Julho 31, 2007

Antonioni

Ciao Michelangelo...

Excerto da parte final do filme Zabriskie Point (1970), de Michelangelo Antonioni, com música dos Pink Floyd.

Opus BCP Millennium Dei

Facções do Opus Dei digladiam-se no BCP. Este bem podia ser o início de um romance na linha do Código da Vinci, mas neste caso a realidade supera a ficção. Num mundo de colarinhos branco, em que ninguém chama filho da puta a ninguém, o baixo nível impera. Tudo porque o velho quis passar o testemunho ao novo e depois arrependeu-se. No mundo das peixeiras da alta finança, prepara-se o choque de titãs já na próxima assembleia-geral de 6 de Agosto. Alguns accionistas estão a tentar criar plataformas de entendimento, de forma a amenizar o conflito na AG, mas até agora não há fumo branco. Depois do tosco novo-rico Joe Berardo ter entrado no talk of the town pelas melhores e piores razões, depressa o seu estilo teve seguidores. E nem os beatos Paulo Teixeira Pinto e Jorge Jardim Gonçalves resistiram. Para animar as coisas, eis que antes da Assembleia-Geral, regressa aos quadros do BCP/Millennium o ex-director-geral dos Impostos. A despedida aos funcionários foi feita na Sé de Lisboa. Depois da missa seguiram-se os habituais comes e bebes, servidos na sacristia. Paulo Macedo, com nome de evangelista de seita brasileira, é da linha do seu mentor, Jardim Gonçalves. Que papel irá ter em toda esta estória? Nenhum. Mas deverá ver o seu salário aumentado, porque o coitado está há três anos a ganhar a mesma coisa, ou seja, 25 mil euros. Os sofredores na terra terão as virgens que quiserem no paraíso. Mas esta é outra música e outra religião.

Julho 30, 2007

Ingmar Bergman

Ingmar Bergman
14.07.1918 — 30.07.2007
*
"O cinema não é um ofício. É uma arte. Cinema não é um trabalho de equipa. O director está só diante de uma página em branco. Para Bergman estar só é fazer perguntas; filmar é encontrar as respostas. Nada poderia ser mais classicamente romântico".
Jean-Luc Godard, in “Cahiers du Cinema” Julho,1958

Julho 29, 2007

O calor não dilata os corpos

O calor voltou. Boa praia.

Julho 27, 2007

Close to the edge

Está calor. É estranho. Já não consigo viver sem chuva. E frio. O computador pifou. Eu também. Estou numa missão. Impossível. Não consigo cumprir os objectivos. Estou a ser perseguido. É uma loira de peitos robustos. Deve ser agente secreto. Da secreta. Levo um microship. Com os segredos. Secretos. Que a loira quer. Os peitos robustos também querem. O quê? Não posso dizer. Sou agente secreto. Da secreta. Se calhar ela é uma colega. Secreta. Mas como é segredo eu não sei. Estou no underground. Passei agora a Avenida. Depois vem o Marquês. O computador pifou. Estou a repetir-me. É do PDA. É melhor que a PDI. Estou irreconhecível. De gabardine e óculos escuros. No metro. O resto das pessoas vêm da praia. Elas de cai cai. Mas não me topam. Mas olham para mim. Mas estou de óculos escuros. Levo um segredo. Perseguido. A loira não vem da praia. Mas tem um cai cai. Estranho. Fica-lhe bem. É amarelo discreto. Com uma bola vermelha. Com uma seta a dizer: I'm here. Eu também ia. Mas agora vou sair. Estou na Praça de Espanha. Estranho. Eu quero ir para Londres. A Praça. Preciso de um copo de três. Senão tiver pode ser só o copo. Rouge. Cheio. Vou desligar o PDA. Só tenho duas mãos. O computador pifou. O calor aperta. Eu também. A loira chegou. "Olhe, afinal são dois copos". Straights. Obrigado pela atenção. Have fun. Afinal é verão. Ou talvez não. Vou desligar. Roger and out.

Julho 26, 2007

Van Morrison

Van the man, aqui com o grande John Lee Hooker, numa interpretação fabulosa de "Glória"

Van the man

There's a great version of Gloria, with John Lee Hooker.
I worked with John Lee many times and got to know him very well. I would say he became one of my best friends over the years. Hooker, Leadbelly, Ray Charles, these were my major early influentes. Country and folk as well, but the main ones, certainly as far as singers go, were Hooker, Leadbelly, Muddy Waters, Sonny Terry and Brownie McGhee, Ray Charles.

How on earth did you get to hear all this amazing stuff, growing up in Belfast in the'50s?
My father used to get this magazine called Jazz Journal and I read a review of a Ray Charles record in that. And my dad used to tune in to AFN, the American Forces Network in Germany, and one night lying in bed after midnight I was listening to AFN and I heard What d I Say, and I just knew it was Ray Charles. And I shouted down the stairs, "Is that Ray Charles?" and my dad shouted back, "Yeah, it's Ray Charles." I don't know how I knew as I'd never actually heard anything by him ever before that night, but somehow I just knew it was him.

And that was the start of it all for you?
Well then I started to buy all these 45's, because people used to put out singles all the time back then. Sadly, you don't get that any more in these modern times that we live in today. But back then people would put out maybe six singles a year, and it became like a religion for me to get them all. There was this one place in Belfast, McBurneys, where you could get this stuff, and there was this one guy there who knew about this stuff and he would tell me if something had come in. Ray Charles Live At Newport was like The Bible to me.

How old were you at this point?
I was about 15.
Van Morrison, in "The Word", Agosto 2007

Iraque com mais mercenários que tropas

Há mais civis contratados do que militares americanos envolvidos na segurança e na reconstrução do Iraque. Esta revelação levanta questões sobre a privatização do esforço de guerra e sobre a capacidade de Washington para conduzir uma campanha militar e um programa de reconstrução. Segundo números do Departamento de Estado e do Ministério da Defesa, mais de 180 mil civis - americanos, estrangeiros e iraquianos - trabalham no Iraque com contratos americanos. Mesmo após o recente aumento de efectivos militares, os soldados americanos naquele país são cerca de 160 mil. O que mostra até que ponto o Governo de Bush se apoia nas empresas privadas para assegurar a ocupação. Entre os civis contratados há, pelo menos, 21 mil americanos, 43 mil estrangeiros e cerca de 118 mil iraquianos. Todos pagos pelo contribuinte americano. Embora estejam a crescer, os dados oficiais podem não espelhar a situação real. Os seguranças privados que protegem os ministros e edifícios de Estado não estão todos incluídos, dizem responsáveis das firmas privadas e do próprio Governo. A incerteza reinante irrita os especialistas militares. «Não controlamos todas as armas da coligação no Iraque. É um perigo para o nosso país», alerta William Nash, general na reserva, perito em reconstrução. Acrescenta que o Pentágono «recruta mercenários. Há muito boas desculpas, mas é simplesmente escandaloso!».
T. Christian Miller, in "Los Angeles Times", LA

Julho 25, 2007

A justiceira?

Maria José Morgado está definitivamente em alta. É rápida e vai directa ao assunto. De 56 inquéritos abertos, 20 resultaram em acusações. É uma boa média. O apito, que ameaçava ficar cada vez menos dourado, voltou a brilhar e com ele regressou a esperança. A acusação de 144 crimes ao ex-presidente do Conselho de Arbitragem por viciar classificações de árbitros revelou uma Maria José com pulso e com vontade de pôr a justiça a funcionar. As dificuldades vão regressar na fase de julgamento. Mas só posso acreditar que a justiça vai ser feita. Ao que parece, Maria José Morgado vai continuar por aí, com outras investigações. Não se pode cloná-la?

