reunião de Ike e Tina Turner. Este anúncio foi divulgado pelo fornecedor de Ike, que apenas disse esta frase lacónica: "o gajo devia-me dinheiro". Tudo o resto vem nas entrelinhas. É uma pena. Gostava de ouvir "Proud Mary" pelo duo. Tina nunca se deu bem com os tiques sadomasoquistas de Ike. O médico aconselhou-a a mudar de ares. Ele bem podia ter tratado o marido e assim mantinha-se um duo importante. Mas os médicos gostam de doentes com boas pernas. E incentivou a separação. Mas continuou a acompanhar Tina, por muitos e longos anos. Chamem-lhe parvo. Tina, às vezes até levava a amiga Ann Margareth à consulta. O médico gostava ainda mais. Agora acabou. O médico e o duo. Não há mais Ike and Tina Turner. Espero que os Led Zepplin entendam a mensagem. Deixem-se de coisas. Comecem já a preparar a digressão. E não permitam que o médico de Tina Turner se interponha na vossa relação.

Betão no Cais do Sodré

Depois da absurda Administração do Porto de Lisboa (APL) ter concretizado dois terços das obras no Cais do Sodré, vem agora pedir a concessão da licença à Câmara de Lisboa. E com carácter de urgência. A APL quer as agências de Segurança Marítima e do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência inauguradas até ao final do ano. Dá vontade de rir, se não fosse tão absurdo. Como é possível construirem-se edifícios no centro de Lisboa, sem uma licença? A Câmara fez algo de sensato: adiou a sua concessão e quer falar com a administração do APL. Esta, que além destes mamarrachos pós-modernos, autorizou ainda a construção de um hotel junto ao Monumento dos Descobrimentos, tem-se revelado uma espécie de cancro para a capital. O seu passado é negro e os diversos governos sempre lhe deram apoio. Os edifícios das agências europeias no Cais do Sodré geram uma pressão urbanística que bem podia ser evitada. E acabam por transformar as edificações num atentado. A autarquia quer também mais informações sobre os "arranjos exteriores" das edificações e as contrapartidas para a cidade. Só que ainda vai ser construído mais um edifício naquele local. A Câmara disse que também quer saber mais sobre isso. Mas esta Câmara é de Lisboa ou de Almada? Fica surpreendida por algo que já sabia e deveria ter tomado posição? Não são precisos milhões nem a Assembleia Municipal para fazer frente à APL. A Câmara só tem um caminho: deixar-se de desculpas, avançar para a luta e derrubar a fera. Que se calhar tem de passar a ferro o ministro Mário Lino, que é a tutela. Mas talvez ele até agradeça. Há quem diga que está de saída...

Dezembro 14, 2007

Terra: Hora Zero

Em Bali continuam os debates, já depois do tempo regulamentar da Cimeira sobre o clima. Que já devia ter acabado e bem. Mas não. O impasse nas negociações tem um nome: EUA. Sempre o mesmo. Com a Austrália a mudar de campo, estão completamente isolados. Pela primeira vez a União Europeia está a tomar uma posição de força e ameaça boicotar futuros encontros para revisionistas apanhados do clima. A UE força agora os EUA a aceitar os objectivos acordados pela esmagadora maioria em Bali. Dez anos depois do Protocolo de Quioto, os Estados Unidos e a China continuam no topo da lista dos países mais poluentes. Os cientistas já alertaram. A última década foi a mais quente de que há memória. A temperatura média foi superior aos valores registados nas últimas décadas. Os Estados Unidos, liberados pela aberração Bush, estão-se nas tintas. Até quando?

Gisele Bundchen

Sou bela, ó mortais, um sonho de cristal,
E meu seio onde todos imploram favor
Nasceu para inspirar ao poeta um amor
Assim como a matéria, mudo e imortal.

Indecifrada esfinge, ao azul subi;
Neve no coração, a brancura é minha;
Odeio o movimento que desfaz a linha,
Sou a que nunca chora, a que nunca ri.

O poeta, diante do meu ar severo
De estátua altiva sobre o pedestal,
Consumirá seus dias em estudo austero;

Tenho para encantar este amante leal
Um espelho que faz cada coisa mais terna:
Meu olhar, puro olhar de claridade eterna.

