Agosto 31, 2007

Em nome da liberdade de expressão

Esta é a caricatura de Maomé que está a gerar polémica na Suécia. Publicada no jornal Nerikes Allehanda, a 18 de Agosto, o desenho que representa a cara de Maomé com um corpo de cão. É da autoria do artista sueco Lars Vilks. O jornal concordou em publicar o desenho depois de várias galerias de arte a terem recusado, com medo dos protestos muçulmanos. O periódico fez acompanhar o trabalho do artista por um editorial sobre a autocensura e a liberdade religiosa. As reacções não se fizeram esperar. Os muçulmanos a viverem na Suécia protestaram de imediato. Agora, chegou a vez da Organização da Conferência Islâmica. Considera a caricatura uma "blasfémia" ao profeta Maomé. Pedem sanções contra o autor e o director do jornal. O Irão e o Paquistão também já protestaram junto do governo sueco. Este é mais um episódio a juntar à polémica que envolveu a publicação das caricaturas de Maomé no diário dinamarquês Jyllands-Posten, em Setembro de 2005.

A viagem

Baco revisitado para lá das nuvens (2007)
Pintura de Bela Rocha

(Corre o ano de 1560. A nau Nossa Senhora da Ajuda zarpou de Goa com destino à África levando consigo uma imagem benzida pelo papa e uma missão: converter infiéis.)

A vela pincelou de luz a estátua da Santa. Naquele bruxulear, a Virgem parecia animada de vida interior. O padre Antunes certificou-se de que a imagem estava bem apoiada, a salvo dos balanços do mar. Depois, fechou os olhos, deixando-se possuir pelo duplo embalo: da obscuridade e do mar. Acreditava estar dormindo quando um rosto pálido de mulher lhe inundou os sentidos. Era uma jovem despedindo-se na berma do rio Mandovi. Antunes seguia na canoa a caminho da nau e a moça ia caminhando sobre o lodo, arrastando as vestes pela lama. A roupa foi somando peso, dificultando-lhe a marcha. Até que ela decidiu desenvencilhar-se do vestido e passou a caminhar nua. Ela não apenas caminhava: circulava como se fosse a dona do mundo de lá. Por mais que quisesse, o padre não despegava os olhos do seu corpo.
– Você se lembrará assim de mim, disse a desconhecida.
– Cubra-se, mulher…
– Você se lembrará de mim quando for tragado pelo mar, vaticinou a mulher.
O padre despertou estremunhado. Raio de sonho, exclamou. Levantou-se e foi ao convés para respirar. O que sucedia para ser assaltado por sonhos eróticos? Talvez fosse a noite particularmente ventada, talvez fosse a ondulação cavada que se fazia sentir. Olhou a fogueirinha de sinalização e vislumbrou o escravo Nimi Nsundi tomando conta do fogo. Fez-lhe um sinal e o outro respondeu com ensonado aceno. O negro sossegou, pensou o português. Regressou ao quarto, voltou a deitar-se e não tardou a mergulhar no mesmo sonho, o mesmo rio o envolveu num crepitar de ondas. A voz suave da mulher estava agora mais próxima, segredando ousados convites:
– Toque-me, toque em mim que eu o farei renascer.
Travessias oníricas no batelão da velha casa (2007)
Pintura de Bela Rocha

O padre fez chegar a canoa para junto da margem, a mulher estendeu-lhe uns braços estranhamente compridos, os dedos lhe roçaram a pele, arrepiando-o. Antunes não negou o seu abraço quente e as femininas mãos o enlaçaram como lianas, fazendo balouçar a barcaça. O padre tombou no rio e se afundou nas águas turvas. Sentiu que desvanecia, puxado por obscuras forças que o faziam submergir. Até que delicados braços o puxaram para a superfície. É ela que me está salvando, pensou. Soltou-se já sem alma, o seu corpo emergindo de um ventre de mulher e, numa espécie de parto às avessas, foi assomando à tona da água. Quando, finalmente, reganhou ar e luz, Antunes se libertou desse abraço redentor.
– Acudam-me!, gritou.
Mas não foi voz humana que respondeu. Diante dele estava Nossa Senhora, em carne e osso. As suas vestes estavam encharcadas e o rosto salpicado de lama. Foi entrando nas águas, os braços movendo-se como se fossem barbatanas, os olhos redondos, sem pálpebras.
– Sou kianda, a deusa das águas.
O padre Antunes de novo pulou da cama, esbracejando a enxotar o sonho, repelindo pecaminosos pensamentos. Quando assomou ao convés, uma tempestade violenta havia deflagrado e os marinheiros, atarefados, corriam de barlavento para sotavento, cuidando de não serem tragados pelas vagas que varriam a coberta. Mais além, soldados metiam fogo a um falcão para avisar as outras naves da sua nebulosa localização. O projéctil, como ave incendiada, subiu na escuridão. O padre estremeceu: a bala de pedra incandescida não evoluía nos céus mas era dentro dele que ardia, consumindo-lhe o peito e enchendo-o de fumos e desesperos.
Mia Couto, in “O Outro Pé da Sereia” (excerto), 2006
Prémio brasileiro Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura, 2007

Agosto 30, 2007

Moçambique: um Estado refém do crime

Raramente nos dias que correm é possível manter uma conversa sem se fazer menção à galopante onda de crime que se apoderou da sociedade moçambicana, com particular destaque para a cidade de Maputo. Os incidentes sucedem-se com uma frequência que cria a impressão de estarmos sob um estado de sítio. Se antes as principais vítimas do crime eram civis, actualmente os criminosos parecem ter adicionado à sua lista também agentes da Polícia como alvos das suas nefastas actividades.
O assassinato de três polícias à paisana na noite da última sexta-feira é prova desse facto, e mostra o quão grave a situação se tornou. Causa tamanha intriga que os agentes tenham sido abatidos mesmo quando não envergavam qualquer farda policial, fazendo-se transportar numa viatura civil. Alguém que tinha conhecimento detalhado do seu plano operacional terá alertado os assassinos? Dá para suspeitar, o que a ser verdade revela o elevado nível de infiltração em que a Polícia moçambicana se encontra.
Apesar de todas as mudanças verificadas na corporação desde a chegada do novo comandante, há quase um ano, a situação não só não melhorou, como também tornou-se ainda pior. O que também pode servir para dar credibilidade aos rumores segundo os quais algumas chefias da Polícia não terão gostado da nomeação de um militar para o seu comando, e que estariam agora empenhados em frustrar qualquer que seja a acção do novo comandante. Mas se este for o caso, ele deve ser a expressão mais alta da ausência de profissionalismo da nossa Polícia, pois os seus agentes deviam saber que, em última instância, eles devem lealdade ao povo moçambicano, através do Comandante em Chefe das forças de defesa e segurança, uma figura eleita pelo povo para salvaguardar os interesses nacionais.
Por outro lado, também é possível que o comandante-geral da Polícia pode não estar a ser sabotado (admitindo essa hipótese) simplesmente pelo facto de ser um elemento que vem de fora da corporação, mas devido a algum trabalho que tenha tentado fazer para desfazer uma teia de corrupção na Polícia, que poderá incluir certas cumplicidades de alto nível com elementos ligados ao crime.
A forma impune como o crime violento tem vindo a alastrar-se e a apetência especial que os criminosos têm pelos agentes da corporação como alvos não podem, nos olhos do povo, ter qualquer outra explicação. É que a fase a que chegamos é a tal que uma vez o antigo deputado da Assembleia da República e actual membro do Conselho Constitucional, Teodato Hunguana, havia afirmado que haveríamos de chegar se não controlássemos os nossos criminosos. Hoje, pela forma como as coisas se apresentam, o Estado ficou cativo dos interesses de um sindicato do crime muito bem organizado.
Editorial do Jornal “Savana”, Maputo, 24.08.2007

Agosto 29, 2007

Procurar emprego

Botero - Adão e Eva


- Este parece bom. "Tem que ter boa aparência".
- Eu tenho.
- "Curso secundário completo".
- Eu tenho.
- "Noções de inglês".
- Ai réf.
- O quê?
- Ai réf. "Eu tenho", em inglês.
- É "ai rév".
- Eles não querem noção de inglês? Noção eu tenho.
- Acho que eles querem mais do que "ai réf".
- Que mania de inglês. O emprego é nos Estados Unidos?
- Não.
- Pois então.
- Aqui tem outro. "Deve ter curso de informática".
- Qualquer imbecil pode manejar um computador.
- Experiência em gerir escritório.
- Qualquer imbecil gere um escritório.
- Não serve qualquer imbecil.
- Hein?
- Está escrito aqui. "Não serve qualquer imbecil."
- Vê outro.
- "Trabalhe próximo da direcção."
- É esse. Senti que é esse.
- "Esteja preparado para viajar muito e conhecer pessoas."
- Sou eu escrito. Precisa de inglês?
- Não. De carteira de motorista.
- Carteira de motorista?
- É táxi.
- Táxi... Não deixa de ser um trabalho interessante. Vou ter autonomia. Tomar minhas próprias decisões. Viro à esquerda? Viro à direita? Atravesso no amarelo?
- Olha este aqui. "Cargo de alta responsabilidade. Diploma de Harvard bem-vindo, mas não essencial. Dá-se preferência a poliglota com conhecimento de finanças internacionais. Deve estar disposto a morar em Genebra".
- Nunca! Dizem que Genebra é uma chatice. Vê outro.
Luís Fernando Veríssimo, in "Crónicas Seleccionadas do Estadão"

Memória

Há 74 anos foi criada uma instituição das mais tenebrosas que alguma vez houve em Portugal, colónias incluídas: a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE). Foi a sucessora das forças "anti-agitação" criadas em Lisboa e no Porto, com o advento da ditadura militar de 1926. Tinha como função geral "prevenir e reprimir os crimes de natureza política e social". Na prática combatiam todos os que não gostassem do regime, tais como os comunistas e seus amigos. No fim da II Guerra Mundial, passou a chamar-se PIDE, Polícia Internacional e de Defesa do Estado, e reforçou os poderes. Podia, por exemplo, manter pessoas na prisão por tempo indeterminado, qualquer que fosse a decisão do tribunal. Em 1969, mudou o nome para Direcção-Geral de Segurança (DGS) mas a merda era a mesma.