Maputo em estado de sítio

As estatísticas divulgadas pela Polícia são reveladoras do estado de choque que se apossou dos cidadãos: em apenas 15 dias ocorreram na capital moçambicana 60 crimes violentos. Eis alguns exemplos. Na passada terça-feira um homem de 25 anos foi queimado no bairro da Liberdade, na Matola, quando tentava roubar um telemóvel a uma senhora, que se dirigia para a igreja. Segundo testemunhas oculares, o assaltante simulou estar perdido e pediu ajuda à senhora. Esta começou aos gritos e de imediato alguns residentes espancaram brutalmente o presumível ladrão. Depois regaram-no com gasolina e deitaram-lhe fogo. Nessa mesma noite, um grupo de quatro pessoas, que incluía o ex-ministro de Informação, José Luís Cabaço, foi assaltado na zona da Polana, em Maputo. Os criminosos esperaram que Cabaço estacionasse a viatura e de seguida apontaram-lhe armas tipo AKM. Roubaram-lhe o carro e todos os telemóveis do grupo. Na quarta-feira, um grupo de desconhecidos assaltou à mão armada o balcão da Socremo, na cidade da Matola. Levaram cerca de 6.500 dólares. Esta dependência fica próxima da 2ª Esquadra da Polícia. Aqui, os ladrões roubaram uma viatura, apreendida há pouco tempo em seu poder. Em Maputo, uma senhora de idade foi encontrada com a cabeça decepada. Os criminosos utilizaram armas brancas, para lograr os seus intentos. Estranhamente, não retiraram nenhum bem da casa. No último fim-de-semana, uma mulher de 38 anos foi morta a tiro numa zona bem iluminada de Maputo, quando regressava do trabalho. Estes dois crimes puseram a capital em “estado de sítio”. Dos 60 crimes violentos, 32 ainda não foram esclarecidos. A Polícia tem sido fortemente criticada e acusada de incompetência. Para resolver estes problemas, os cidadãos optam cada vez mais por fazer justiça com as próprias mãos.
De acordo com um estudo sobre linchamentos feito pelo Centro dos Estudos Africanos, estas situações acontecem porque o Estado se demitiu das suas funções mais elementares e fundamentais.
Jornal "Savana", Maputo, 20.07.2007

Qualquer Bobagem


Chegue perto de mim

não precisa falar
acenda o meu cigarro
não queira
me agradar
queira
Ouça
esta canção
ou qualquer bobagem
deixa o coração falar

Que mais?
Sei lá...
Poema: Tom Zé/ Os Mutantes
Cerâmica: 1.Eagle#II, 2.Yellow Neck Bottle 3.Fish
...Jonassane, London...

Julho 24, 2007

A fauna e o andamento molto vivace

Antes de ser obrigado a vestir uma farda militar, consegui comprar um velho Austin 40, de 1947, por quatro contos. Meio gripado e quase sem freios, foi este "cavalo vermelho", comidíssimo pelo sol, que me valeu durante os sete meses de início de tropa, em Boane. Aqui, o meu primeiro bringdown surgiu com a distribuição dos fardamentos. Não havia botas que me servissem. Nem de lona, nem de cabedal. Só tinham até ao 43. Eu precisava dum 44 ou 45. Estão a ver que eu era um homem de muita substância. Avantajado, a bem dizer. Mas lá me desenrasquei numa tipo “Einstein meets James Bond”. Pensei nas estatísticas. Entre os quase quatro mil mancebos, deveria haver meia dúzia que tinham botas com o meu número. Por isso, uma noite fiquei no Centro de Instrução e planeei um gamanço. Mas como não havia luz e não via no escuro, só consegui roubar uma bota. Foi galo, como diz o fado. A outra teve de ser roubada na noite seguinte, já noutra caserna. O número era igual mas o cabedal era diferente. E uma era mais redonda que a outra. Mas ninguém é perfeito. Dava para ir dormir a casa todas as noites, era o que interessava. O importante era conseguir sair na porta de armas com a farda nº 1 num brinco. Mal sabiam eles. Adiante. O "velho cavalo" andava num rodopio, para cá e para lá, sempre cheio. Comigo, o Eduardo Pitta Pereira, o Quim "Rarôco" e mais algum financiador de gasolina, já que na altura não havia ONG’s. Cinco paus a cada um, dava vinte escudos. O suficiente para ir e voltar e dar mais umas voltas à noite como bónus. Era bom viver antes da crise petrolífera de 1973. De dia, deambulava pelo Centro de Instrução, a conhecer pessoal e os cantos à casa. As botas apertadas impediam-me de andar muito. Tempos dolorosos. Os meus pés ainda falam às vezes disso. E lá acabei por conhecer outra fauna: os beats & os freaks do rock! The dark side. Boa erva, muitos speeds e grandes conversas sobre música, livros, miúdas e loucuras na noite da cidade grande, a quem chamavam LM. Evitávamos o assunto tropa. Só se fosse inevitável. Ainda me lembro de aparecerem por lá os comandos, para arranjar voluntários para Montepuez. "Vade retro, Satanás", pensava eu. Com medo que me chamassem, ficava acagaçado com aquelas reuniões ameaçadoras, para arranjarem voluntários à força. À noite, já na Big City, lá andava o pessoal todo, entre o "Cordeiro" e a "Sibéria", na Malhangalene, a aviar garrafões de cinco litros. (nota do redactor: na altura eram três de tintol misturados com duas coca colas familiares). A Rua Araújo era outro destino, assim como a Marginal, a "Moçambicana", o "Sheik", o "Piripiri", o "007" no Aeroporto, as "Lagoas", o "Sábado Cego", o velho com quem fumávamos gargaladas. And so on... As Casas Regionais costumavam dar boas festas. Lembro-me da do Algarve, do Minho, das Beiras, e por aí fora. Tudo era pretexto para fazer o mínimo e curtir o máximo. Até que chegou o dia em que anunciaram as especialidades para aquela rapaziada toda. A mim calhou-me ser radiotelegrafista. Fiquei satisfeito. Fui fazer seis meses de especialidade no quartel da Engenharia. De sublinhar que ao lado ficava o Indo-Português. Mal imaginavam eles. Foi logo uma batalha perdida. As tentações eram muitas. Seguiram-se outras. Depois eu conto.
João Fróis, in “Notebook, LM 70/71

Natalidade ao que obrigas

Esta é uma revista humorística espanhola. A edição que está a ver foi confiscada. Por ordem do juiz da Audiência Nacional, Juan del Olmo, a 'El Jueves', uma revista com forte cariz humorístico e satírico, foi retirada de todas as bancas espanholas. A chamada de capa tinha a ver o apoio que o governo de Zapatero e os governos regionais estão a dar à natalidade em Espanha. No cartoon, o príncipe Filipe diz para Letizia: "Já reparaste? Se engravidares, isto é o que eu fiz de mais parecido com um trabalho em toda a minha vida.” Pode colocar a palavra "cariño" onde quiser. Como é óbvio, este passou a ser o cartoon mais procurado pelos espanhóis na internet. Esta censura descarada ao serviço das elites não faz qualquer sentido nem hoje nem nunca. Em qualquer lado do mundo. Mas o raio do juiz deve ser um pouco pró retardado, pois qualquer um sabe que depois de uma medida dessas, esta reacção de procurar o proibido era mais que previsível. Maus ventos sopram na Ibéria espanhola.