Dezembro 13, 2007

O Tratado Europeu

Hoje é o dia do funeral da Constituição Europeia. Aquela que era preciso pedir a opinião dos europeus. Ou seja, referendar. Depois de dois anos e meio de análises, discussões e debates, nasce hoje o Tratado de Lisboa. Pronto a usar. Sem necessidade de arranjos, referendos ou discussões. Os cidadãos, esses chatos, não são ouvidos nem achados. Excepto os irlandeses. De resto, todos avançam para um processo de ratificação nos seus parlamentos. Só os iluminados vão dizer SIM. Os não-iluminados, conhecidos pelos sem-luz, ficam a ver o que acontece pela televisão. Sem direito a votos nem a sorteios de 100 moedas de prata se acertar no preço certo das caras do jet-set. Com o Tratado, a União Europeia deixa de ser Comunidade e passa a Entidade. Internacionalmente, arrisca-se a ser conhecida como IT. Que, como sabem, em inglês significa Coisa, ou Gordon Brown.

Dezembro 12, 2007

Rio, 40º

Não é o documentário de Nelson Pereira dos Santos, referência clássica do moderno cinema brasileiro, ainda Glauber Rocha era moço baiano e Ruy Guerra nem sonhava com “Os Fuzis”. É o Rio mesmo, cidade de Janeiro, aquela cidade com dois milhões de habitantes onde Drummond estava sozinho no seu quarto e na América. Faz tempo que o autor de “Claro Enigma” escreveu os versos da sozinhidão. Ainda só dois milhões de habitantes! Quando esperava por Manuel Bandeira descendo da Glória e rumavam até à Lapa para o café bom ou café com pão , se escolhessem as lanchonetes ao redor da Central do Brasil, antes do viaduto e do aterro. Falo do Rio que tem praças e largos: do Machado, praça Quinze, Cinelândia, onde fica o Theatro Municipal. Da cidade das mais desvairadas gentes, do Fernandinho Beira-Mar traficante ainda a comandar o tráfico de droga e tem agora a mulher presa também, coleguinhas de cárcere.
Do Rio das bocas de fumo, corrupio morro acima, morro abaixo, tremedura do taxeiro se lhe entra bandido ordenando serviço mas sorte grande se o cara é profissional e cumpre as ordens. Me contou um: três deles, um logo de metralhadora no colo, aqui na frente a meu lado. Os outros dois atrás. Você pode dar a volta que quiser, pode ir até na Colômbia e voltar mas, por amor de Deus, não deixa que eu enxergue policial. E o velho taxeiro, que trabalha 24 horas seguidas e depois descansa seis, conta como foi tudo limpinho e os ditos chegaram no cimo sem nenhum problema. Prémio? Duzentos reais, cara! E se enxergasse policial? Não quero nem falar, senhor! Como assim? Tratamento de bala. O serviço deles é limpinho, tudo muito rigoroso. Este Rio é uma excitação. Tem tudo, como no poema de Pasárgada. Só não tem é Pasárgada. Tem Congresso de Literaturas Africanas e Festival de Cinema Negro, Dia da Consciência Negra, a 20 de Novembro, rememorando Zumbi. E tem praias, excelentes livrarias, Academia de Letras, poetas bêbados e poetas de paletó (os piores), fio dental para a higiene oral e para a delícia das vistas. Tudo é mulher nele, esse Rio: os morros e as reentrâncias, a redondez do jeitinho brasileiro, o falar gostoso, o suchi e a feijoada, o chorinho em SantaTeresa, as dengosas prostitutas, o safari turístico para todas as taras da cultivada e próspera Europa. Tem até Eça de Queirós e Nelson Rodrigues, o Fernandinho Pessoa e a vetustez do convento de São Bento. Santo paca! E mil poetas. Tudo escreve, tudo publica. Tudo bebe. Tudo futrica. Tudo bembom e assim. Mas o melhor de todos é o negão, cineasta e sabido, andarilho de mundos, que inventa roteiros fabulosos: ele diz que é verdade – vejam bem – que no seu tempo que fez muqueca com suecas loiras, em Estocolmo, até cuidou de uma velhinha, muito velhinha que, por acaso, era a viúva do Al Capone. Dava filme! Oiço e estremeço de inveja. Quando por lá andei, na cidade nórdica das mil ilhas e valquírias, só consegui ver a viúva de Dziga Vertov. Tinha ido à Cinemateca apresentar uma retrospectiva do criador do “cinema-olho”. Obras sérias.Ainda tenho no meu filme interior as imagens dos “Três Cantos a Lenine”. Este meu cara-camba, não. Aventuroso de ruas e gentes, sabicheiro de sortes, privara com Madame Capone. Este é o Rio muito resumidinho onde a temperatura da imaginação ferve sempre a quarenta graus e por extenso. Rio de esculhambação e de celebração: os duzentos anos da chegada da família real portuguesa sendo comemorados com pompa e circunstância, o que sobra dos Braganças de lá em simpáticas entrevistas na imprensa local. E o lado sério que é os muitos livros e a bué de história e os que morrem por um verso ou por um pedaço de pão e dançam o samba sem folclore, o samba da nota só, a consonância e dissonância trágicas e tragicómicas e a potenciação de vida que escorre de tudo, mesmo quando há costura de balas no músculo do sonho e ninguém repara ainda no gigante adormecido e desarticulado entre si.
Luis Carlos Patraquim, in "Savana", Maputo, 07.12.2007