Agosto 28, 2007

BCP: nem duelo nem pôr-do-sol

No BCP está tudo na mesma. A 3ª Assembleia-Geral do banco foi um fracasso. Ainda não foi desta que de lá saiu um rosto para o novo ciclo. Mas já houve baixas no Opus Dei. O tiro foi bem na testa do mais novo. Curiosamente, o mais velho também não saiu melhor no figurino. Está mais fragilizado. Desta vez não houve nenhum problema informático. Apenas problemas nas cabeças em disputa. Tacitamente acordaram numas tréguas. Por uns meses, já não são semanas. Mas custam dinheiro. E se há coisas que esses senhores não gostam é perder dinheiro. Antes a morte que tal sorte. Então porquê estas tréguas antes do duelo final? Porque todos sabem que o remédio pode ser pior do que a doença. E ninguém empurra o seu candidato para o largo poeirento de terra vermelha. Nem mesmo Joe Berardo. Saiu mais comedido. Anda meio drunfado com o seu papel mediático. Embora a cotação dos títulos na bolsa tivesse subido, as coisas também não correram bem à sua task force. Não se votou nenhum ponto previsto. E ele queria votar. Muito. Para já a crise fica em águas de bacalhau nos próximos meses. Para os dois lados é o menos mau. Por incrivel que pareça. Isto está mesmo a ficar uma chatice. Não há mortos nem sangue. Belo filme série B. Alta Finança. Bahhh...

Agosto 27, 2007

A Grécia em chamas

Sul da Grécia, ontem à noite

A Grécia arde há vários dias. Mas quem devia estar nas brasas são os que provocaram esta situação. Até agora já são mais de três dezenas. Este é um problema muito familiar entre nós. Por cá os incendiários não ficam muito tempo atrás das grades. Ou são inimputáveis ou então não se provou a culpa. E acabam todos por sair em liberdade. Na Grécia as leis não devem ser muito diferentes. Mas o facto de mais de metade do país estar em chamas parece tê-los acordado. E radicalizam a solução do problema. Querem equiparar o crime de fogo posto a um acto terrorista. Tudo para garantir mais poderes às autoridades na detenção e fase de inquérito. Só que isto não é um acto terrorista. E não se pode misturar alhos com bugalhos. O que motiva estes “pirómanos” ou são taras a precisar de internamento hospitalar ou são motivos económicos ligados ao negócio das madeiras ou à construção civil. Podem muito bem alterar a lei existente e agravar a pena. Para que os verdadeiros culpados paguem duramente pelo que fizeram. Mas daí a ser terrorismo vai um passo largo. Bom, este ainda é um assunto muito quente e os ânimos andam muito inflamados, a escaldar mesmo. O debate pode seguir dentro de alguns dias.

Alberto de Lacerda

Este verão não está a ser favorável à cultura nem aos seus membros mais ilustres. O poeta moçambicano Alberto de Lacerda faleceu ontem em Londres, onde vivia desde os anos 50. Os despachos das agências não acrescentam muito mais. Para Eugénio Lisboa, seu amigo e ambos naturais de Moçambique, Lacerda é um dos maiores poetas de língua portuguesa do século XX. "Ele é um dos líricos mais puros da língua portuguesa. Era igualmente um homem de grandes convicções políticas. Era de esquerda. A sua poesia, embora 'contaminada' por uma grande empatia com o sofrimento humano, em nada alterava o seu lirismo".

«O círculo completo que mantém
A coroa fantástica da terra,
Contradição divina que sustém
O que soergue humanos e os aterra
Desde o princípio ao fim da existência
Levei anos e séculos em guerra
Para unificar essa vivência
Exaltada do espírito e da carne
Numa fusão: inédita inocência!»
in "Elegias de Londres", 1987
Alberto Lacerda
(1928-2007)

Easy Listening

Este é um verão atípico. Chuva, calor, granizo, ventos fortes e 6 graus nas Penhas Douradas. No tempo em que estas músicas enchiam as rádios, os verões eram normais. O mastigar da chewing gum, mais conhecida por chuinga, ou pastilha elástica de acordo com o dicionário do Francisco Torrinha, acompanhavam estas músicas da treta. Mas as namoradas gostavam muito. Os discos dos Grand Funk tomavam o lugar que mereciam no gira-discos já noite dentro, completamente after hours. Chegava a hora da vingança. Alguns destes discos partiam-se, vá-se lá saber porquê...

Agosto 26, 2007

Prazeres diferentes

Dog eat Warhol
Anónimo

Betumismo - (lat.«bitumen», espécie de pez da Palestina e da Babilónia)
Diz-se da prática que consiste em enterrar-se sob vários litros de uma massa artificial composta de gré, óleo de linhaça e outros ingredientes, no momento exacto em que uma caricósica atinge o orgasmo com um molognosómico.

Caricose - (do gótico «tappa», tampão)
Consiste em praticar coito vaginal sem interrupção durante todo o tempo que dura a menstruação da parceira feminina.

Alcagoitodomia - (do grego «alkhagoitos», amendoim)
Diz se da prática de comer leguminosas de frutos subterrâneos cuja semente fornece um precioso óleo durante o acto. Muito popular entre as classes ociosas.

Bibliolite - (do grego «biblion»)
Diz-se da prática masturbatória com um livro aberto (de capa mole) ou fechado (de capa dura).

Fotocopiofilia - (do grego «photos» e do latim “copio, onis»)
Consiste na prática de colocar a genitália sobre uma máquina de fotocópias até atingir o clímax. Segundo os investigadores, a excitação deve-se às capacidades fotofilíacas do jorro de luz que a Xerox produz para reproduzir o original.
Nota: têm-se verificado efeitos secundários nocivos, como inflamações oculares, resultado de abusos fotossintéticos, sobretudo no caso das mulheres, por não conseguirem fechar cabalmente a tampa da máquina.

Catedralismo - (do latim «cathedra», assento ou banco)
Diz-se da prática onanista onde o sujeito passivo fica impassivelmente sentado. Numa das variantes, o catedrático fala ao telefone com uma terceira pessoa, praticando desse modo o esfreganço ou «frotismo» à distância.

Coinilingus - (do angl. «coin», centavo)
Consiste na introdução de una ou mais moedas num dos orifícios naturais, e grunhir como um porquinho. Muito popular cm alguns cantões suíços.

Continência(do latim «continentia», privação)
Diz-se de todo o prazer adquirido através da retenção de tudo aquilo que pode ser expelido. Exemplo: fezes, urina, transpiração, ranho, perdigotos.

Ectroticomania
- (do grego «ektrotikos», abortivo)
Diz-se da tendência compulsiva que leva algumas mulheres a praticarem esforços físicos durante o período de gravidez. Exemplos: andar a cavalo, jogar squash, correr a maratona, saltar à corda, jogar basquete, canasta, etc.

Carlos Quevedo, in "Já Não Me Lembrava", Oficina do Livro, 2006

Gralhas

A gralha insinua-se, poisa onde menos se espera. De tal forma ela é omnipresente que já se escreveram mil e uma crónicas sobre o assunto. E livros. Não vou maçar o leitor com a milionésima segunda variação. Para quem quiser afundar-se na chateação absoluta sugiro a “Crónica do Cerco de Lisboa”, de Saramago. Há na trama do livro uma gralha, ou coisa parecida, e um tipógrafo, ou revisor – já não me lembro bem – que farão a delícia dos soturnos, tristes, minuciosos, coca-bichinhos, lentos sorvedores dos sentidos que às vezes não há ou se estendem para lá de toda a razoabilidade e confundem fôlego narrativo com uma espécie de lógica cumulativa de situações e de palavras. Será que as gralhas crocitam? São corvídios? Se sim, podia dar-se-lhes o nome de Vicentes? Vicentes é, ao que sei, o nome que têm os corvos em Lisboa. Verdade é que persistem, duram. Longa vida as faz ciscar ou apor nos textos uma espécie de guzano semântico. Será que há erro ou gralha nesta arrevesada construção morfo-sintáctica? Enfim, demasiadas perguntas. Mas a verdade é que as gralhas também podem ser úteis. Um sigesmebundo autor mete a patra na poça. O crítico protesta. Mas a resposta é lesta: foi gralha. Engano ou simples ignorância, isso nunca! E dá-se um porrete no cocuruto do tipógrafo… que já quase não existe… eu sei. Da gralha propriamente dita quero dar conta da última, minha, propriedade privada desta crónica. E foi na semana passa na brevíssima homenagem ao poeta cabo-verdiano João Vário. Transcrevi-lhe um excerto de poema, retirado dos “Exemplos”:
"Ó anciãos deste mundo, de Faro ou Florença,/ de Salamanca ou Helsinborg,/quantos olhos se levantaram já diante de vós/ sem que se tenham secado os rios das vossas cidades/ ou pisem os vossos pés de outro modo a terra firme?”.
Diante de voz era o que estava grafado. Vozes a perturbarem a eloquência dramática da interrogação. Fica o reparo, portanto. Mas voltemos a elas. Talvez as gralhas rondem quem as mereça. Esta crónica, por exemplo, começa a crocitar deveras. Mas às vezes há prótese(s), empentese(s) e paragoge(s) com inesperadas cargas subversivas ou propiciadoras do riso. Alexandre O’Neil foi mestre dessa arte. Abstenho-me de citar a célebre frase publicitária a-propósito da marca “Bosh” que, segundo o poeta de “Um Adeus Português”, era boa. O que nunca se deve fazer é entrar em polémicas e mal-dizeres que tenham como consequência frases como esta, avulsa, sacada de jornal brasileiro:“Quando o grande Oriano de Almeida adoeceu e se internou no hospital, de onde não mais saiu, as gralhas voaram sobre sua cumeeira. Foram vôos rasantes que duraram meses”. Coitado dele! E coitados de nós que as digerimos quotidianamente sem pormos siso em seus voos rasantes e falhos que estamos de qualquer cumeeira. Um tal Marcelino Antônio Dutra, brasileiro, que fazia gazetilhas e poemas satíricos à século XIX, tempo dele, escreveu, desancando num outro tal Arcipreste Paiva, o seguinte:
“Ali sandices vomita/o fofo “Libertador”,/ Em camisas de onze varas/ foi meter-se o falador// Seu alvo (diz a Gazeta)/ foi deprimir o rival,/ há quero-queros que imitam/ as gralhas em falar mal”.