Julho 23, 2007

A sondagem

- Desculpe, ando a fazer uma sondagem...
- Sim, senhor. E qual é a pergunta?
- A pergunta é: acha que a vida está cara?
- Depende. Até pode estar barata...
- Barata, como?
- Desde que a gente não faça despesas...
- Tem uma alimentação racional?
- Quase.
- Quase? Como assim?
- Tenho uma alimentação racionada.
- Ganha o suficiente
- Sim, senhor, ganho o suficiente.
- Quer dizer que... ganha bem?
- Não quer dizer que ganho bem.
- Mas disse que ganha o suficiente...
- Ganho o suficiente para que os outros ganhem bem.
- O seu ordenado chega-lhe até ao fim do mês?
- Chega. Perfeitamente. Recebo no dia 26. No dia 31 ainda tenho o meu poderzinho de compra...

Lições materiais

Trago na palma da mão a luz diurna: e a ferida no flanco. O meu deus, o meu demónio, respira fundo e alto. Ela, a minha múltipla companheira, é uma coluna silenciosa e ardente. A luz sela esta aliança entre o sopro e a matéria e uma voz se eleva nos barcos do silêncio.
António Ramos Rosa, in «Antologia Poética», 2001

Julho 22, 2007

A direita

A direita anda excitada (e deprimida) com a primeira maioria absoluta do PS desde o "25 de Abril". O mal da direita é a ausência completa de uma cultura de oposição. Vivendo quase sempre do governo, não aprendeu a viver de si mesma. Não aprendeu, principalmente, a viver contra o governo. Um novo partido, de Santana ou de Júdice, herdaria fatalmente os defeitos dos velhos. Não inspiraria mais confiança, nem compreenderia melhor o país. 0 que falta à direita não é uma "fórmula" infalível para ganhar em 2009. O que falta à direita é alguma competência e algum realismo.
Vasco Pulido Valente, in "Público”

Cantinho de Poesia

Poemas inéditos de Dick Hard.
A poesia erótica e satírica no seu melhor.

Politicos de sarjeta

Portas quer processar o Estado por violação do segredo de justiça. Até admitia que algum cidadão o fizesse na defesa dos seus direitos. Agora Paulo Portas? Um tipo que ganhou notoriedade pública através da violação do segredo de justiça no Independente? Depois do jornalismo de sarjeta, continua a brindar-nos com a política de sarjeta. Diz o povo, quem não deve, não teme. Estará incomodado com as suspeitas do Ministério Público sobre a origem de um depósito superior a um milhão de euros nos cofres do CDS nos finais de 2004? Estará incomodado porque as gravações das conversas telefónicas entre Abel Pinheiro e Paulo Portas apontam para a existência de acordos secretos, no caso dos submarinos? Estando o país em derrapagem, havia alguma necessidade de comprar submarinos naquela altura? São estas as políticas de Portas. Um ministro que criou leis popularuchas como a dos ex-combatentes para depois não se cumprirem. Porque não há dinheiro. Um absurdo.

Julho 21, 2007

Justiça para o povo?

"Sinto-me um ginecologista. Vou trabalhar onde espero que muitos se divirtam”. Não obstante este comentário irónico de José Miguel Júdice, depois de ser convidado pelo Governo para gerir a zona ribeirinha de Lisboa, desconhece-se um plano de acção concreto. Para já sabe-se que o advogado não terá funções executivas. Deverá "apenas" presidir a três sociedades encarregues de reabilitar a zona, onde não haverá capital privado. Nelas vão participar as autarquias de Lisboa, Oeiras e o Estado, que será sócio maioritário. A Administração do Porto de Lisboa (APL) não fica de fora, mas face à auditoria recente do Tribunal de Contas espero que o governo a coloque no seu devido lugar. De uma vez por todas. De acordo com o Expresso, a dívida da APL ascende a 57,2 milhões. Só em carros para uso pessoal da administração, directores e chefes de serviço, gastou 829 mil euros. Afinal tínhamos razão. A prepotência da APL acontecia porque eles pensavam que eram um Estado dentro do Estado. Para melhor se orientarem. Os lisboetas que se amanhem e que vão para o Algarve. Espero que haja medidas exemplares para eles. Se os funcionários vão para os serviços de mobilidade especial, o que acontece aos directores que desbaratam milhões? Vão para o céu? Só se for dos pardais. Espero por medidas adequadas em breve, vindas de Sócrates. E que Júdice não desiluda na zona ribeirinha. Tem o meu benefício da dúvida.

Julho 20, 2007

A escória passou por cá

O chamado quarteto para a paz reuniu em Lisboa para relançar o processo de paz no conflito israelo-palestiniano. Para tornar isso possível declarou publicamente o seu apoio a Mahmud Abbas, presidente palestiniano. Os israelitas também estão de acordo, claro, senão nada feito. Mas as atenções não foram para os palestinianos. Primeiro foram para Tony Blair, que despiu a camisola de senhor da guerra e virou um respeitável senhor da paz. A nova farpela chama-se enviado “especial” para o Médio Oriente. Com o seu estilo de vendedor de detergentes, todos compraram o que tinha para vender. E elogiaram o seu novo tacho. Depois, as atenções foram para George W. Bush, via Rice, a negra mais reaccionária do planeta. Bush tinha que ter algo com que se entreter depois dos churrascos e das caçadas de verão no seu rancho. A operação vai chamar-se "After barbecues, International Meetings. Open next Fall". Vão ser discursos eloquentes, sem dúvida. Quem o garante é Ban Ki Moon, o novo homem forte da ONU, que assinou por baixo.
Falando agora em português, significa que novas acções internacionais de branqueamento dos responsáveis pela guerra no Iraque vão começar dentro de três meses. A América está com eleições à porta e os republicanos precisam de um empurrão. Como se sabe, as coisas estão pretas para Bush e para os conservadores. Mais uma vez, querem atirarar-nos com areia para os olhos. Desta vez, a areia chama-se Palestina.

A produção

Sharon Stone, Anjelica Houston e Diane Lane
Fotografia de Annie Leibovitz

Ano após ano, dia após dia, hora após hora, Deus melhora a sua produção. Também melhor fora. Deus é Deus e pode fazer tudo o que quiser. Inclusive aprender com os seus próprios erros. Era o que faltava ter um Deus doente ou aleijado. Assim já não servia para nada. Deixava de ter utilidade e podíamos cair na tentação do diabo.