Dezembro 11, 2007

Led Zeppelin

Os Led Zeppelin pairaram sobre Londres esta noite. Fizeram uma apresentação única na O2 Arena para os cerca de 20 mil sortudos. Estes saíram dos 20 milhões de fãs inscritos para conseguirem comprar um bilhete para o concerto. Custava 160 euros, mas houve quem pagasse 60 mil euros por um simples bilhetinho. Mas todos deram o dinheiro por bem empregue. Cerca de 20 anos depois do último concerto, os Led Zep mostraram estar em forma. No concerto não faltaram os grandes clássicos da história do rock como Kashmir, Dazed And Confuse, Stairway to Heaven e Rock And Roll. O espectáculo foi uma homenagem a Ahmet Ertegun, o fundador da Atlantic Records, que apostou em 1968 numa banda acabada de formar chamada Led Zeppelin. Durante o concerto, Robert Plant ia contando histórias sobre os anos quentes dos Zep. Gostava de lá ter estado. É uma grande falha na minha formação e a minha reputação vai ressentir-se. Quanto a uma digressão, está para já fora de questão. Mas nunca se sabe. Eu aposto nesta parte.

Dezembro 10, 2007

Cosmocópula

Fotografia de Brian Pawlowski

O corpo é praia a boca é a nascente
e é na vulva que a areia é mais sedenta
poro a poro vou sendo o curso de água
da tua língua demasiada e lenta
dentes e unhas rebentam como pinhas
de carnívoras plantas te é meu ventre
abro-te as coxas e deixo-te crescer
duro e cheiroso como o aloendro.
Natália Correia, in "Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica", 1965

A capulana

O meu interesse pela capulana vem desde há muitos anos. Talvez posso mesmo dizer que a capulana já fazia parte de mim antes de eu começar a interessar-me objectivamente por ela. Isto naturalmente é verdade para qualquer moçambicano que em bebé tenha sido belecado (trazido às costas). Durante o aleitamento os bebés vivem permanentemente com as mães que, ao longo do dia, para terem as mãos libertas para os afazeres domésticos, os trazem às costas, aconchegados numa capulana especial, o ntehe. E numa família comprava-se um ntehe para cada novo bebé. Eu devo ter tido o meu. E depois do ntehe muitas outras capulanas se seguiram porque , particularmente na vida de uma mulher, todos os actos importantes são marcados pela capulana. Comecei a minha coleccão a partir das capulanas cerimoniais que me ofereceram quando me casei. Passei logo depois a viver fora do país. Quando vinha de férias comprava capulanas, entre as muitas coisas que fazia questão de levar comigo. Com algumas capulanas fiz vestidos, blusas, colchas e outras peças decorativas para a casa, mas muitas havia que não dava para talhar. Eram bonitas demais. Fui-as guardando. E anotando os seus nomes – algumas capulanas tomam o nome de factos marcantes da vida da comunidade, acontecimentos históricos ou episódios saborosos que coincidam com o seu lançamento no mercado. Sempre gostei de ver numa festa ou numa cerimónia uma senhora vestida de mukume ni vemba . É um conjunto clássico no Sul de Moçambique. Consta de duas capulanas cortadas numa mesma peça de pano. A maior, a mukume, com a sua renda branca, vai amarrada à cintura e a mais pequena, a vemba, traz-se pelos ombros, como um xaile. Antigamente usava-se amarrada acima dos seios, por sobre a mukume, uma outra peça mais pequena, mas do mesmo padrão, a meia pano (“meio pano”?). Com mukume ni vemba usa-se normalmente uma blusa de corte simples, cor lisa e de mangas cingidas.Esta blusa é a xicatauana, mas correntemente esta designação reserva-se para uma blusa mais grosseira, com um corte direito que se pratica nas cantinas do mato e que quase sempre fica curta porque se poupou no pano. Como adorno usam-se muitas pulseiras, brincos discretos e, as que podem, um fio de ouro em que já ví aplicada em alguns casos, uma ou mais moedas antigas de meia libra. Estas senhoras de mukume ni vemba têm presença, mostram gosto e requinte. São pessoas que, como o comum da nossa população, vivem modestamente e lutam com inúmeras dificuldades para criarem as suas numerosas famílias, mas elas como que ficam outras quando estão vestidas a rigôr. Percebe-se que aquelas capulanas e o lenço que vai com elas, sairam da mala onde se guardam as coisas preciosas da família.
Texto e Arte de Suzette Honwana
Em exposição na Fortaleza de Maputo, de 12 a 19.12.2007