Desamada é a bicha, portanto. E deprime. Não obstante, e por uma combinatória do acaso, por vezes suscitar autênticas descobertas – quantos neologismos poderão ter surgido de meras gralhas? – a passaroca estorva, nivela ao rés-do-chão as cumeeiras mais imponentes e põe asas de cera nos mais altos voos textuais. Amiga, inimiga, minha gralha de mim, sobre teu posso me debruço o que poço e não sei se sou eu ou tu quem espreita.
Luís Carlos Patraquim, in Savana”, Maputo, 24.08.2007

Agosto 25, 2007

Tom Waits - Downtown Train

Outside another yellow moon
Has punched a hole in the night time mist
I climb through the window and down to the street
Im shining like a new dime
The downtown trains are full
Full of all them brooklyn girls
They try so hard to break out of their little worlds

You wave your hand and they scatter like crows
They have nothing thatll ever capture your heart
Theyre just thorns without the rose
Be careful of them in the dark
Oh if I was the one you chose to be your only one
Oh baby cant you hear me now, cant you hear me now

Will I see you tonight on a downtown train
Every night, every night its just the same
On a downtown train

Eduardo Prado Coelho

1944-2007
Fotografia de Luís Ramos

«Todo o amor é improvável. O que significa eu só o posso provar na repetição do impossível que ele vai ser, o que significa que nunca o conhecerei por inteiro, mas que o provo como se prova a comida do almoço, ou provo-o como se prova o fato no alfaiate».
in "Dia Por Ama", Razão do Azul, 2004

Medo de «nós»

Eduardo Prado Coelho
Fotografia de Luís Ramos

Os medos.
Se eu disser no plural, tenho menos medo.
Porque, se falar no medo em geral, eu não sei o que é. Se falar no medo de pisar uma cobra na selva amazónica (onde nunca estive), o simples facto de ter algo a que me agarrar (a cobra na selva, longe vá o agoiro) já serve de ajuda - doméstica, se assim se pode dizer, o animal.
Donde, o medo é tanto maior quanto mais for medo de coisa nenhuma.
Ou, se preferirem, medo do próprio medo.
Uma das frases que frequentemente me ocorre é aquele em que Freud explica que o neurótico produz sempre aquilo que mais teme.
Tem medo de tropeçar, pois tropeça.
Donde, é por aí que tudo começa: eu não posso ter medo porque isso vai provocar aquilo de que tenho medo. Se eu tiver medo do cão, o cão vai interrogar-se sobre as razões de eu ter medo e acabará por justificar agressivamente o medo que eu tenho.
Donde, o medo começa por ser ausência de objecto (é isso que significa entrar numa casa às escuras) para acabar também por ser esvaziamento do sujeito, que vai ao fundo das suas neuroses para tentar saber por que tem medo).
Sem objecto nem sujeito, apenas verbo em expansão, o medo vai ter tudo. Já não é o medo de falar, de amar, de viver. É um mundo em que falar, amar e viver começam por ser medo.
Mas o plural ajuda. Se falarmos dos medos que «nós» hoje temos, o «eu» fica mais acompanhado.
Dêem-nos uma boa causa colectiva, e os homens não têm medo de linchar, torturar, espezinhar, violar, matar.
Não há como um «nós» bem enrolado em si mesmo para desinibir uma pessoa: na estrada, na guerra ou num estádio de futebol.
Donde, se me perguntarem de que mais tenho medo, responderei: de «nós» à solta, sem medo.
E recomeça tudo.
In “Expresso”, 20.02.1999
Eduardo Prado Coelho

Agosto 24, 2007

Contra os radares, marchar, marchar...

Acção da FHM na inauguração dos novos radares em Lisboa
Fotografia de Pedro Melim

Nem 8 nem 80. Se os radares em Lisboa obrigaram muitos aceleras a terem cuidado, para a maioria das pessoas são uma seca. Há muitas vias em que se é obrigado a ir a 50 km/h desnecessariamente. Entope o trânsito, dá sono, cria apetência para "distracções várias" e obriga a travagens bruscas. Para melhorar o estado das coisas há uma petição on-line para que a velocidade máxima passe dos actuais 50 km/h para os 80 km/h. A iniciativa defende ser preciso "encontrar um equilíbrio razoável entre a velocidade e os riscos. Esse equilíbrio não é, certamente, com 50km/h". Por isso pede-se que os radares passem a limitar a velocidade "não a 50 mas a 80km/h em todos os locais que tenham pelo menos quatro faixas de rodagem e baixa frequência de atravessamentos". Faz sentido. Agora a bola está nas mãos de António Costa. O problema é que os radares dão milhões e a Câmara precisa de dinheiro. Só num mês renderam perto de 4 milhões de euros. Espero que a edilidade tenha bom senso e não veja esta situação como a forma de resolver problemas financeiros. Muitos automobilistas estão já a comprar GPS portáteis que detectam os radares fixos e móveis. Pode ser também uma boa ideia. São legais e a polícia agradece.

Onde estão os radares em Lisboa?
1. Na avenida das Descobertas, da Índia, Cidade do Porto, Brasília, de Ceuta, Infante D. Henrique, Estados Unidos da América, Marechal Gomes da Costa e Gago Coutinho.
2. Nos túneis do Campo Grande, do Marquês de Pombal, da Avenida João XXI.
3. Na radial de Benfica e na segunda circular.


Beira: a festa do centenário

A cidade da Beira, cuja origem remonta à fixação do “Comando Militar de Aruângua”, em 1884, celebrou o seu primeiro centenário de elevação àquela categoria, numa altura em que vai no quarto ano sob gestão municipal da RENAMO.
A festa do primeiro centenário da cidade da Beira foi bastante concorrida pelos munícipes locais, mas não só. A tribuna de honra montada na Praça do Município representa um exemplo de convivência política. Lado a lado estavam Daviz Simango (edil da Beira), Afonso Dhlakama (líder da RENAMO), D. Jaime Gonçalves (arcebispo da Beira), Alberto Chipande (Comissão Política da FRELIMO), Alberto Vaquina (governador de Sofala), Aiuba Cuereneia (ministro de Planificação e Desenvolvimento). Na sua intervenção, o presidente do município da Beira, Daviz Simango, reiterou que a festa “era de todos nós”. Aliás, refira-se que a comemoração do primeiro centenário da Beira foi uma festa atípica nos corredores políticos nacionais, pois a RENAMO, apesar de deter a hegemonia política da cidade, não se deu ao luxo de hastear em tudo o que tem altura a sua bandeira, tal como sucede com outros partidos. Reconheceu que os sucessos que a gestão municipal da Beira tem logrado são fruto do apoio constante de uma rede de agentes que inclui munícipes, funcionários, parceiros de cooperação e outros. Garantiu que a governação da RENAMO, que ainda tem 18 meses pela frente, vai continuar a trabalhar em prol da defesa e melhoria da vida do cidadão beirense. A aposta, segundo referiu, é fazer da Beira uma cidade moderna e mais jovem, privilegiando a competência profissional, a governação participativa e inclusiva, onde cada um de nós se sinta contribuinte e actor activo. Simango agradeceu a presença no centenário da delegação da Casa de Moçambique em Portugal, indicando que mais do que um gesto de amor à terra, é uma lição de que devemos nos juntar em família sempre que possível, porque “a casa é de todos nós”. A delegação da Casa de Moçambique em Portugal era composta por pouco mais de uma dezena de elementos que ofereceu perto cerca de 100 bolas de diversas modalidades ao município e convidou Daviz Simango a visitar as terras lusas para estreitar laços de cooperação.
Eurico Dança, in “Savana”, Maputo, 24.08.2007

Diálogos crioulos

Bar Taliban, Mindelo, Cabo Verde, 2006

- A senhora vende armas?
- Não.
- Granadas?
- Também não.
- Porque razão é que o seu bar se chama Taliban?
- Está na moda. Na rádio falam nos Taliban a toda a hora.
- E então?
- Tenho de seguir as tendências do mercado.
- Vende bebidas alcoólicas?
- Sim. Até preservativos.
- Ué. Com sabor a papaia? A minha nega gosta.
- Não. Só tem com sabor a anis. Finlandeses...
- Tem burcas? Tem roupas?
- Roupas sim. Burcas só na farmácia.
- Quero um vestido para a minha filha.
- Quais são as medidas?
- Xée. Não tiro as medidas à minha própria filha.
- Ó homem. Medidas do vestido.
- Quantas são precisas?
- Várias. Cintura, sabe?
- Sei lá. 26 chega?
- 26, só?
- Sim. Ela é uma miúda muito leve.
- Ah...
- Nunca pára no mesmo sítio...
- É mesmo? Está sempre a mexer-se?
- A senhora não sabe como ela é mexida.
- Desculpe, mas o que ela me parece ser é leviana!

Agosto 23, 2007

A Portela para Cascais já!

Vivo em Lisboa numa zona por onde passam diariamente muitos aviões em direcção à Portela. A poluição sonora é grande e só a insonorização das janelas me safa. Como em qualquer cidade do chamado mundo desenvolvido, cada vez faz menos sentido haver aeroportos próximos das cidades. O caso da Portela é diferente. Ele está no meio da cidade, e só não toma café comigo porque eu não quero. Fiquei admirado que Helena Roseta, a líder dos “Cidadãos por Lisboa”, avance com uma proposta para viabilizar o velho aeroporto. Aqui não está em causa a OTA, o Montijo ou Alcochete. É o aeroporto de Lisboa. A capital não deve ter nenhum aeroporto no centro da cidade. Não sei se Helena continua a viver em Cascais. Também não sei onde vive o seu número dois. Mas exigir que o estudo comparativo que o LNEC está a fazer integre a alternativa Portela + 1 (Alcochete) é obra. É curioso que a Associação Comercial do Porto também avançou com o mesmo estudo. Fico à espera da adesão à iniciativa da Região Turística do Algarve. Só depois Helena Roseta poderá dizer que foi uma «vitória importante para a cidade». Mas algum desses senhores vive em Lisboa? Experimentem viver na zona do Areeiro e depois digam coisas. A líder dos “Cidadãos por Lisboa” não se pode esquecer dos cidadãos de Lisboa. Por esta amostra, tudo leva a crer que se esqueceu deles. Assim como a Associação Comercial do Porto. E o Algarve, como será?

Agosto 22, 2007

Filmes no cinema paraíso

Esta é a resposta possível ao desafio que a IO me lançou sobre os 10 filmes que mais me marcaram, os filmes da minha vida ou aqueles que não podia ir para Marte sem os ver. Comecei a fazer uma lista. Já estava nos 50 filmes e ainda não tinha chegado a uma conclusão. Percebi que é bastante difícil para quem gosta de cinema e tem com ele uma relação de cumplicidade e dependência. Mas como tinha de limitar a selecção a um grupo de 10 cá vão. Estes marcaram-me quando os vi pela primeira vez e não podia deixar de os levar se por acaso fosse passar férias a Plutão, o planeta excomungado. Mas se são os 10 melhores de sempre, não sei. Depende dos dias.

Michael Curtiz - Casablanca (1942)
Dennis Hopper - Easy Rider (1969)
Luis Buñuel - Belle de jour (1967)
Bernardo Bertolucci - Last Tango in Paris (1972)
Nicholas Ray - Johnny Guitar (1954)
Orson Welles - Citizen Kane (1941)
Federico Fellini - 8 1/2 (1963)
David Lynch - Blue Velvet (1986)
Stanley Kubrick - 2001 A Space Odyssey (1968)
Ingmar Bergman - Persona (1966)

Agosto 21, 2007

Lisboa agita-se lentamente

Já foram anunciadas algumas medidas, mas ainda fica muito por fazer. No entanto este é um bom começo para reequilíbrar a Câmara Municipal de Lisboa. Congelar novas entradas, fiscalização das despesas por vários vereadores e recomeçar a pagar as dívidas aos fornecedores, era o mínimo que se poderia fazer. Espero que venham mais e depressa. O curioso é que da direita vem o silêncio e da esquerda o barulho. Helena Roseta continua a bater o pé pelo seu “Plano de Emergência”. Rúben de Carvalho quer valorizar os trabalhadores da Câmara através de equipas polivalentes. A oposição de esquerda começa a querer cumprir o seu programa e a contestar o programa de António Costa. É um mau começo e um mau exemplo. Não é a satisfazer clientelas que se resolvem os problema de Lisboa. Sempre defendi uma coligação da esquerda e um plano de salvação municipal. O medo do longo braço do governo levou à divisão. Agora começa-se a ver o resultado. Não me admira que dentro de pouco tempo a direita comece a ocupar esse espaço, viabilizando iniciativas. E que a esquerda continue a berrar. É pena. António Costa anuncia hoje o encerramento do trânsito das vias laterais da Praça do Comércio ao fim de semana, para entregar o Terreiro do Paço aos lisboetas. Tudo bem. Mas para quê? As vistas para o Tejo estão tapadas. O pavimento das ruas em redor, com destaque para a rua da Prata e do Ouro, parecem estradas iraquianas. Não há animação cultural. A maioria das lojas estão fechadas ao fim-de-semana. As pessoas vão para ali fazer o quê? Cheira-me a folclore.