Julho 19, 2007

Samanta

― Finalmente vou conhecer a famosa Samanta... ― disse Gustavo.
― Você vai amar a Samanta, Gu! ― disse Suzaninha.
Suzaninha não parara de sorrir desde que recebera o telefonema da irmã dizendo que chegaria no dia seguinte e ficaria com eles. Samanta não era apenas sua irmã mais velha. Era o seu ídolo. Gustavo já cansara de ouvir as histórias de Samanta que Suzaninha contava um brilho nos olhos. Gustavo não estava em casa quando Samanta chegou. Suzaninha abraçou a irmã, emocionada. Samanta afastou-a, examinou-lhe o rosto e a roupa e decretou:
― Você está péssima.
― Você está linda!
― Esse seu marido não cuida de você, não?
― Cuida. Ele é formidável. Você vai ver.
E depois:
― Você vai amar o Gustavo, Sam!
Samanta dormiria numa cama de armar na salinha do computador do Gustavo. Depois de examinar o apartamento com uma leve expressão de desencanto, Samanta atirou-se numa poltrona, aceitou uma bebida. Depois um relatório de casa, onde continuava tudo a mesma merda. A novidade era ela. Samanta tinha um plano.
― Suzaninha, decidi ter um filho.
― O quê?!
― Um filho. Você sabe, aquelas coisas que saem de dentro da gente e fazem barulho.
― Mas assim, sem mais nem menos?
Suzana queria dizer "sem casamento nem marido?"
― Sem mais nem menos, não. Será uma coisa muito bem planeada. Para começar, preciso encontrar o homem ideal. É para isso que estou aqui.
― Não era você que dizia que homem só serve para carregar peso?
― E segurar a porta. Mas reavaliei meus conceitos. Também servem como reprodutores, até que inventem coisa melhor.
Samanta pôs-se a descrever o homem que procurava. O físico. O temperamento. O jeito de ser. O posicionamento político ("De esquerda, mas não muito"). E quanto mais Samanta falava, mais Suzaninha sentia um vazio no estômago. Não havia como evitar a conclusão aterradora: Samanta procurava um homem como Gustavo. E Samanta sempre conseguia o que queria. Quando Samanta disse "Mas, me fale sobre você", Suzana já tinha decidido o que fazer. E quando Samanta comentou não podia esperar para conhecer o famoso Gustavo, disse:
― Eu me esqueci. Hoje ele tinha médico.
― Médico? Algum problema?
― Nada demais. Quer dizer, é chato mas...
― Suzeca. Não me diz que...
Suzaninha fez que "sim" com a cabeça. Sim, era o que Samanta estava pensando.
― Disfunção eréctil
― Suzaninha! Mas hoje existem esses remédios...
― Nada funciona com o Gustavo.
Quando Gustavo chegou, deu com as duas irmãs abraçadas no sofá, Samanta acariciando a cabeça de Suzaninha e dizendo:
― Suzeca, Suzeca...
Durante o jantar, Suzaninha viu Samanta examinando Gustavo e pensou: "Ela deve estar pensando ele é tudo que eu queria, mas não serve, maldição, não serve, pobre da Suzaninha."
E Samanta, examinando Gustavo, pensou "Hmmm, essa disfunção eréctil eu curo, ah se não curo". Pois Samanta não apenas descobrira o reprodutor que queria, também descobrira outra causa nobre. Suzaninha ainda lhe ia ficar grata.
Luis Fernando Veríssimo, in "Crónicas Seleccionadas do Estadão"

Ordinary Citizens

As vítimas anónimas do estalinismo em desenhos baseados nas fotografias descobertas por David King.

Julho 18, 2007

Repreensão

Depois de fuzilado
ao levar
o tiro na nuca pra acabar
chateou-se
e viu-se obrigado
a explicar
ao major
que comandava o pelotão
que o tinha fuzilado:
por favor
preste atenção
e não me obrigue a repetir
a repreensão.

na próxima vez
que mandar matar
dê tempo ao morto
pra gritar
convicto
um último viva a revolução.

mário-henrique leiria, in "contos do gin-tónic", 1973

Tyrannosaurus rex

A leviandade com que muitos países africanos esquecem um povo inteiro só para defender um tirano, mete-me impressão. A África do Sul, assim como todos os países da SADC, têm as mãos ensanguentadas nesta questão do Zimbabué. Defender Robert Mugabe nesta fase é pactuar com uma ditadura fascista. Esses países estão actualmente ao nível do antigo presidente do Malawi, Kamuzu Banda, quando defendia o regime colonial português. “Brothers in arms” é um termo que não se aplica aqui, a não ser que se assumam todos como ditadores. O que não é o caso. As tentações totalitárias deram-se mal em Moçambique e Angola, mas ninguém parece interessado em tirar lições políticas. A defesa a qualquer preço de Mugabe deveria encher de vergonha quem lutou pela liberdade. A luta foi travada contra ditaduras coloniais ferozes, mas que nunca chegaram ao ponto de ruptura a que chegou o Zimbabué, nem provocaram este grau extremo de sofrimento a um povo inteiro.

África do Sul pode boicotar cimeira Europa-África

O Governo sul-africano garantiu que a mediação do presidente Thabo Mbeki no diferendo político entre o presidente do Zimbabué e a oposição continua em curso. Desmentiu assim notícias que dão conta do colapso da mediação. Em comunicado divulgado em Pretória, o Governo acusa a Comunicação social de «tentar pôr em causa tentativas de mediação destinadas a encontrar uma solução para a crise no Zimbabué». E apela aos sul-africanos para que se questionem sobre se esta conduta ajudará ou prejudicará de alguma forma a busca de uma solução para aquele país. O comunicado refere-se a uma notícia do semanário Sunday Times, na qual se lê que a ronda negocial que deveria ter reunido em Pretória esta semana o Governo e a oposição zimbabueana, não teve lugar porque os negociadores do partido de Robert Mugabe teriam sido instruídos pelo presidente a não comparecerem na capital sul-africana. O Sunday Times sugere que Mugabe teria deliberadamente voltado as costas ao mediador, Thabo Mbeki, descontente com suas posições mais recentes, nomeadamente com o seu alegado apoio a alterações constitucionais no Zimbabué antes da realização das eleições gerais de 2008. O comunicado, assinado pelo porta-voz do Governo Ronnie Mamoepa, esclarece que a ronda não se realizou porque a delegação do Zimbabué teria compromissos prévios. Há apenas uma semana e meia, o ministro-adjunto sul-africano dos Negócios Estrangeiros, Aziz Pahad, voltou a garantir que a África não aceitará participar na cimeira UE/África, marcada para 8 e 9 de Dezembro em Lisboa, se o presidente Robert Mugabe não for convidado por Portugal para nela participar. A situação no Zimbabué continua entretanto a deteriorar-se. O fluxo de refugiados zimbabueanos na África do Sul cresce dia a dia. Com uma inflação superior a 5 mil por cento, 80% de desemprego e a indústria a funcionar a apenas 20% da sua capacidade, o Zimbabué ameaça desestabilizar toda a região austral do continente africano.
In Jornal "O Observador", Maputo, 17.07.2007

Julho 17, 2007

É grave!


Grave é uma palavra grave
Esdrúxula é uma palavra esdrúxula
Já o que é grave é que aguda é uma palavra grave!

O Cão-Tinhoso

O Quim veio ter comigo no intervalo do lanche. Eu vi que era ele mesmo sem deixar de olhar para os cães a brincar do outro lado da estrada.
- Ginho...
- Diz.
- Isto é uma chatice...
- É...
Sentou-se nas escadas ao pé de mim e ficou também a olhar para os cães.
- Eles não queriam brincar com o Cão-Tinhoso - apontava para eles - eles não queriam brincar com o Cão-Tinhoso!...
Falava com muita força e espalhava os braços para todos os lados. - Foste tu que me contaste isso, não foste?...
Os sapatos da Senhora Professora faziam «cóc, cóc, cóc», atrás de nós, mas como eu estava a conversar com o Quim e a olhar para outra coisa, não precisava de me levantar. - Sabes?... A Isaura foi dizer ao pai que nós...
- O quê?
- Ela pediu ao pai para nos bater...
- Bater?... Porquê?
- Porque nós matamos o Cão-Tinhoso!...
E ria-se com força, todo torcido.
- Não é tramada? E esta, heim?... Bater-nos porque nós matamos o Cão-Tinhoso!...
Depois calou-se. Aí falou a Senhora Professora:
- Meninos, para a aula!
-Ginho... Tu passas-me a prova? - O Quim abraçou-me pelos ombros. - Deixas-me copiar?...
- Está bem.
- Ginho... Tu estás zangado comigo? A gente não devia ter liquidado o cão?... Foi o Senhor Duarte que mandou... Tu também estavas lá...
- Eu não estou zangado nem nada...
- Então passas-me os problemas?... Passas-me?... Eu faço-te o desenho...
- Está bem.
- Meninos! Para a aula! Para a aula, já disse! E fomos para a aula.
Luis Bernardo Honwana, in "Nós matamos o cão tinhoso", 1972