Dezembro 09, 2007

Momento de leitura light

"Um inglês quase morreu após ficar com a boca presa enquanto bocejava. Ben Shire, de 34 anos, preparava uma chávena de chá quando abriu tanto a boca que o maxilar se deslocou e ficou com a boca travada. O homem caiu na cozinha incapaz de respirar e engolir. Aterrorizada, a mulher chamou os serviços de emergência enquanto o marido quase sufocava com a própria saliva. A ambulância levou o homem rapidamente para o hospital onde um aparelho de sucção acabou por lhe salvar a vida. Quatro horas depois, os médicos lá conseguiram finalmente fechar a boca de Ben Shire."
Fonte: The Daily Telegraph

Cimeira chega ao fim

Foi com beijinhos, abraços e promessas de um futuro melhor que terminou a Cimeira Europa-África. Nos três dias do encontro muito se falou. A polémica rebentou inevitavelmente com a questão do Zimbabué. De acordo com a declaração final, tudo vão ser melhor daqui para a frente. A terceira cimeira vai realizar-se no continente africano em 2010. A Líbia já mostrou interesse em ser o país anfitrião. Kadhafi quer de certeza falar sobre o "problema" das mulheres, como o fez em Lisboa. E terá tendas para todos.

I´m a man of the world

Shall I tell you about my life
They say I'm a man of the world
I've flown across every tide
And I've seen lots of pretty girls
(...)
Fleetwood Mac w/ Peter Green - Man of the World

Dezembro 08, 2007

O bom, o mau e o feio

As imagens falam por si. Mugabe continua a estar debaixo dos spotlights. No entanto, não deixa de ser impressionante ver dezenas de responsáveis políticos de países africanos e europeus reunidos a falar sobre politicas de cooperação entre os dois continentes. Só pelo facto de acontecer é, no meu ponto de vista, algo muito positivo. Mas ainda falta muito até que passem a actos concretos de cooperação e ajuda. No entanto, nestas circunstância ninguém consegue tirar as luvas brancas para discutir todos os problemas com frontalidade. E para que não se esqueçam, os dores de cabeça vêm ter com eles. Ao longo do primeiro dia da cimeira Europa-África, várias manifestações por Darfur, Zimbabué e o esquecido Sahara Ocidental vão lembrar aos chefes de Estado e Governo os crimes cometidos e que se continuam a cometer nessas regiões. Porque a memória tem de ser a última a morrer.

Dezembro 07, 2007

Temas malditos

Nesta cimeira Europa-África vai-se falar muito e de muita coisa. É pena que alguns dos temas de maior importância fiquem de fora. Um exemplo de duas pedras no sapato africano: Darfur e Zimbabué. Lobo Antunes escreveu um dia: "se eu fosse Deus parava o sol sobre Lisboa". Até que tudo ficasse esclarecido, acrescento eu. De qualquer maneira, sei que um dia essa situação vai acabar. Porque, na vida, tudo tem um fim. Só a salsicha é que tem dois.