Falar em bom português

Franço: diz-se do mamilo que não se distende quando estimulado.
Ex.: «A Patrícia é boa na cama, tem umas maminhas muito bonitas, mas não te aflijas que o mamilo esquerdo é franço.»
Guó: transpiração perivaginal causada por collants.
Ex.: «Tens as virilhas assadas - é do guó.»
Deslivo: resto de uísque, gelo e água que fica no fundo do copo.
Ex.: «Não sejas forreta. Pede outra bebida. Andas há meia hora a bebericar o deslivo.»
Párima: cola pré-seminal que se forma na glande do marsúrio.
Ex.: «Desculpa lá, mas tens a tola do marsúrio toda parimada.»
Fechã: ruga que prolonga a costura dos testículos até ao ânus.
Ex.: «Andar de bicicleta macera-me a fechã.»
Precoço: ligeiro entumescimento do pénis sem aproveitamento prático.
Ex.: «O gato sentou-se no meu colo e, não sei se foi do calor, deu-me um certo precoço.»
Lanteja: mulher com a qual se convive em estado de avançada embriaguez.
Ex.: «Diz mal da Lucinda, diz... Bebe mais quatro uísques e vais ver a lanteja que ela não é...»
Mixália: mistura erótica de saliva com exsudação vaginal.
Ex.: «Que bom! Os lençóis ficaram encharcados de mixália.»
Relúzio: rubor pós-orgânico nas mulheres, geralmente no peito e pescoço.
Ex.: «A mim não me enganas! Sem relúzio não me convences!»
Repa: pêlo púbico que se aloja na faringe ou entre os dentes.
Ex.: «Há quanto tempo estás com essa rêpa na garganta? Come um bocado de pão - se não não consigo dormir.»
Retanchada: coito violento mutuamente aceite.
Ex.: «Há quanto tempo não me dás uma retanchada?»
Surúpio: barulho provocado pela expulsão de ar pela vagina.
Ex.: «Não me encanzines que eu não gosto de dar surúpios».
Tarúmbias: seios inesperadamente volumosos e impantes.
Ex.: «Cuidado com as mulheres vestidas de preto. Geralmente ocultam grandes tarúmbias.»
Travenélio: impotência passageira facilmente resolúvel.
Ex.: «Não há travenélio que não passe com um bom bico.»

Carlos Quevedo, in "Já Não Me Lembrava", Oficina do Livro, 2006

Agosto 20, 2007

KO? Wait a minute you son of a bitch...

O dinheiro não tem rosto, é um facto. E quando se trata de mercados financeiros, nem sequer uma aura reles entra naquele mundo frio de 0I0I. Mas os títulos do Benfica têm umas caritas, ao que parece. Berardo, que já se via no papel de uma espécie de Abramovich, só lhe resta afogar as máguas na poncha. O seu ego empertigado e sotaque de viela mafiosa levaram uma corrida em pêlo. A OPA Berardo não só esteve muito longe de ter sucesso, como foi um flop total. Agora só lhe resta atirar-se com unhas e dentes a Jardim Gonçalves. E à Opus Dei. Como já é o maior accionista individual do BCP, ao ter 6,8% do capital, tem meio caminho andado. Se Putin era apenas um agente de terceira da KGB e agora é presidente da Rússia, como é que o poderoso e afortunado Berardo não pode derrotar esses discípulos de Escrivá de Balaguer e colocar na direcção do BCP gente da sua confiança? Imagine que a Opus Dei é o Sporting. O Benfica só pode ser a Maçonaria. Teixeira Pinto já lhe deu uma dica ao abandonar aqueles que o abandonaram. Os beatos são os novos infieis. Força Joe.

João Vário

Mindelo ao pôr-do-sol
Fotografia de Peetosga´s

A morte aos setenta anos. E chegou o Inverno junto de sua casa. Cito-o, a João Vário, um dos grandes poetas da língua portuguesa. Como Roberto Juarroz escreveu o poema contínuo. O que fez Herberto, depois. O que é desse ofício e eles o praticam. Uma lenta e gradual aproximação à cratera do Absoluto. Com o corpo, seu tempo, as paisagens dentro. Desenhadas para fora. Com palavras. João Vário, pela sua obra literária e pelo seu percurso científico, pertencia à mais alta estirpe. Utilizou heterónimos, ele, que de seu nome civil se chamava João Varela: Timóteo Tio Tiofe para “O Primeiro e o Segundo Livros de Notcha”, João Vário para os “Exemplos”, G. T. Didial para os “Contos da Macaronésia”. Falámos no Mindelo, em 1999. Hospedado na pensão “Sôdade” recebo um recado da dona. Que um senhor tinha ido lá perguntar por mim e me deixara um envelope. Abrindo-o, folheio a edição dos “Exemplos”. Quando o encontro, nessa noite e falamos em sua casa e deambulamos pela cidade, sabia que algo de mágico e de único me estava a acontecer. João Vário aliava o rigor à afabilidade, a erudição à minudência das coisas aparentemente anódinas – Rilke assomando da Torre. Depois veio a minha casa, aqui neste avaro território, como lhe chamou Rui Knopfli. O desconhecido do grande público, um dos verdadeiros poetas maiores das literaturas africanas de língua portuguesa, acaba de se despedir de nós. Como ao grogue sagrado que me ofereceu, na sua vasta biblioteca do Campo dos Ingleses, Mindelo, deixo aos leitores estes alguns dos seus versos:

E aí temos o Inverno junto das nossas casas,
Com a sua tarefa, sua hortelã e dons,
E nem por isso é tempo de percorrer as estradas do mundo
Para o negar três vezes ou amá-lo como Xinoio, em Mindelo.
In” O Primeiro e o Segundo Livros de Notcha”

Luís Carlos Patraquim, in Savana”, Maputo, 17.08.2007

Agosto 19, 2007

O choque, o horror, o drama

Maxime, Lisboa, 2007
Fotografia de António Oliveira

Foi assim ontem à noite no Maxime, em Lisboa. Esta imagem demolidora mostra a falta de interacção entre a banda, de nome "Aguarelas", e o seu público. Na imagem, o admirador número um do grupo mostra o seu descontentamento face ao novo reportório do quarteto liderado por Luis Silva. O guitarrista/saxofonista/vocalista cantava sem ligar aos apelos desesperados do fundador do clube de fãs do grupo. É caso para dizer que uma imagem vale por mil palavras.

Tudo a encolher

O fotógrafo Spencer Tunick juntou ontem na Suíça centenas de pessoas nuas num glaciar, para lançar um alerta contra a diminuição progressiva dos glaciares alpinos. Este chama-se Aletsch, e é o maior da cordilheira. Esta acção, que faz parte de uma campanha da Greenpeace, alertou para o facto de nos últimos 150 anos, os glaciares desta região perderem um terço da sua extensão e aproximadamente metade do volume. Aos participantes neste evento aconteceu o mesmo. Ficaram com menos de metade do volume e um quarto da extensão. É só vê-los e fica-se com vontade de ir para a praia dilatar o corpo e afastar aquela visão assustadora. Embora a iniciativa da Greenpeace seja louvável, é bom que não façam isto muitas vezes, senão as mulheres destes desgraçados começam a fugir com o leiteiro.

Agosto 18, 2007

Rendo-me!

Jane Fonda, in "Barbarella", de Roger Vadim, 1968

Agosto 17, 2007

Federico....

Federico Fellini divertia-se com o espanto do seu produtor.
- Você está brincando comigo, Federico.
- Não, não. É verdade.
- Não acredito.
- Mas é verdade. Meu próximo filme terá dois personagens. No máximo três.
- Eu estou sonhando.
- E só um cenário.
- Já sei. O Coliseu, todo pintado de rosa.
- Não. Um apartamento.
- Um apartamento enorme...
- Um apartamento de tamanho médio. De classe média. Decoração normal.
- Belisca-me. Eu estou sonhando.
- Não está sonhando.
- Já sei. Já vi tudo. Os personagens sonham. Sonhos espetaculares. Manadas de elefantes fosforescentes passeando pelas ruas da Babilônia.
- Não. Nenhum sonho. Apenas os dois personagens, acordados, dentro de um apartamento comum.
- Só isso?
- Só.
- Você não quer que eu mande construir um navio em tamanho natural?
- Não.
- Você não quer que eu encontre uma mulher com três metros de altura?
- Não.
- Dezessete anões com chifres?
- Não.
- Um hermafrodita albino?
- Pra que toda essa gente? Eles só encheriam o apartamento.
- E esses personagens, que tamanho têm?
- São pessoas de tamanho normal. Um homem e uma mulher. Talvez uma empregada, para servir o chá.
- Tamanho normal também?
- Normalíssimo.
- Federico! Olhe aí, eu estou até arrepiado. É tudo com que eu sempre sonhei! Uma história intimista. Uma produção sem problemas. Principalmente um orçamento baixo. Até que enfim!
- É bom que você tenha gostado.
- Tem certeza de que você não vai querer nem um elefante?
- Nem um gato.
- Deus seja louvado.
- Bem, talvez um gato.
- Certo.
- Vesgo.
- Um gato vesgo. Não há problema.
- Dez gatos vesgos.
- Dez?
- Oitocentos.
- Federico...
- Isso. Oitocentos gatos vesgos. Mil. Os gatos estão por todo o apartamento. O casal não se consegue sentar ou dormir por causa dos gatos. Os gatos comem a empregada. Os gatos ocupam todo o prédio. Toda a cidade! É isso! A cidade está tomada por gatos vesgos. Milhões de gatos vesgos. Anote aí: um milhão de gatos vesgos. Só o casal ainda não foi comido pelos gatos, porque...
- Federico...
Luís Fernando Veríssimo, in “Banquete com os Deuses”, 2002

* Para a
IO

Quem matou Siba Siba?