Julho 16, 2007

La leche de Ayamonte

A adesão de Portugal ao Mercado Comum foi, como se sabe, um passo fundamental para o progresso de Portugal e para vencer as grandes dificuldades económicas e financeiras por que passámos, com a chegada de centenas de milhares de pessoas vindas das ex-colónias, com as nacionalizações e a reforma agrária. O PCP defendia como alternativa as relações privilegiadas com os países socialistas e com os novos países africanos de língua portuguesa. Mário Soares e Sá Carneiro viraram-nos decisivamente para a Europa.
No Verão de 1978, passava eu uns dias de férias com as minhas filhas bebés em Vila Real de Santo António, em casa de uma militante, Guida Folque, que trabalhava comigo e mais tarde foi secretária de Álvaro Cunhal. Aquela era uma época em que havia escassez de alguns alimentos essenciais no país, especialmente no Algarve, nomeadamente leite e iogurtes. A casa dos pais da Guida era um palacete mesmo em frente aos barcos que faziam a ligação de Vila Real de Santo António a Ayamonte, em Espanha. No nosso grupo, os que tinham filhos pequenos, logo de manhã cedo, apanhavam o barco e iam às compras ao mercado do lado de lá, voltando no barco seguinte. Um belo dia, Carlos Costa veio visitar-nos e passar o dia na praia connosco. Qual não foi o meu espanto quando cheguei a Lisboa e vi uma queixa contra mim na direcção do Partido. Isto porque havia uma resolução do Comité Central em que se estabelecia que nenhum funcionário podia ir ao estrangeiro sem autorização do Comité Central. Todos os dias da minha semana de férias eu infringira a regra, indo «ao estrangeiro». Fui criticada, mas fartámo-nos todos de rir com a ortodoxia do Carlos Costa.
Zita Seabra, in "Foi assim", Aletheia Ed., 2007

Britt pop


Quando no oásis não está ninguém
diz-se que os oasis estão desertos?

Moçambique: drogas e SIDA

Os bairros da Zona Militar, Serrano e Mafalala são os mais populares para a compra de drogas injectáveis em Maputo. Em pequenas casas, heroína, cocaína e anfetamina são vendidas e ali mesmo consumidas, afirmam os consumidores de drogas.
“Os drogados sempre deixam lá seringas que são usadas por outros”, diz Ezequiel, um ex-consumidor de heroína e cocaína, que pediu a omissão do seu apelido. “Para um viciado, comprar uma seringa é gastar dinheiro. Eles preferem usar esse dinheiro para comprar mais droga”, completa.
Ezequiel começou a cheirar cocaína aos 23 anos. Hoje, com 29, lembra das desgraças que as drogas lhe trouxeram: perda da casa e dos amigos, prostituição e HIV. “Comecei a cheirar só para me sentir melhor à noite... conversar com mais mulheres”, recorda. “Mas fiquei dependente e passei a injectar também heroína”. Segundo Ezequiel, quando há muita droga em Maputo o preço diminui e a maioria dos utilizadores prefere cheirar ou fumar, mas quando “escasseia, é melhor injectar, que é mais económico.” Depois de três anos de drogas, Ezequiel foi expulso de casa, quando os seus pais descobriram que ele estava a vender as coisas deles; e perdeu um amigo, que também injectava, vítima da SIDA. Preocupado, ele fez o teste de HIV que saiu positivo. “Eu injectava heroína com outras pessoas que eu sabia que eram seropositivas”, revela. “Eu achava que lavar a seringa com água e limão limparia o HIV.”
Apesar de ser uma realidade, a infecção do HIV entre utilizadores de droga injectável não é contabilizada nem considerada prioridade na luta contra a SIDA em Moçambique.
Para uma população de 19.8 milhões, Moçambique tem uma seroprevalência de 16.2%, uma das 10 maiores do mundo. No Quénia, por exemplo, há cerca de 30 mil utilizadores de drogas. Para uma população de 34.2 milhões, a seroprevalência é de 6.1%.
In Jornal "Savana", Maputo, 13.07.2007

Julho 15, 2007

Já larguei o bar, agora vou votar

PS. Uma garrafa de tintol desta tasca da Mouraria para quem adivinhar em frente de que candidato eu coloquei a cruz.

Julho 14, 2007

laurie anderson


Paradise

Is exactly like
Where you are right now
Only much much
Better.

Well I was talking to a friend
And I was saying:
I wanted you.
And I was looking for you.
But I couldn't find you. I couldn't find you.

And he said: Hey!
Are you talking to me?
Or are you just practicing
For one of those performances of yours?
Huh?

Language! It's a virus!
Language! It's a virus!

laurie anderson

Julho 13, 2007

Sondagens com poucas pistas

Eurosondagem SIC/Expresso/RR
1.António Costa 32,5% (6/7 v.)
2.Fernando Negrão 18,4% (3/4 v.)
3.Carmona Rodrigues 15,9% (3 v.)
4.Helena Roseta 12,1% (2 v.)
5.Ruben de Carvalho 7,7% (1 v.)
6.Sá Fernandes 5,5% (1 v.)
7.Telmo Correia 4%

Uni.Católica/ RTP/Antena Um
1.António Costa 33% (7 v.)
2.Fernando Negrão 15% (3 v.)
3.Carmona Rodrigues 12% (2 v.)
4.Helena Roseta 11% (2 v.)
5.Ruben de Carvalho 9% (2 v.)
6.Sá Fernandes 8% (1 v.)
7.Telmo Correia 4%

Intercampus para TVI/Público/RCP
1.António Costa 37,1% (7/8 v.)
2.Carmona Rodrigues 16% (3 v.)
3.Fernando Negrão 15,1% (3 v.)
4.Ruben de Carvalho 13,6% (2/3 v.)
5.José Sá Fernandes 7,4% (1 v.)
6.Helena Roseta 4,5% (1 v.)
7.Garcia Pereira, 2,6%
8.Telmo Correia 2,4%

Estas são as últimas sondagens antes das eleições intercalares para a Câmara Municipal de Lisboa. A vitória de António Costa parece certa, mas sem maioria absoluta. Os valores apresentados pela Eurosondagem e pela Universidade Católica são os que apresentam mais semelhanças. Helena Roseta elege dois deputados, o que garante uma coligação de esquerda. Fernando Negrão e Carmona Rodrigues estão separados por 3%, com vantagem para o candidato laranja. A diferença entre Ruben de Carvalho e Sá Fernandes ronda 1%, garantindo a sua eleição. Para este quadro, a Intercampus apresenta a sondagem mais atípica. Começa logo por António Costa, que com 37,1% poderá eleger o oitavo vereador. Interessante é o facto de Ruben de Carvalho e Sá Fernandes estarem à frente de Helena Roseta. Não deixa de ser hilariante o facto de Garcia Pereira bater em percentagem Telmo Correia.

Procura-se restaurador

É uma notícia do jornal "Canal de Moçambique". A Fortaleza São Sebastião, um dos monumentos mais importantes da Ilha de Moçambique, vai em breve ser restaurada. Falta o expert. A UNESCO anda à procura de um empreiteiro para efectuar as obras de restauro e de reabilitação. Um anúncio nesse sentido pode ser lido em vários jornais moçambicanos. O empreiteiro deverá, realizar obras "urgentes de consolidação estrutural, de reabilitação e restauro". A Fortaleza São Sebastião, assim como outras infra-estruturas da Ilha de Moçambique, apresentam um avançado estado de degradação, o que retira brilho à primeira capital de Moçambique e, desde 1991, Património Cultural da Humanidade.