Dezembro 06, 2007

A Cimeira

Afinal, é tudo uma jogada. O que querem é aparecer nas televisões e gastar dinheiro dos contribuintes. Ainda a Cimeira não começou e já se sabe qual vai ser o resultado final. É fazer batota. Já não vai haver discussões, berros nem peixeiradas. Afinal, o jogo está viciado. Então, andam para aí a queixar-se que organizar a cimeira custa 10 ou 12 milhões de euros e afinal a resolução de domingo já está escrita e tudo? Mugabe já anda por aí a passear, Brown foi fazer compras de Natal a Paris e não vem, os angolanos estão no Ritz de Lisboa a dar uma bruta farra e Khadafi está a apreciar a dança do ventre na sua tenda de Oeiras. Rica vida. Eu não recebi nenhum convite para as festas. Continuo à espera. Afinal andam a pavonear-se porque mandaram uns escravos ao Egipto trabalhar o acordo final. E já se sabe quem vai dar o quê, quanto e como. O documento foi aprovado, na passada quarta-feira. No domingo todos vão assinar por baixo e voltam para as festas. Ficou decidido que a União Europeia vai apoiar a competitividade das empresas africanas com dois mil milhões de euros por ano. É mola, malta. Acho que me vou instalar em África. Sinto que há um chamamento do continente mãe. Para viver, estou a pensar em abrir uma clínica de massagens africanas, com inspiração tailandesa. Só para mulheres dos 18 aos 33 anos. Vou pedir um milhão de euros só para arrancar com o negócio. Oportunismo? Não, não acho que o seja. Isso é linguagem de outras eras, do tempo da guerra fria. Agora chama-se empreendorismo. Há quem alargue o conceito e arrisque mesmo "empowerment". Peace, brothers.

Chavez, o verdadeiro artista

Esteve a moer por dentro, mas não aguentou. Inesperadamente Hugo Chavez contestou os resultados e disse que a oposição obteve uma "vitória de merda". Quanto à derrota, foi de "coragem", foi "melhor que uma vitória pírrica". Por isso, vai fazer novo referendo. Ou vários. Até ganhar. No referendo votava-se 70 artigos da Constituição. 33 foram redigidos pelo punho de Hugo Chavez. Possivelmente de madrugada, depois do amor, na "wee wee hour". Que inspiração. Por se ter empenhado tanto pela democracia socialista, agora os venezuelanos vão ter de aturar referendos várias vezes por ano. Só até Chaves ganhar. Quando tal acontecer, e só aí, é que vence o povo. Nessa altura pode-se chegar à conclusão que afinal as massas populares sempre queriam um estado socialista. Já estavam um bocado esquecidas. Papá Chavez dessa vez perdoa, mas "que não volte a repetir-se"! Que dizer de tudo isto? Prefiro o Cirque du Soleil.

Dezembro 05, 2007

A guardadora de rebanhos

Fotografia de Annie Leibovitz, 2004

Ela era segurança numa discoteca, junto ao rio. Desde pequena que gostava de sensações fortes. Uma noite, apareceu-lhe um tipo parecido com o Roberto de Niro à porta da discoteca e disse, armado engatatão implacável: "Ugh, baby". Ela fez que não entendeu. "Nestas coisas há que ser dura. E só entra quem eu quero", pensou. "Ontem sonhei contigo...", disse ele. "A sonhar morreu um burro", respondeu ela. "A sonhar é que a gente se entende?", espicaçou ele. Ela não respondeu. Já estava a ficar farta deste cabotino. Ele era magro e escanzelado, mas a cara era-lhe vagamente familiar. Acariciou a coronha da Magnun 44 que trazia presa na liga. "Tás aqui, tás a comer...", pensou. A fila de pessoas para entrar na discoteca era grande. Pressentia-se alguma intranquilidade na pequena multidão. Havia algo não se enquadrava neste quadro. "Espere pela sua vez lá atrás...", disse ela com voz afirmativa e projectada. "Sabes quem eu sou?", perguntou irónico o de Niro de bairro popular. "Uma galinha que já foi gorda", respondeu. "Não me insulte, menina, pois no melhor pano cai a nódoa". "Para mim, pão pão, queijo queijo". "Casarás, amansarás...". "São mais as nozes que as vozes". "Palavras loucas, orelhas moucas...". De repente, fez-se uma branca no cérebro. Ela não se lembrava de mais ditados populares. Puxou da Magnun 44 e deu-lhe um tiro na testa. Virou-se para a pequena multidão que a olhava incrédula e disse: "Detesto quando fico sem palavras..." Moral da história. Nem sempre os seguranças das discotecas são os primeiros a morrer. Lição a tirar: os drunfos devem ser tomados com moderação. Caso contrário, corre-se o risco de não reconhecer o comandante da esquadra do bairro.