Passam agora seis anos desde que perdeu a vida António Siba-Siba Macuácua, presidente interino do Conselho de Administração do Banco Austral, vítima de um assassinato macabro ainda por esclarecer. Siba Siba teria sido empossado como responsável do Banco Austral com o objectivo de restabelecer a ordem, após uma gestão danosa comprovada. Na estreia do exercício das suas funções, Siba Siba estabeleceu um vigoroso plano para a recuperação do crédito mal parado, uma parte do qual concedido a figuras sonantes do governo chefiado pelo então Presidente da República, Joaquim Chissano. Isento e movido pelo profissionalismo que a difícil missão exigia, o jovem economista mandou publicar uma lista de 1200 devedores no matutino “Notícias”, tendo inclusive cancelado contratos que julgava irrelevantes para os interesses do Banco Austral. Para além das medidas que visavam a recuperação dos fundos, pouco antes da sua morte, Siba Siba preparava-se para dar luz verde ao Departamento Jurídico, um órgão que deveria avançar com acções judiciais contra vários dos grandes devedores com quem não tinha chegado a entendimento sobre a liquidação das respectivas dívidas. Antes de interpor acções judiciais, que responsabilizava os verdadeiros autores da delapidação do banco, Siba Siba foi brutalmente assassinado na sede do banco que superintendia, deixando viúva e filhos menores. Imediatamente ao acontecimento, figuras do poder de então garantiram identificar os autores do crime. Várias investigações se seguiram. Porém, até ao momento nenhum dado significativo sobre os assassinos, ou o que motivou o crime, foram revelados.
in, "O País", Maputo, Agosto, 2007

Agosto 16, 2007

Elvis

"À espera de Elvis", Kuala Lumpur, 2001
Fotografia de António Oliveira

Morreu há 30 anos mas hoje é uma das notícias do dia nos jornais e na televisão. Elvis foi um canastrão que só a América poderia ter produzido. Mas foi também um cantor de excepção, dono de uma voz que poucos se podem gabar. Se foi a cantar música negra que lhe deu visibilidade, mexer as ancas e tornar-se maldito junto dos conservadores tornou-o numa celebridade. Quanto mais o proibiam na rádio e o filmavam da cintura para cima na televisão mais deixava as fans cheias de desejos libidinosos. Chama-se a isso o marketing perfeito. Tudo isto aconteceu antes de uma figura parda se atravessar no seu caminho e lhe estragar a vida. Chamava-se Coronel Parker, e virou seu empresário. O engraçado é que nem era coronel, nem se chamava Parker. Com ele, a sua carreira afundou-se. Musicalmente, Elvis teve coisas muito más. Mas há excepções. Uma delas chama-se "68 Comeback Special" da NBC. É um espectáculo que vale sempre a pena ver. Existe em DVD. Nunca fui grande admirador de Elvis Presley, mas achava piada à competição entre as fãns do Elvis e do Cliff para os colocar no nº1 das tabelas do Hit Parade do Rádio Clube. Vivia-se ainda num mundo em que a televisão não entrava. Coisas do século passado.

Do eterno retorno ao caril

Fotografia de Georgios Theodossiadis

Cozinhar é uma arte. Comer é apreciar essa arte efémera. Os moçambicanos ultrapassam tudo isso. Não só são uns apreciadores profundos desta forma de arte mágica, como a discutem detalhadamente. Depois de terminar a segunda rodada, alguns já esperam pela terceira. Sentados há três horas, a conversa tem sido uma espécie de guisado que também junta política, arte, cultura e alguma maledicência. A bem dizer. As estórias são todas verdadeiras até prova em contrário. Esta imagem representa apenas uma parte da reunião. Os restantes grupos dinamizadores fazem o mesmo, noutros cantos da casa. Numa coisa houve unanimidade: o caril estava maningue nice. Hare Krishna.

Tendências

Novas tendências na pintura de Bela Rocha
Fotografia de António Oliveira

Suspensa da sua condição solitária e da memória de outros sonhos – África longe, teatro, cinema de ensaio, experimentações várias – a pintora vive uma espécie de inconfessável lucidez em torno das suas sempre sentidas práticas da linguagem plástica. Absorve as coisas de estados depressivos ou de melancolias onde muitos contentamentos perdidos parecem ressuscitar através de sonhos surreais, de circos impossíveis, de personagens quase sempre grotescas de uma efabulação do mundo caótico e excessivo em que vivemos. Dessas representações obsessivas, desprende-se uma ironia sarcástica, a mistura das coisas e das pessoas, o anacronismo capaz de geminar épocas diferentes, rostos da abundância e da fome, um riso falso na cor saturada que transforma o mundo em abóbada azul, em finitude do que não tem fim.
Rocha de Sousa

Agosto 15, 2007

Children of the revolution

A 15 de Agosto foi assim em Woodstock, em 1969. Aí estiveram cerca de 450 mil pessoas que quiseram ouvir os seus ídolos, os seus gurus, ou apenas fricar. Eu não estive lá porque ainda não podia sair à noite. Mas conta quem lá esteve que a esmagadora maioria não pagou bilhetes. Deitavam a cerca abaixo no local que lhes desse mais jeito e entravam naquela que passou a ser a sua casa durante três dias de muita música, paz e amor. E alguma lama. Na parte em que a cerca de arame não foi abaixo vendiam-se vários items para acabar com a guerra do Vietnam. Uns fumavam-se, outros tomavam-se a seco ou com bourbon e outros eram para ler. Como estes. Make love, not bombs.

O ponto

Não acreditem nas últimas notícias. O Pólo Norte não é do Canadá e, muito menos, da Rússia. Jogadas espectaculares como a de cravar uma bandeira de titânio no fundo do Árctico não chegam. Se eu tivesse um submarino, titânio à disposição e morasse para aquelas bandas, também era capaz de fazer o mesmo. Uma seta no coração da posse. A verdade é que o senhor Putin se precipitou mas a reacção, aparentemente tranquila, de Otava faz-me lembrar a daqueles miúdos com os bolsos cheios de chocolates e de chuíngas que vêem chegar o papa-lanche. Em vez de disfarçarem e continuarem nas suas brincadeiras ficam logo estáticos, com as mãos muito dentro dos bolsos, os ombros um pouco curvados para a frente. É claro que o papa-lanche sabe logo onde ir buscar o que quer. Que naquelas águas os ursos começam a encontrar dificuldades? Que o gelo está a derreter? Nada disso importa. A região tem cerca de 25 por cento das reservas mundiais de petróleo e de gás natural ainda por explorar e o papa-lanche russo é para esses bolsos cheios de pirolitos que está a languçar. Isso já sabemos. É óbvio. Agora comportar-se assim como miúdo malandro no recreio da escola é que dá vontade de rir. Nós olhamos para os países, os seus dirigentes, as encenações que levam a cabo nas cimeiras sempre com grandes mesas, jardins enormes, tapetes vermelhos, sorrisos e palavras de grande preocupação e fraternidade e depois somos confrontados com estas sacanagens. Afinal o senhor Putin é desses? E eu a pensar que o pólo norte era o que tinha aprendido na escola: uma espécie de ponto lá em cima nos confins, perto de onde morava o pai natal. A professora explicara tão bem a esfericidade da Terra que a turma toda aprendeu logo e ninguém nunca apanhou palmatoadas por causa disso. Bastava lembrarmo-nos da laranja com que ela ilustrara a aula. Mas isso faz já muito tempo.
Agora, em 2007, chega um tipo com cara de poucos amigos, sorriso mefistofélico, fato azul de judoca, a mandar um submarino para os confins do oceano como antes o Vasco da Gama punha padrões – a diferença está no titânio e na embarcação – e declara que aquele ponto é dele. Se não fosse o petróleo isto dava vontade de rir. Se não fossem as reservas de gás a malta juntava-se em grupo e ia lá tirar-lhe os pirolitos que o gajo já nos abafou. Ou os berlindes. E dizíamos: “Eh, Joe, olha que esse gula-gula não serve!... Passa para cá o peixe. Queres o carapau? Leva! Olha ali, toneladas de espinhas!” : E depois fugíamos pelas barreiras até à Malanga. Este é que é o ponto. Uma estória de putos. Que venham depois os circunspectos especialistas em geoestratégia com grandes ensaios e outras miudezas ou profundezas não alteram em nada o fundo da questão. Isto é tudo uma rapaziada fixe como dizia o meu velhote. Com a não despicienda diferença de os berlindes poderem ser mortais. Isto quanto à garotagem. Mas se entrarmos pelo reino animal a que pertencemos, então não vale a pena. Ficamos entre mamíferos e primatas, espaço vital e marcação de território. Tudo com seus sinais e sua mímica. A bandeira de titânio não é diferente do esgar do tocolocha, seu sobressalto entre as árvores, guinchos, aproximação e fuga. Com design de materiais e tecnologia à mistura. Única sofisticação que acrescentamos à urina dos cães. O ponto outra vez. As transcendências ficam para depois.
Luís Carlos Patraquim, in "Savana", Maputo, 11.08.2007

Agosto 14, 2007

The Police

Vão tocar em Lisboa no próximo mês. O reencontro dos Police com milhares de admiradores do rectângulo, entre os quais me incluo, vai ser no Estádio Nacional, a 25 de Setembro. Depois de muitos anos sem tocarem juntos finalmente Sting lá acedeu em reformar a banda. Ao que parece está a gostar. As fãs garantem, entusiasmadas, que ele já não está muito virado para o sexo tântrico. Elas lá sabem. A primeira notícia sobre a reunião do grupo veio do Canadá. Durante a entrega dos Grammy 2007, revelaram no Whisky a Go Go, em Los Angeles, que estavam de volta à estrada. Great. São uma grande banda. Ainda me lembro do concerto que derem no Estádio do Restelo, nos anos 80. Foi fabuloso. Lá estarei a 25 de Setembro. Caso ainda haja bilhetes. Ouvi dizer que são caros. Lá terei de me fazer passar por aleijadinho durante um dia no Rossio, à procura de um patrocínio colectivo. Vou começar a treinar o canto e o acompanhamento. Acho que aquela "do do do da da da...." é a mais fácil. Musicalmente não sei por onde vou, mas sei que posso ir por aí ....

Timbila

Ilhargas
em meus
dedos deslizam contornadas
Musicais
teclas de timbila
em pauta
de nervos
Colcha amarrotada
no chão



Poesia: José Craveirinha
Arte em Cerâmica:Jonassane, Londres

Guiné-Bissau inviável?