Olhares ilhéus

É uma forma exemplar de recuperação e conservação de um edificio que estava degradado. Não é caso único, mas há poucos casos destes na ilha de Moçambique. "O Escondidinho" é um pequeno hotel com apenas 10 quartos e um restaurante. A casa situa-se no centro da ilha e foi recuperada de acordo com os padrões típicos da arquitectura portuguesa antiga que caracteriza a traça dos edifícios da ilha. São normalmente casas com tectos altos e janelas grandes, não só para deixar o ar circular, mas para arejar as vistas e deixar entrar a paixão por esta pérola do Índico. Um exemplo de bom gosto.

Julho 12, 2007

Pontapé na gramática

- Coisinha lindérrima
- Como?
- Bonitona
- O quê?
- Gostosíssima.
- Eu?
- Avantajadinha.
- Não estou a perceber.
- Chichinha rijona.
- O senhor está a falar comigo?
- Não. Estou a estudar os sufixos nominais.

Julho 11, 2007

Costa esquece campanha

Desde que António Costa estreou a sua sede de campanha no mundo virtual da Second Life tem sido um ver se te avias. Mais novo e sem óculos, o candidato não tem mãos a medir. As suas apoiantes são insaciáveis. Embora não pare quieto, ainda não começou a fazer campanha. Mas Costa não está preocupado. Desde que virou avatar está mais magro e só canta "Born Free". Já nem se lembra que as eleições são no próximo domingo. O PS já o tentou chamar à linha, mas ele não atende telefones nem lê e-mails. As boas companhias não são para largar e está farto da malta do Largo do Rato. Agora está numa SL. A sua única exigência aos apoiantes são as medidas: 89-62-89. Não é que são todas mulheres e têm essa medida? Fantástico. Costa está entusiasmado. O PS já mandou um mensageiro-SL a avisá-lo que as companhias não favorecem a campanha. Ainda não obteve resposta e o mensageiro não voltou. Foi visto numa festa-SL com duas loiras. Mandou outro mensageiro a dizer que os outros candidatos o estão a acusar de ser depravado e bígamo. Ainda não há resposta. Mas os socialistas têm agora uma nova preocupação. Mário Soares não sai de frente do computador. Ao ver aquelas companhias 89-62-89 de António Costa só diz: "eu também quero, eu também quero...". E baba-se. Quando António Costa regressar arrisca-se a ser acusado de homicídio por negligência. Não tem o direito de causar este sofrimento a quem fez tanto por ele, dizem em voz baixa fontes do Largo do Rato.

Classificados

Filha única procura alma gémea

Julho 10, 2007

CML: uma aventura dos 12

Encontraram-se todos ontem. Eram doze. Mais um do que uma equipa de futebol em campo. Todos querem ser avançados, mas alguns só jogam à defesa. A consciência pesada tem destas coisas. Falaram muito e pouco disseram. Saíram desiludidos porque queriam falar mais. Não se entendem, nem se querem entender. Cada um quer ser o mandatário do eleitorado para o governo municipal. Mas o que os eleitores querem, ainda ninguém sabe muito bem. As últimas sondagens são contraditórias. Acertam no 1º, António Costa, no 6º, Sá Fernandes, e no 7º, Telmo Correia. Helena Roseta, que poderá ser a aliada de Costa, está em queda. Desce nas três sondagens Intercampus, Marktest e Eurosondagem. Caso a coligação Costa/ Roseta avance, conseguem ainda a maioria absoluta. Negrão e Carmona continuam próximos, mas não definem tendência. Tudo aponta para três mandatos cada um. Ruben está a subir e Sá Fernandes continua no sobe e desce. Mas vão conseguir ser eleitos, com um mandato cada. No debate organizado pela RTP, as empresas municipais estiveram debaixo de fogo. A sua extinção foi apontada como o melhor caminho. Eu apoio, mas falta mais, muito mais. A poucos dias das intercalares, tudo leva a crer que os culpados pela situação a que Lisboa chegou não serão castigados. É pena. Lisboa está envelhecida. De pessoas e de ideias. Por isso a abstenção vai marcar estas eleições, devido ao desinteresse e às férias. Era previsível. Manuel Villaverde Cabral vai mais longe e fala numa "abstenção maciça". Espero que não. Espero que não.

Escrita, porno e a amiga

Um dia disse ao meu pai que não queria estudar mais. Um bocado para disfarçar a onda das namoradas e do acumular de faltas às aulas. O “velhote”, farto de mandar dinheiro para o tecto, do pouco que tinha, falou com o primo Clemente do “Diário de LM”, pertencente à diocese da Sé. Lá fui passar fotografias para o plástico. Nessa altura, nas mesmas instalações, o Zé Augusto M. Lopes compunha o “Século de Joanesburgo”. O director era o Padre Doutor Santos, que apalpava as funcionárias no seu gabinete. Dizia-se até que cobria as mais mansinhas, num apartamento onde funcionava o Jornal, pertencente à diocese. Farto da não fazer nada, passei a levar uma viola para o trabalho. Rapidamente me chamaram a fazer uns trabalhitos na redacção. Coisas simples. Búfalos d’água na Catembe, a Cooperativa das Bananas, trânsito e a agenda informativa. Entretanto, o Mota Lopes foi para o “Notícias”. Dois dias depois, o secretário de redacção, Guilherme de Melo, telefonou-me para uma entrevista. No dia seguinte, lá estava eu a fazer reportagem no maior diário em Moçambique. Como era mufana e foca inexperiente ao pé do Rui Cartaxana, do Ribeiro Pacheco, do Areosa Pena, do Martins de Almeida, do Mota Lopes, do Rangel, Kok e do Carlos Alberto, passei meses a fio a fazer agenda, colheitas nos tribunais e hospitais e o fecho do jornal, que nunca era antes das duas, três horas da matina. À saída, lá estavam os habituais pecadores: Ricardo Rangel, Bordalo Machado, Danilo Guimarães e mais uns quantos. Levavam-me a jantar ao ”Kalifa”, ou a outro sítio aberto àquela hora. Depois, para a Rua Araújo em força. Até às tantas. Tabaco, putas, copos, marinheiros e boers a sacarem as gajas e a andarem à facada entre eles por causa delas. “Luso”, “Pinguim”, “Palace”, “Central”, “Quaresma”, “Mundo”, “Casa Blanca”, ”Cave”, sei lá. Era aqui que me esperava a madrugada. Bebia, fumava e aprendia com o “movie”. Um dia, o “Bambú” pediu-me mil paus e prometeu arranjar-me uma fuga para Dar-Es-Salam. Ingénuo, passei-lhe a massa e tive que me esquecer do episódio, senão ainda tinha de me chatear. Fui até Joanesburgo, onde conheci a Filomena. Era mais velha que eu e era actriz de cinema porno. Uma bela noite, estava eu em casa da Filó à espera de mais uma lição de cópula, quando apareceram dois polícias à procura da menina Filomena Barbosa. Era acusada de pornografia. Palavra não puxou palavra, porque eu arranhava pouquíssimo o inglês. O passo seguinte foi: “Passport, please”. Tudo lixado. O visto tinha caducado e eis-me de imediato na fronteira de Moçambique, e pouco depois na “Casa Algarve”, sede da DGS na altura. Os bufos deram-me uma seca de oito horas, mas não me perguntaram nada. Mandaram-me para casa. No dia seguinte, logo de manhã, acordei com dois elementos da Polícia Militar a convidarem-me, “amistosamente”, a viajar de jeep até ao Centro de Instrução Militar de Boane. Quando caí em mim, tinham programado os quarenta e três meses seguintes da minha vida.
João Fróis, in Notebook, LM 60’s/70’s

Horses

Uma cavalgada por prados poeirentos guiada pela inigualável Patti Smith e o seu grupo. Neste concerto de 1976 toca Horses/Land, músicas retiradas do seu primeiro álbum. Para muitos o melhor. Para outros apenas o primeiro de uma série de obras primas.