Dezembro 04, 2007

Laranjas podres no pomar lisboeta

mudam os lideres, mudam as fidelidades

O PSD colocou a Câmara de Lisboa à beira de um abismo. Os nomes dos responsáveis? Pedro Santana Lopes e Carmona Rodrigues. O PSD tem um novo líder. O seu nome? Luís Filipe Menezes. Qual o seu primeiro acto relevante? Jogar com o poder que tem na Câmara para tirar benefícios partidários. Há uma desonestidade profunda quando se tenta tirar dividendos de uma situação grave, cujas responsabilidades apontam todas na direcção do PSD. Os acordos e negociações pontuais que se fizeram vêm revelar o que há de podre em tudo isto. Lisboa está em crise, moribunda. Em vez de se apostar numa solução de conjunto, para que a capital volte a ter o brilho que tinha, só se fala em jogos de poder. Para Menezes, Lisboa que se lixe. Mesmo viabilizando parte da verba, que conclusões se podem tirar? Menezes está-se nas tintas para a capital. Usa o poder que tem na edilidade em seu benefício, para compor o seu perfil de líder perante o seu eleitorado. Acabo como comecei. Lisboa continua à beira de um abismo. Os nomes dos responsáveis? Pedro Santana Lopes, Carmona Rodrigues e Luís Filipe Menezes. Ora bem. Houve um Miguel de Vasconcelos, que teve um lindo fim. Está aberta a época de caça aos patos bravos. Não se inibam.

Literário e badalhoco? Cool...

Norman Mailer. Acabou de morrer e continua a ser premiado. Mas este não é um prémio literário clássico. Mas já lá vamos. Primeiro é necessário destacar que Mailer é o primeiro escritor a receber este prémio, a título póstumo. Também tenho a esclarecer que este é um blogue sério. Só que o prémio também o é, por incrivel que pareça. É do tipo "literário badalhoco". Mailer venceu o prémio “Bad Sex in Fiction Award”, ou seja, foi premiado pela pior descrição de um acto sexual na literatura de ficção em inglês. O que isto significa? Que o escritor norte-americano, acabadinho de bater a bota, foi agraciado por descrever uma cena sexual vulgar, sem gosto e que, além do mais, não excita ninguém. Nem a octogenária que anunciou o prémio. Mas este é sério. E verdadeiro. Foi agora atribuído pela revista de literatura britânica “The Literary Review”. A descrição foi retirada do seu último livro “O Fantasma de Hitler”. Nele, Mailer descreve uma cena de sexo oral mútuo entre um casal. Ou seja, o chamado 69. O prémio é um alerta "para o uso de descrições sexuais redundantes, de mau gosto, grosseiras e superficiais", diz a revista. De qualquer maneira, em Londres, cerca de 400 convidados à cerimónia ergueram os seus copos à memória do vencedor. Finalmente eis a passagem que todos estavam à espera: “...Clara trocou a cabeça pelos pés e meteu a sua parte mais inominável sobre a boca ofegante e o nariz dele. Logo de seguida, colocou o velho cavaleiro, cansado e adormecido, dentro da boca. Estava mole que nem um pedaço de merda...”. E mais não escrevo. A lista de prémios incluía ainda passagens dos livros “Girl Meets Boy” de Ali Smith, “Apples” de Richard Milward e “Absurdistan” de Gary Shteyngart, entre outros.