A Guiné-Bissau está na rota da coca. Mas esta realidade dura e perigosa contrasta com a vida difícil do povo da capital. Bissau está sem luz há vários dias. A população da capital não tem água potável para beber. O gasóleo na central eléctrica também acabou. As autoridades acusam a Electricidade e Águas da Guiné-Bissau. Esta responde que não tem dinheiro para comprar combustíveis porque o governo não paga. Ninguém se entende. Há anos que é assim e de vez em quando, surge um golpe de Estado. Mas, o seu papel de placa giratória da rota da cocaína consolida-se. Já é um dos vértices do triângulo do roteiro, a que se junta a Europa e a América-Latina. Há quem já o considere o primeiro narco-Estado de África. Em Setembro do ano passado foram apreendidos 670 quilos de cocaína, que pouco depois desapareceram. E as pessoas detidas foram libertadas. Os serviços secretos internacionais consideram que diariamente chegam à Guiné-Bissau 800 quilos de cocaína em aviões vindos do outro lado do Atlântico. É óbvio o envolvimento de responsáveis do topo da hierarquia do Estado nesta situação. Vários organismos internacionais colocam já a Guiné-Bissau na categoria dos Estados inviáveis. Actualmente é considerado o quinto país mais pobre do mundo, segundo a ONU. Estima-se que anualmente passam pela Guiné-Bissau e outros países da África Ocidental entre 200 a 300 toneladas de cocaína, o equivalente a 10 mil milhões de dólares. Entretanto, as chuvas continuam e não há luz, nem água potável. Ser pobre num país de alguns ricos é muito difícil.

Agosto 13, 2007

Beira centenária

Quando faltam dez dias para as celebrações do centenário da cidade da Beira, é visível a preocupação dos residentes daquele município em criar todas as condições para que 20 de Agosto seja verdadeiramente um dia de festa. Na zona urbana da cidade decorrem trabalhos intensivos de pintura de edifícios, que há dezenas de anos nunca mereceram qualquer atenção. As árvores estão a ser podadas, aproveitando-se também a época de transição do Inverno para o Verão, ao mesmo tempo que decorrem outras actividades de decoração. Para as comemorações do 20 de Agosto, data em que em 1907 Beira foi elevada à categoria de cidade, são esperadas na Beira diversas individualidades nacionais e estrangeiras. De acordo com o chefe do gabinete do presidente do Conselho Municipal da Cidade da Beira, Paulo Sérgio, está confirmada para as celebrações a presença do presidente da Câmara Municipal da Cidade de Sintra, em Portugal, que será acompanhado de uma delegação de 30 membros. Estarão também presentes representantes de cidades da África do Sul, Alemanha, Reino Unido e Zimbabwe. Como parte dos preparativos, as autoridades municipais estão também a levar a cabo trabalhos de reparação de algumas das principais vias da cidade. Nos bairros decorrem campanhas de mobilização dos residentes quanto à necessidade de manutenção da limpeza não só em dias de festa, mas, também, de forma permanente, tendo sido intensificadas as actividades do município na recolha de lixo. Um movimento cultural denominado “show dos bairros” é responsável pela realização de espectáculos musicais, dança, teatro e poesia nos 26 bairros da cidade. Está também a ser realizado um torneio de futebol, cujo clube vencedor receberá um prémio denominado “Centenário da Beira”, a ser entregue no dia 20 de Agosto. No mesmo dia, serão inaugurados na Praça dos Táxis, no bairro do Maquinino, um luxuoso restaurante-bar e um take-away pertencentes a Tong Hai Shen, um cidadão chinês. Na zona da Muralha, estará aberta durante 45 dias uma feira onde os munícipes poderão passar os seus momentos de lazer.
Eurico Dança, in “Savana”, Maputo, 11.08.2007

O contra-ataque dos insolventes

A economia tem coisas destas. Eis que de repente o mercado norte-americano entra em crise e arrasta todas as bolsas mundiais, que de imediato fazem faz soar os alarmes. As instituições de crédito hipotecário de alto risco entraram em crise porque o "alto risco" virou "não pagamento". Ou seja, as pessoas "financeiramente incorrectas para a banca" deixaram de pagar os empréstimos. Quer dizer que os tesos não pagam, porque não têm dinheiro. É óbvio, não? A banca do tio Sam só descobriu isso na semana passada. Sexta-feira e hoje o Banco Central Europeu teve de injectar milhares de milhões de euros para reestabelecer o equilíbrio. Outras instituições fizeram o mesmo, para que tudo voltasse à normalidade. Se não fosse a intervenção dos quatro principais bancos centrais mundiais, as coisas podiam ficar bem pretas. O que é que eu e você temos a ver com isto? Nada, mas pode vir a ter. Não deu por nada? Mas olhe que aconteceu. O remendo parece ter sido suficiente por agora, mas a crise pode voltar dentro de momentos. Num país perto de si. O seu.

Agosto 12, 2007

O Ponto G

O Ponto G existe? Já encontrou o seu? Tem a certeza que é mesmo esse? Será que não passa de mais uma invenção feminina, para chamar à atenção? Este fim-de-semana uma amiga abriu-se comigo e disse-me frontalmente:
- Encontrei o meu ponto G!
Curioso, perguntei logo se podia ver. Recebi uma nega.
- Não é aquilo que tu pensas.
- Talvez não saibas no que é que estou a pensar.
- Comporta-te. Estamos numa cervejaria.
- Vá lá. Diz lá. Ou então aponta...
- Ó seu parvalhão. Fica no fim da palavra shoppinG
- Glub...

Farrusco

Dentro da poça do Lenteiro, há rãs. Naquela água coberta de agriões e juncos moram centenas delas. Mas à volta, na sebe de marmeleiros, silva-macha e alecrim, vive Farrusco, o melro. Sabe-se isso desde que, em certo entardecer de Agosto, a Clara perguntou ao cuco que se pousara num pinheiro em frente:
- Cuco do Minho, cuco da Beira: quantos anos me dás de solteira?
A rapariga era toda ela de se comer. E o cuco, maroto, olhou de lá, viu, e respondeu:
- Cucu... Cucu... Cucu...
Três anos! A moça ficou varada. O Rodrigo acabava a tropa de aí a dias, e prometera levá-la à igreja logo a seguir. Que significava, pois, semelhante demora? Aflita, chegou-se à Isaura, a alcoviteira, mouca como um soco, que a seu lado sachava milho, e gritou-lhe aos ouvidos, desesperada:
- Ora vê?! Que lhe dizia eu? A Isaura nem queria acreditar.
- Ouvirias mal!...
- Olhe lá que não ouvisse! Contei-os bem.
E foi então que Farrusco soltou a sua primeira gargalhada. Coisa bonita! Uma cascata de semicolcheias escaroladas, como se alguém rasgasse um pano cru, rijo e comprido, no silêncio da tarde serena, que o desânimo de Clara enchera subitamente de melancolia. Nada mais do que isso. Mas o bastante para mudar o sinal do desencanto. A força virgem daquele riso chamou a vida à consciência dos seus direitos. De parada, a natureza animou-se. Uma aragem muito branda e muito fresca atravessou o espaço. Tudo quanto era mundo vegetal ondulou levemente. A própria terra, sonolenta do calor do dia, acordou. £ de aí a segundos começou a maior sinfonia que se ouviu no Lenteiro. Chamadas por aquela volatina, as rãs subiram à tona de água e puseram-se a dar força sonora às tímidas vozes ocultas e anónimas que se erguiam do limbo. Às rãs, juntaram-se logo, pressurosos, os ralos, as cegarregas, os grilos, e quanta arraia miúda tinha fala. A esta, a passarada. Até que não ficou bicho sensível e solidário alheio ao Tantum Ergo pagão. Um coro imenso, cósmico e fraterno, que enchia o mundo de confiança.
Trás-os-Montes, 2006
Fotografia de Pedro Guimarães

Clara, arrastada pela onda de harmonia, apelou da sentença:
- Cuco do Minho, cuco da Beira: quantos anos me dás de solteira?
O que foste fazer! O malandro do pitoniso, se há pouco fora cruel, desta vez requintou.
- Cucu... Cucu... Cucu... Cucu...
Parecia uma ladainha! A lengalenga não parava mais. Ou de propósito, ou porque o mundo, naquele instante, era um orfeão aberto, o ladrão dava mais anos de solteira à rapariga do que estrelas tem o céu.
Desapontada, a cachopa regressou às ervas daninhas do lameiro. E, num amuo justificado, deixou correr as horas. A seu lado, comprometida, a Isaura, que tinha garantido o noivado a curto prazo, falava, falava, sem conseguir adoçar-lhe no espírito o fel da desilusão. E quando a noite se aproximou disposta a selar com negrura aquela tristeza humana, foi preciso que Farrusco, novamente solidário com os direitos da moça, saltasse da espessura da sebe para o cimo de um estacão, e fizesse ressoar pelo céu parado e quente uma segunda gargalhada. Discordância de tal maneira fresca, sadia, prometedora, que a rapariga ganhou ânimo. Pôs os olhos em si, na força criadora das margaridas abonadas, no ar de coisa sã que toda ela ressumava, e sorriu. Depois, confiante, juntou a sua alegria à alegria do melro. Soltou então também uma risada cristalina, que partiu da verdura do milhão, passou pelas penas luzidias de Farrusco, e foi bater como um castigo no ouvido desafinado do cuco. Um segundo a natureza esteve suspensa daquela gargalhada. A vida homenageava a vida. Depois continuou tudo a cantar.

Miguel Torga, excerto de “Os Bichos”, 1940

Letra para um solo de Charlie Parker

Como estranha ave de presa
que ferida de morte flectisse
a hipérbole do voo na agonia
prolongada, é um canto angular,
terso, mas de arestas poluídas.
Polígono torturado, perturba-o
a iminência adiada de um grito
de socorro. Em sua chama viva
perpassam secretas vozes de rebeldia,
bárbaros sons de tormenta. No clamoroso
incêndio da ira e da raiva
(é preciso saber escutar),
a urgência implorativa
de um pouco de ternura.

Rui Knopfli

Agosto 11, 2007

Ornette Coleman

Ornette Coleman toca hoje no grande auditório da Fundação Gulbenkian. Depois de lançar «Sound Grammar» em 2006, as reacções a nível mundial colocaram-no de novo entre os melhores jazzmen do planeta. Este disco, o primeiro nos últimos dez anos, revela-o como um dos grandes inovadores ainda vivos, com a frescura e a originalidade a manterem-se inalteradas, não obstante os seus 76 anos.

Agosto 10, 2007

Maddie McCann

É o acontecimento de 2007. O caso Madeleine McCann marca definitivamente este ano português. Devido a ele, a forma de funcionar das autoridades policiais e da comunicação social portuguesa tiveram visibilidade mundial. Por bons e maus motivos. Mas tem sido difícil lidar com a emoção, a imparcialidade, a frieza da investigação e a pressão mediática. Isto provocou mudanças. A polícia judiciária foi obrigada a quebrar o silêncio quanto ao desenvolvimento das investigações. Esta inesperada atitude deveu-se principalmente à necessidade de informar a imprensa britânica. Significa que o tabu “segredo de justiça” foi quebrado. Ficámos a saber que no Reino Unido a informação é logo dada no início das investigações. E não é por isso que deixam de ter resultados positivos. Já o olhar da imprensa britânica sobre os desenvolvimentos deste caso vai desde a crítica feroz ao “deixa ver o que acontece a seguir”. O chauvinismo da comunicação social das ilhas só acalmou quando a polícia britânica começou a trabalhar em parceria com a polícia portuguesa. Quando chegaram à conclusão que, mesmo assim, não havia evolução do caso, acalmaram. Ligeiramente. De notar que no Reino Unido desaparecem 70 mil crianças todos os anos. Nos casos em que envolve raptos, a maioria das crianças não aparece. Mas esta "estória" está longe do fim. No fundo todos querem Maddie de volta. Os olhares sobre este caso oscilam entre o pessimismo pesado e o optimismo naive. O mundo teve conhecimento do rapto a 4 de Maio com uma notícia deste género: ”Uma menina britânica de três anos desapareceu ontem à noite do quarto de um apartamento de um complexo turístico na praia da Luz, em Lagos, Algarve, enquanto os pais jantavam no restaurante do hotel. Os pais afirmam que a menina foi raptada.” Ficamos à espera da notícia que encerra este caso. Espero que seja boa.