Julho 09, 2007

Díli by the sea

Fico todo babado só por dizer que esta fotografia foi tirada por mim, na zona oeste de Díli. Com uma Nikon numa mão e uma cerveja Lion na outra. O resultado não foi mau, talvez devido ao facto da cerveja estar bem gelada, ou então porque o Cristo-Rei, que está por perto, não deixa que as coisas corram mal. Quem sabe. Neste mar fabuloso aparecem, às vezes, crocodilos de água salgada. Só às vezes. Eu só ouvi falar, nunca vi nenhum. Apenas tive um encontro imediato com uma cobra-coral, uma das mais venenosas do mundo. Não me perguntem se morri.

Clubismos

Sport Díli e Benfica

Sporting Clube de Timor

Fotografias de António Oliveira

As sedes dos dois clubes de futebol mais populares em Díli. A rivalidade da segunda circular transposta para os antípodas.

Julho 08, 2007

Meet the locals

Indígenas da Ilha de Tavira

O melhor lugar para se estar numa praia é normalmente no bar mais próximo. A Ilha de Tavira tem sete e a praia estende-se ao longo de onze quilómetros, mais concha, menos concha. No Verão, os primeiros 200 metros estão apinhados de gente e o resto quase deserto. Não mostro fotografias da praia para não passarem a palavra. Apenas do bar. Um deles. Na imagem, alguns locais confraternizam numa esplanada de um bar/restaurante na pior época do ano, segundo eles: o Verão. Quando for grande e rico, também quero pensar assim.

Violência aumenta em Maputo

Nas últimas duas semanas, uma escalada de crime violento está a afectar o país e em particular a cidade e a província de Maputo. Assaltos à mão armada a lojas, roubo de carros em esquadras da Polícia, assaltos às instituições bancárias, violações e assassinatos, há de tudo um pouco. A mão criminosa chega também aos centros de saúde, ao sistema de iluminação dos aeroportos do país e a cabos eléctricos da Electricidade de Moçambique.
Episódios hilariantes
Um grupo de bandidos não esteve com meias medidas. Foi a uma esquadra na Matola recuperar uma viatura que havia sido apreendida pela Polícia. Este estranho episódio já provocou a exoneração do respectivo comandante. Outro episódio não menos caricato aconteceu no Centro de Saúde de Boane, a 30 quilómetros de Maputo. Desta vez os assaltantes introduziram-se na maternidade e roubaram dinheiro e telemóveis a mulheres grávidas. Não satisfeitos, regressaram no dia seguinte ao mesmo hospital e repetiram a façanha. Desta vez, disfarçados de mulheres grávidas. Enquanto a Polícia se organizava para agir nos casos acima referidos, uma dependência do Banco Austral na Machava era assaltada. O golpe foi de um milhão de meticais. Os assaltantes desarmaram dois polícias e fugiram com o dinheiro. Ainda esta semana, um jovem apanhado a conduzir sem carta de condução baleou mortalmente um polícia de trânsito com quem seguia para a esquadra.
Exército nas ruas
A reacção da Polícia ao recrudescimento do crime violento em Maputo está sendo feita com algum nervosismo. Numa esquadra da Machava, a Polícia confundiu um advogado com um criminoso, e espancou-o quase até à morte. Na noite desta quarta-feira, um carro na avenida 4 de Outubro, defronte da BO, foi baleado por não ter obedecido a uma ordem da Polícia.
Actualmente, patrulhas conjuntas de polícias e militares circulam nas ruas da cidade de Maputo para travarem este surto de violência que está a pôr em sobressalto a população da capital moçambicana.
in jornal "Savana", Maputo, 06.07.2007

Julho 07, 2007

Malaca

Malásia, Malaca, Restaurante Lisboa
Fotografia de António Oliveira

Este é um espectáculo de folclore português no Restaurante Lisboa, em Malaca. Do Minho ao Algarve, passando pela Madeira, nada é esquecido pelos cantos e danças dos ranchos folclóricos que actuavam na esplanada do restaurante. Os trajes são a rigor e as músicas cantadas em português. É uma verdadeira alucinação naquele fim do mundo, onde, na realidade, ninguém fala a língua de Camões, apenas algumas palavras. Domingos Costa, o dono e chefe da comunidade portuguesa local, é o grande dinamizador de tudo isto. Disse-me que nunca tinha visitado Portugal, país de onde se considera ser um descendente esquecido pelos vários governos. O único convite que recebeu foi do ex-governador de Macau, Rocha Vieira, que não cumpriu a promessa, mantendo a tradição dessa espécie predadora que são os políticos. Naquela zona, situada nos arredores de Malaca, vários “Restoran de Lisbon” convidam o visitante a provar comida portuguesa. Todos garantem que é verdadeiramente típica. Aceitámos o desafio e fomos jantar ao "Restoran Costa", pensando eu que teria algumas ligações com os antepassados do Parcídio Costa, que estaria naquele momento a curar a ressaca depois de uma noitada no British Bar com a gang do costume. A comida portuguesa, "very tipical", era marisco. Foi a mais picante que comi até hoje. Nem em África comi alguma vez uma refeição tão picante. Horas depois, de regresso ao hotel, o taxista chinês, depois de saber de onde vínhamos, perguntou se a comida em Lisboa era igual à do restaurante. Depois de eu dizer "não, nem pensar", mandou um berro e disse triunfante: " I knew it, I knew it".

O contrato nupcial

Porque eram precavidos, porque queriam que sua união desse certo, e principalmente porque eram advogados, decidiram fazer um contrato nupcial. Um instrumento particular, só entre os dois, separado das formalidades usuais de um casamento civil. Nele estariam explicitados os deveres e os compromissos de cada um até que a morte - ou o incumprimento de qualquer uma das cláusulas - os separasse.
Quando chegaram à parte do contrato que trataria da fidelidade, ele ponderou que a cláusula deveria ter uma certa flexibilidade. Deveria prever circunstâncias aleatórias, heterodoxas e atenuantes. Por outras palavras, oportunidades imperdíveis. E exemplificou:
- Digamos que eu fique preso num elevador com a Angelina Jolie. Depois de dez, quinze minutos, ela diz "Calor, né?", e desabotoa a blusa. Mais dez minutos e ela tira toda a roupa. Mais cinco minutos e ela diz "Não adiantou", e começa a desabotoar a minha camisa... O contrato deveria prever que, em casos assim, eu estaria automaticamente liberado dos seus termos restritivos.
Ela concordou, em tese, mas argumentou que a licença deveria ser específica, rechaçando a sugestão dele de que se referisse genericamente a "Angelina Jolie ou similar". Ficou decidido que ele estaria automaticamente livre da obrigação contratual de ser fiel a ela no caso de ficar preso num elevador com a Patrícia Pillar, a Luma de Oliveira ou uma das duas (ou as duas) moças do "Tchan", além da Angelina Jolie, se o socorro demorasse mais de vinte minutos. Isto estabelecido, ela disse:
- No meu caso...
- Como, no seu caso?
- No caso de eu ficar presa num elevador com alguém.
- Quem, por exemplo?
- Sei lá. O António Fagundes. O Brad...
- O Brad não!
Foi uma negociação longa e difícil, durante a qual ele vetou vários nomes, até ser obrigado a concordar com um, por absoluta falta de argumentos. Ela estaria livre de ser fiel a ele se um dia ficasse presa num elevador com o Chico Buarque. Mas só com o Chico Buarque. E só se o socorro demorasse mais de uma hora!
Luis Fernando Veríssimo, in "Sexo na Cabeça", 2002

Julho 06, 2007

Nunatak


O Live Earth está aí e a minha banda banda preferida vai tocar. Chama-se Nunatak e vai ser cabeça de cartaz neste concerto único. Localmente vão ter uma audiência de 17 pessoas. O som é uma mistura de indie, folk e rock. O grupo é constituído por 5 cientistas e vão tocar a partir da Antárctida. No alinhamento, o directo da Antárctida vai ser a partir das 11 da manha de Sábado, hora GMT.