Dezembro 03, 2007

O Direito à Preguiça

“Sejamos preguiçosos em tudo, excepto em amar e em beber, excepto em sermos preguiçosos.” Lessing

"Uma estranha loucura se apossou das classes operárias das nações onde reina a civilização capitalista. Esta loucura arrasta consigo misérias individuais e sociais que há dois séculos torturam a triste humanidade. Esta loucura é o amor ao trabalho, a paixão moribunda do trabalho, levado até ao esgotamento das forças vitais do indivíduo e da sua progenitora. Em vez de reagir contra esta aberração mental, os padres, os economistas, os moralistas sacrossantificaram o trabalho. Na sociedade capitalista, o trabalho é a causa de toda a degenerescência intelectual, de toda a deformação orgânica."
Paul Lafargue, in “O Direito à Preguiça”, Prisão de Sainte-Pélagie, 1883

Chavez, o homem que queria ser Fidel

Ora aí está algo que ninguém estava à espera. A Venezuela disse «não» a Hugo Chávez. Fica para já afastada a hipótese de ser presidente vitalício. A derrota foi por pouco, mas para quem pensava que a vitória estava no papo, o resultado foi uma hecatombe. Chávez já disse que vai respeitar os resultados. Acredito. Mas para já. Não estou a ver Hugo Chávez a respeitar de forma tranquila e democrática esta decisão que no fundo não é "popular", segundo os seus conceitos. Só porque não foi o "seu" povo. Por certo, voltará à carga de outra forma. Esta era uma porta aberta para muitas coisas. A reforma tinha um nome pomposo: «Socialismo para o Século XXI». Para que fosse possível, tinha de alterar quase seis dezenas de artigos da Constituição. O mais polémico consentia a reeleição presidencial ilimitada, com mandatos de sete anos. Depois, entrava na normalidade. O Comité Central votava, e lá estava mais sete anos. Ou coisa assim.

Dezembro 02, 2007

Le Cirque du Soleil

Lisboa, Pavilhão Atlântico, 01.12.2007

Dezembro 01, 2007

Quem cala, consente

Dentro de uma semana começa a cimeira União Europeia - África. Os temas sobre cooperação, desenvolvimento estratégico e o apoio económico a sectores-chave continuam relegados para segundo plano. Mugabe marca até ao último minuto a agenda mediática. Esta situação prejudica principalmente os países africanos. O primado da má política sobrepõe-se a interesses fundamentais de milhões de pessoas. A luta contra a fome, doenças e o analfabetismo são menos importantes que Mugabe. Um ditador, politicamente analfabeto e perturbado, consegue pôr em risco hipóteses concretas de cooperação. A "sabedoria" dos "mais velhos" vai levar este encontro a um flop anunciado. A cimeira, que poderia ser histórica, vai afinal ser um fait-divers apalermado. É óbvio que os temas agendados vão ser abordados, mas vão passar para segundo plano, porque o diálogo está inquinado. Enquanto os chefes de Estado e de Governo africanos considerarem que o desequilíbrio mental de um governante é mais importante do que negociar acordos de cooperação benéficos para os seus povos, então estamos falados.

Da crítica crítica

«Parece-me antes de mais um ajuste de contas, do qual eu não conheço a primeira partida. Tudo depende do registo em que escreve. Se for um romance que queira respeitar a verdade histórica, qualquer erro é fatal."
Lídia Jorge (escritora)

«Um romance é um romance. Pode-se tudo. Se o Miguel corrigisse os erros que o Vasco lhe apontou seria um romance na mesma. O Vasco é tão brilhante e sabe tanto de História que pega na crítica e dá uma aula. As ideias do livro não são as do Miguel. São ideias recebidas e retransmitidas e que se transformaram em erros de cultura geral sobre aquele período histórico."
Miguel Esteves Cardoso (cronista)

Em toda a actividade de um historiador há também uma percentagem enorme de ficção.Não há uma visão única da história. Há várias. A própria verdade histórica também é ficcionável. A função do historiador é ignorar essa contingência, e a obrigação do ficcionista o inverso."
Mário Cláudio (escritor)

«A crítica de V.P.V. é legítima na medida em que se posiciona como um historiador a escrever sobre dados históricos. Saber se é isso que interessa a um romance histórico já é questionável. (...) V.P.V. aproveita e concentra-se no que conhece, na análise da dimensão histórica do romance. As minhas dúvidas são sobretudo em relação ao critério de ter sido ele o convidado a fazer a crítica. Eles têm uma polémica pública. Eu teria um certo pudor.»
Pedro Mexia (crítico e escritor)
In jornal "Expresso", 01.12.2006