Férias

- Esta malta está mesmo a divertir-se, Joana.
- Parece que sim. Quem me dera poder fazer o mesmo.
- Fazer o quê?
- Ó Zé, não desconverses. O que é que devia de ser?
- Sei lá. Fazer nudismo, fazer amor...
- Tarado. Não estou nessa.
- Explica-te melhor.
- Gostava de tirar umas férias.
- Onde?
- Podia ser aqui. Não nos sentiamos sozinhos.
- Não tem gente a mais?
- Não. Conhecem-se pessoas, fazem-se amizades...
- Eu alinhava nessa. Tens dinheiro para isso?
- Não. E tu?
- Eu também não.
- OK. Fica então combinado. Tiramos umas férias, sem olhar a despesas.

Agosto 09, 2007

Nova capital para Angola?

Dos novos-ricos não reza a história. Só pelos maus motivos. O poder do dinheiro leva-os a manifestar a sua pequenez através de decisões folclóricas. Com níveis de pobreza assustadores, Angola quer construir uma nova capital, a norte de Luanda. O arquitecto Oscar Niemeyer já foi contactado por Eduardo dos Santos para tal efeito. Ao que parece, Brasília é o máximo para a nomenclatura angolana. E como o dinheiro não falta, paga-se o que for preciso. Niemeyer vai-se fazer pagar bem. É o único arquitecto centenário de renome mundial. Com a nova capital pretende-se um "começar de novo". Para quem? A resposta oficial é fácil de adivinhar: para os angolanos. Mas as barracas e os pobres não entram. Os membros da burguesia burocrática, corrupta e completamente improdutiva, serão os novos habitantes da nova metrópole. Juntamente com os estrangeiros, que sempre dão um ar cosmopolita. E as sedes de empresas multinacionais. De petróleo e diamantes. De repente veio-me à memória Houphouët-Boigny. Construiu uma réplica da Basílica de S. Pedro em Yamoussoukro, a capital da Costa do Marfim, um país maioritariamente muçulmano. E Jean-Bédel Bokassa, o imperador canibal do “Império” Centro-Africano. Mandava fazer tronos em ouro maciço para se sentar. O que há de comum em todos eles? A pobreza extrema em que vive o seu povo. Os sonhos megalómanos dos dirigentes são concretizados à custa de milhões de pessoas que lutam diariamente pela sobrevivência. A riqueza de um país não pertence aos seus governantes nem à burguesia nacional. É um bem público, que deve ser administrado para o bem de todos. Num país onde nem sequer há um presidente eleito nem uma democracia consequente, é fácil adivinhar o rumo que tudo isto vai tomar. Os palácios na Europa, os aviões privados e os milhões de dólares em bancos estrangeiros já são uma realidade há muito tempo. Agora só falta a cidade e o trono, para o show off. A História anda aos círculos e as vítimas são sempre as mesmas. Haja decoro.

Agosto 08, 2007

Política timorense em manobras

Faltam alternativas políticas em Timor-Leste. Xanana Gusmão despe a farda de presidente e regressa como primeiro-ministro. De chefe de Estado aclamado passa a chefe do Governo contestado. Da unanimidade que gerou quanto à forma como actuou como presidente passa para um primeiro-ministro que mesmo antes de tomar posse já estava a ser acusado de usurpar o poder. Mas ser contestado não é um mal em si. A forma como chegou ao poder é que não deixa de gerar dúvidas. Uma coligação pós-eleitoral formada in extremis não terá sido a melhor das soluções, como se viu e verá. Paralelamente à crise política, que continua, os actos de vandalismo não param. Por que razão é que no país mais pobre do mundo, quando não se está de acordo, se deita fogo a casas e a edifícios públicos? E se matam pessoas. No último ano, a convulsão em que vive Timor-Leste já fez mais de 30 mortos. Tudo começou quando Alkatiri não conseguiu criar consensos entre a polícia e o exército. Os confrontos violentos e a contestação que gerou obrigaram-no a sair. As eleições que se seguiram eram inevitáveis. Mas agora um governo de unidade nacional era o mais desejado, para o bem de todos. No entanto, os interesses jogaram mais forte. E se a classe política se comporta assim, porquê criticar o povo, usado como joguete por facções políticas e grupos económicos locais? Os anos passam e o cimento da unidade e da democracia timorense custa a consolidar. Agora, os olhos estão postos em Xanana. Conseguirá manter a aura de herói da luta pela liberdade? Conseguirá gerar consensos para que uma governação prudente tire o país do caos em que se encontra? A ver vamos. A seguir com atenção.

Lembranças do Futuro

Ilha de Moçambique à noite (2007)

Traz-me lembranças tristes o porvir,
mais do que as débeis luzes a jusante
acesas por consentidas saudades.

O pranto do homem é o menino perdido,
mas a criança que chora na margem
não se chora. Chora o homem:
só os poetas têm lembranças do futuro.

Rui Knopfli

Agosto 07, 2007

O bug do Millennium

Foi uma falha informática que pôs todos em alvoroço. Depois de detectada, os grupos uniram-se em torno do seu núcleo duro para contra-atacar. Mas, curiosamente, pouco tempo depois chegaram à conclusão que o crash era verdadeiro e não um acto de sabotagem. São católicos, crentes, desconfiados e imprevisíveis. Na sala, os membros do Opus Dei batiam em número os da Maçonaria. Mas a batalha ficou suspensa pois a Assembleia Geral do BCP terminou pouco depois de ter começado. Joe Berardo, entrou pela porta grande e foi o mais polémico. Aposta cada vez mais num protagonismo constante, e a comunicação social agradece. No entanto, esta espécie de Assembleia-Geral foi bastante conturbada e confusa, mesmo sem se começar a discutir as questões de fundo. Deu para contar as espingardas que faltavam. Para desgosto de muitos, o confronto Teixeira Pinto – Jardim Gonçalves não chegou a aquecer. Lentamente, as mãos que estavam nas pistolas e os dedos no gatilho, começaram a descontrair. Rapidamente se chegou à conclusão que nessa tarde de segunda-feira não haveria cadáveres. A artilharia regressa a 27 de Agosto e o confronto promete. Até lá, há quem aposte na diplomacia de bastidores, mas o sucesso é pouco provável. Certo, certo é que um bug provocou um flop, e as culatras vão continuar quentes...

Uma coisa desagradável no rosto

Debate sobre crime, cultura e whisky, Maputo, 1977
Fotografia de José Cabral

Regressar à crónica como quem retorna ao lugar do crime. Crime de que se fala muito por estes dias na imprensa. Melhor: sobre o qual se escreve. Em Maputo, principalmente. Melhor fora não falar disso. Se não há detectives, nem nenhum novelista moçambicano resolveu ainda enveredar pelo género policial é porque a realidade carece de confirmação. Abre-se um livro ao acaso – Ruth Rendell, por exemplo – e a coisa não varia muito: “Era o primeiro cadáver que ele alguma vez vira. A princípio tinha sido um choque e pusera-lhe o coração a bater mais acelerado. Depois, ajoelhou e observou cuidadosamente a rapariga morta. Tinha-lhe acontecido alguma coisa desagradável no rosto”. Abstraindo do desagradável desta frase, sua tradução também – não acredito que a Ruth não diga isto melhor em inglês – a verdade é que nestas matérias é sempre a mesma coisa. Cadáveres. Cadáveres adiados que procriam. Cadavre-exqui. Singular e plural. Abstenho-me mesmo de citar a descrição que a Ruth faz do rosto da rapariga. Muito de fugida, talvez só aludir a umas cores nada naturais. Há adjectivos para isso mas quem quiser que vá ler a estória. Depois, há gente mais mórbida e menos. Eu gosto das menos. Até para não ter choques nem o coração bater mais, como diz a Ruth com alguma piada. Que novidade há nisso dos crimes? Nenhuma. Desde que Abel e Caim inauguraram o género o que se tem é assistido a uma monótona repetição. Alguma variação também. com muitas designações. Resumindo o arco possível de nomes e apelando à imaginação dos leitores, eles podem ir do homicídio ao genocídio. Neste intervalo cabe tudo o que quiserem. Isto falando de crimes que implicam a existência de cadáver. Quanto aos outros, basta ler o Código Penal. Vem lá tudo tipificado. Foi preciso passarem séculos, culturas e imaginações várias, para se conseguir tamanho acervo. E, quando se consegue ligar um acto a um nome, temos crime. Não é isto o que se está a passar em Maputo. Os nomes correm muito velozes. Ninguém os consegue apanhar. Mais ágeis do que o leopardo no salto, precisos como o bote da mamba, esta é a única correlação nominal que se pode fazer. E isto não chega. Quando muito dá para um safari numa reserva de caça. Pelo que só há uma conclusão a tirar: parafraseando Mark Twain , talvez sejam exageradas as notícias sobre o que se está a passar. Até porque estamos na estação seca. A mobilidade é muita. E, enquanto não se conseguir designar um carjacking sem o recurso a tão abominável anglicismo o melhor é decretar a sua não existência. Por último, mais do que trabalho para polícias, o que se perspectiva é um imenso desafio para dicionaristas. Palavras precisam-se, portanto. Sem elas, como ousar escrever novelas policiais?
Luís Carlos Patraquim, in "Savana", Maputo, 03.08.2007

Agosto 06, 2007

Descobrimentos: começar de novo?

Há uma nova ofensiva na conquista territorial. Quinhentos anos depois dos descobrimentos, ainda há países a reclamar a titularidade de parcelas de território. Uns pela via pacífica e outros com um certo frisson, até ver. A Rússia está na ofensiva. Considera toda a região do Pólo Norte, incluindo os fundos dos mares, uma extensão geológica do ex-país dos sovietes. O Canadá já fez uma peixeirada de todo o tamanho e reagiu de forma enérgica. Mas a Rússia quer negociar. Já ofereceu um pipeline de vodka grátis durante seis meses mas do Canadá veio um manguito: eles são pela cerveja. Portugal também está maior. Tem desde Junho a jurisdição parte do leito marinho para lá das 200 milhas da Zona Económica Exclusiva, com a dimensão de 2215 hectares. Mas este é só o primeiro passo. Uma proposta mais ambiciosa está em elaboração e vai ser apresentada em 2009 à Convenção da ONU sobre o Direito do Mar. Tubarões e lulas já fizeram chegar milhares de reclamações à Quercus mas esta está de férias. Os animais continuam à espera de um mergulhador para aprofundar o diálogo. A sonda norte-americana Phoenix vai a caminho do pólo norte de Marte. A missão é patrocinada pelo bourbon Jack Daniels e por diversas associações anti-whisky escocês. Estas garantem que o gelo de Marte dá uma paulada muito especial à bebida, o que esmaga de vez a concorrência mundial. A Nasa não confirma nem desmente este insólito patrocínio. Sabe-se, no entanto, que a Phoenix leva diversos marcos com a bandeira norte-americana para delimitar território. A minha vizinha do 3º esquerdo também está numa onda de aquisições. Quer parte da minha arrecadação que considera ser sua pelo facto da sua familia a ocupar durante anos. E invoca usucapião. Eu disse-lhe que mesmo sem gelo de Marte, ela já estava a beber Jack Daniels a mais. Aconselhei-a a experimentar vodka do pipeline russo, com lulas e tiras de tubarão do Atlântico a acompanhar. Estou à espera de resposta. Espero que esteja em coma alcoólico.

A rosa de Hiroshima

Passavam 15 minutos das oito da manhã quando a 6 de Agosto de 1945, um bombardeiro norte-americano B29 lançou a primeira bomba atómica sobre Hiroshima. Começava assim a nova era atómica. O resultado foi assustador. Cerca de 140 mil pessoas morreram de imediato. Muitos milhares morreram nos dias que se seguiram, devido às radiações e queimaduras. 62 anos após Hiroshima continua a corrida ao nuclear. Depois das grandes potências, cujas bombas fazem com que a de Hiroshima pareça uma brincadeira de crianças, chegou a vez dos países de média dimensão. Todos querem entrar no clube atómico. O que torna este belo planeta azul num lugar cada vez mais perigoso para se viver. O problema é que só temos este. E caso aconteça algo, não ficará ninguém por cá para contar como foi o day after.

Agosto 05, 2007

Mozambique S.A.

O presidente do Botswana, a poucos meses da partida para “coisas mais importantes”que tem ainda para fazer, disse que inspirou a sua governação em Frank Sinatra e Tony Blair. Sinal de que mudam os tempos porque, habitualmente nestas coisas pomposas se citam Marx e Mao – apesar de estarem fora de moda - ou autores mais consensuais como Keynes, Galbraith, Popper, Paulo VI ou Friedman. Pelos caminhos aziagos a que nos conduzem algumas opções, as gerações vindouras, olhando para os tempos conturbados do princípio do novo milénio, poderão citar “autores” inspiracionais como Al Capone, Bonnie & Clyde, Ramaya e Ananias Mathe. Não são apenas os títulos mais ou menos sensacionalistas de imprensa e os avisos de embaixadas que certamente serão coleccionados para disco duro ou para uma outra qualquer inovação tecnológica que deixarão as marcas dos tempos difíceis porque passamos. Como noutras décadas ficaram gravadas expressões como repolho e carapau. Falo de uma outra publicação divertidíssima e a que estão atentos todos os boletins que se vendem caríssimos, pois tratam a informação que em Moçambique é pública como informação classificada e confidencial.E de há um ano a esta parte, uma leitura dos sublinhados nas diferentes empresas que se vão constituindo, deixa-nos ficar com a sensação que uma parte substancial dos quadros de topo do que é considerado Aparelho de Estado e seus familiares próximos andam numa tremenda azáfama saltitando entre coutadas de bravio, estâncias turísticas, pedras preciosas, águas minerais, telefonia móvel, etc. Longe vão os tempos das import-export e das concessões madeireiras.A julgar pela profusão de empresas e deste verdadeiro frenesim pelo “business” é de ter sérias dúvidas se sobra algum tempo a essas pessoas para se ocuparem dos assuntos de Estado onde deveriam assumir funções normativas, executivas, reguladoras, arbitrais.
Ou pura e simplesmente não terem nenhuma função para exactamente se ocuparem dos seus “business”. O problema nem é o “business”. Se a palavra de ordem é fazer negócio e criar empresas, então que se criem os mecanismos para que todos os possam fazer, para que também nesta área não aja o estigma dos excluídos. Um modelo simples de simulação informática, daqueles que estão instalados nas organizações a quem de quando em vez são “roubados” computadores, mostra que apenas uma pequena faixa, muito, muito minoritária está envolvida numa verdadeira constelação de negócios. Como se o país fosse um imenso “jogo do monopólio”. Uma consulta mais atenta dos textos legais que se foram produzindo por todos estes anos dá para assinalar claramente que o conceito de conflito de interesses não é omisso à legislação vigente. Mas estão cheios de poeira e mofo. Apesar de haver prazos para as revisões constitucionais e se o leque de oportunidades for estendido a uns quantos para se perfazer o “abre-te Sésamo” dos dois terços, pode ser que o lugar de Presidente da República seja abolido um dia destes e em seu lugar seja instituído o posto de PCA. O presidente do Botswana, o que se inspirou no “my way” (à minha maneira) e no “fazer o que tem de ser feito” disse que se sentiu um verdadeiro PCA com as rédeas do poder. Pode ser que receba um convite para vir assessorar a Mozambique S.A.
Fernando Lima, in "Savana", Maputo, 03.08.2007

Trapos medievais

Dizem os castos que não é saudável ter saudades de Oriana Fallaci. Talvez não seja. Mas o momento pede uma história. Em 1979, com o Irão a ferro e fogo, Fallaci voou para Teerão. A ideia era entrevistar Kohmeini. Fallaci, levada à presença do mestre, foi vestida de acordo com as regras nativas, uma exigência dos «aihatollas». Mas, sendo ocidental e comportando-se como ocidental, a brava Oriana não aguentou o circo. Na presença do homem, retirou os ‘trapos medievais’ (palavras dela) perante o sorriso espantado de Kohmeini e o terror dos seus assessores. Depois do «striptease», a entrevista decorreu sem sobressaltos. Não peço uma Oriana Fallaci. Mas pedia um certo decoro para não ofender os nativos. Não falo dos iranianos, porque ainda não estamos em Teerão. Falo dos nativos lusos, que viram uma jornalista da RTP a entrevistar de véu o embaixador iraniano em Lisboa. (...) Fatalmente, ‘respeitar’ a sensibilidade do outro implicaria, no limite, ceder nas liberdades fundamentais que definem uma democracia liberal. E, no caso da jornalista ser dada à libertinagem, permitir o seu apedrejamento em pleno Terreiro do Paço. Seria bom que a sra. Márcia Rodrigues se lembrasse do pormenor quando voltasse a enfiar uns trapos.
João Pereira Coutinho, in "Expresso", 04.08.2007

Agosto 04, 2007

No verão, onde fica o sul?

Gosto do sul. É um bom sítio para se estar, independentemente das coordenadas geográficas. Eu andei por lá. Muito acima do Equador e a norte do meu habitat. Dá para perceber? O sul é onde as paranóias ficam à entrada e dez virgens nos servem bebidas. Não. Não sou um bombista suicida. Mas falar de virgens fica bem em qualquer texto. Continuando. O sul foi conquistado a pulso pela via pacífica, sem ser um acto revisionista. O que significa isto? Um dia explico. Hoje não. O sul é um local onde tudo é possível. Por vezes reina uma grande confusão mas, mesmo assim, as coisas acontecem sempre nice and easy. É como diz Tom Waits, "don't you know there ain't no Devil, it's just God when he's drunk". Deus gosta de Cardhu. Eu também. E de Johnny Walker, rótulo azul. É um néctar. Experimentei-o lá. No sul. Mas afinal onde fica o sul? É alguma discoteca, casa de jogos ou de massagens tailandesas? Não. O sul fica para para baixo, sempre em frente. Pode ser antes ou depois do equador. O sul é onde está o coração, diz uma canção country da Ucrânia. Porquê este paleio de encher chouriços? Também não sei. "Who cares...?" É verão. E fico-me por aqui porque estou com sede.
“…..olhe, mais um whisky, por favor….”

Agosto 02, 2007

Quando me ergui ela dormia

Quando me ergui ela dormia, nua
E sorria, em seu sono desmaiada
Tinha a face longínqua e iluminada
E alto, seu sexo sugava a Lua.

Toquei-a, ela fremiu, gemeu, na sua
Doce fala, e bateu a mão alçada
No ar, e foi deixá-la de guardada
Sob a nádega fria, forte e crua

Tão louca a minha amiga, linda e louca
Minha amiga, em seu branco devaneio
De mim, eu de amor pouco e vida pouca

Mas que tinha deixado sem receio
Um segredo de carne em sua boca
E uma gota de leite no seu seio.

Vinícius de Moraes, Oxford, 01.11.1938

Agosto 01, 2007

Lisboa não pode esperar

A tomada de posse de António Costa não podia começar melhor: com os protestos dos construtores civis. E quando estes começam a berrar significa que esse é o caminho. Costa já tem acordo com Sá Fernandes e as condições impostas para o entendimento são boas para a cidade de Lisboa. Não sei o que Helena Roseta pensa fazer. Acho que anda a perder tempo demais com o seu cidadão número dois, que ao que parece ainda não percebeu qual é o seu papel. Lisboa está um caos e esta governação de dois anos, tem de actuar já. Os cidadãos gostariam que Helena se decida por Lisboa. Apresente as condições que quiser, mas aja. Não se refugie atrás da independência do movimento, que mais parece oscilar entre uma suposta idade da inocência e a fase masturbatória da puberdade. Despache-se porque Lisboa está a cair aos bocados. Todos os dias.

Um perigo chamado Murdoch

O que se temia aconteceu. Rupert Murdoch é o novo dono do Wall Street Journal. A compra foi feita através da News Corp, que desembolsou 4100 mil milhões de euros. Teme-se que chegue ao fim toda a linha editorial e as análises independentes que fizeram escola no WSJ. Segundo consta, a família Bancroft, que controlava o jornal, chegou a procurar outros compradores, como Bill Gates, mas sem êxito. São muitos os que temem que esta compra represente o fim do Journal, cuja qualidade e independência estavam acima de qualquer suspeita. Temores esses que se fundamentam nos maus exemplos que Murdoch tem vindo a dar: a Fox News, um canal de televisão norte-americano completamente manipulado e os tablóides britânicos "News of the World" e "The Sun". Com esta compra, Murdoch prepara o lançamento de um canal de televisão financeiro e quer marcar presença num sector que lhe escapava. O facto de ser o maior magnata mundial dos media, com 175 jornais em todo o mundo, nada tira o apetite a esta verdadeira ave de rapina da comunicação social.