Mil megas fazem a diferença


Joe Berardo derrotou Mega Ferreira
porque este descurou o upgrade.
Se já fosse Giga Ferreira, a música seria outra.

Julho 05, 2007

A lula e a sardinha assada

A presidência portuguesa está a obrigar muitos de nós a uma ginástica mental. Afinal quando Sócrates abre a boca, quem está a falar? O Presidente do Conselho Europeu ou o Primeiro-Ministro? Por vezes torna-se difícil adivinhar o seu papel. A visita de Lula ajudou a lançar a confusão. Por um lado, fala-se na parceria estratégica entre a União Europeia e o Brasil. Mas depois a portuguesa Galp Energia e a brasileira Petrobrás assinam um acordo nos biocombustíveis. Depois são os protestos dos imigrantes brasileiros, que querem a legalização. Sócrates aborda o assunto como primeiro-ministro. Mas enquadra a questão no espaço comunitário e fala como Presidente do Conselho Europeu. Lula diz que tudo seria diferente se a cimeira fosse organizada por outro país. Sócrates agradece como primeiro-ministro. Mas responde como Presidente do Conselho Europeu. Lula diz que está satisfeito por ser parceiro da União Europeia e amigo de Portugal. Sócrates responde como fã do Ronaldinho Gaúcho. Lula muda de assunto e pergunta onde pode arranjar umas garrafas de vinho do Douro. Daquelas legais... Como é, cara?

Carolina in my mind

Algures no sul de Moçambique, Janeiro de 1978

Depois de um Natal em Vilanculos e de um fim-de-ano na ilha de Santa Carolina, depois de dezenas de Remy Martin duplos, de garrafas de vinho do Douro, de uma depressão tropical, de chuvas torrenciais e de uma viola partida, este foi o regresso a Maputo. Atribulado. Centenas de quilómetros dentro de um Mercedes avariado, que vinha em cima de um camião, com nove pessoas, 32 sacos de milho, três cabritos, oito galinhas e um rádio de pilhas. Na fotografia, a Paula Granja segura a Susana e ensaia um olhar para o horizonte vermelho, tipo cartaz do Maio de 68. O Sérgio Santimano prefere um look neo-realista, tipo filme italiano. Na mão segura uma viola utilizada durante vários dias como tambor, arma de arremesso, adereço para fotografias e onde eu tocava a única canção completa que sabia na altura, "Caroline in my mind". Mas não foi James Taylor que esteve na origem dos danos no instrumento. A culpa foi do Santana. Exige batida forte na interpretação de "Evil Ways". Velhos tempos.
PS. A fotografia deve ter sido tirada por mim, por exclusão de partes. Eu já não me lembro. O fotógrafo profissional está visível, a segurar na viola. A Paula está com as mãos ocupadas. A Susana não estava para aí virada.

Julho 04, 2007

Megalomania

Fotografia de Annie Leibovitz

Megalómano é o indivíduo
que pensa que o seu complexo de inferioridade
é o maior do mundo

TAAG: uma espécie de companhia

A reacção de Angola à proibição de voar para o espaço aéreo europeu é absurda. Tipicamente de um país novo-rico. Como tem “mola”, pensa que pode comprar tudo e todos. E como não pode, ameaça retaliar. A questão da segurança dos passageiros e da tripulação é algo menor. Durante anos, a manutenção dos aviões em Angola era algo recorrente. Acontecia apenas quando o avião já não conseguia levantar voo. Ninguém percebe como é que no interior de Angola não caíram mais aviões. Agora nem sequer põe a hipótese da proibição imposta pela União Europeia visar a segurança dos passageiros. Segurança? Passageiros? Não. A questão fundamental agora é o orgulho ferido de uma nação. Mais. De um país com “mola”. Por isso, a reacção natural está em curso. As queixas de discriminação e racismo já aí estão. Daí a retaliação. Doença de novo-rico, pós-marxista e pré-moderno. É pena que os dólares que tem, não sirvam para apoiar os milhões de pessoas que vivem na miséria. E já agora para promover eleições democráticas. Ou o país é para continuar assim? Com uma espécie de presidente, numa espécie de ditadura... do capital. A passagem rápida de Marx para Milton Friedman foi obra. E um presidente de face dupla sempre ajuda. Já pode entrar no Livro de Recordes do Guinness. Não é obrigatório ser democrata.

Alan Johnston

“Foi como estar enterrado vivo”. Foi assim que o jornalista da BBC Alan Johnston descreveu as 16 semanas de cativeiro. Foi sequestrado pelo alegado “Exército do Islão”, que ninguém conhece. A sua libertação surge graças a negociações de bastidores. O Hamas chegou à conclusão que era uma batata demasiado quente para o manter fora de circulação durante muito mais tempo. De acordo com os jogos de poder em curso na faixa de Gaza, era mais vantajoso para o dirigente do Hamas, Ismail Haniyeh, libertar Johnston do que mantê-lo em cativeiro. Abbas agradece, mas não há come back.

Julho 03, 2007

When The Music Is Over

Vamos reinventar os deuses e os mitos intemporais;
E celebrar os símbolos mais profundos das florestas.
Jim Morrison
(08.12.1943 - 03.07.1971)

Visões

Menino míope procura menina com astigmatismo
para troca de pontos de vista

Saída de médicos espanhóis cria ruptura na saúde

Os médicos galegos que trabalham em Portugal estão a preparar o caminho do regresso. A primeira oferta pública de emprego para o Serviço Galego de Saúde desde há 15 anos, com 2461 lugares, foi o primeiro passo. Muitos começam a acusar a tensão de trabalhar fora de Espanha e dos salários mais baixos praticados em Portugal. Há mais de 1500 médicos e pessoal de saúde que trabalham no país vizinho. Este regresso põe em xeque o sistema de saúde português, que integra 60% de profissionais formados em Espanha e que prevê a reforma de 20% dos seus médicos ao longo dos próximos seis anos. Foi em 1998 que ocorreu uma deslocação maciça de profissionais de saúde espanhóis, na maioria galegos, para o Serviço Nacional de Saúde português.
Portugal sem alternativas
“Para Portugal, pode ser uma catástrofe”, alerta Xoán Gómez, presidente da Associação de Profissionais de Saúde Espanhóis em Portugal. No serviço de urgência do hospital de Ponte de Lima, onde é coordenador, 14 dos 16 médicos são espanhóis. Xoán Gómez acredita que "nem todos" os médicos emigrados voltarão para a Galiza, "mas muitos sim", o que vai levantar problemas a muito curto prazo. O ministro da Saúde, Correia de Campos, assumiu as dificuldades que a fuga de médicos vai provocar, mas reconhece que ainda não existe qualquer projecto para a evitar. Os coordenadores da saúde do Norte do país, pelo contrário, já tomaram a devida nota de uma situação que pode vir a tornar-se "catastrófica". Os espanhóis que trabalham no país vizinho têm três tipos de relação laboral: a prazo, contratados e à hora - estes últimos, nas urgências. Os contratados recebem metade do que receberiam em Espanha, mas o salário por hora é maior do que o espanhol. Com os rácios actuais, por cada médico de família que regresse a Espanha, 1500 doentes vão ficar sem médico em Portugal. O responsável da associação de médicos em Portugal acredita que a deslocação de médicos para o outro lado da fronteira ficou a dever-se a um erro de cálculo das autoridades sanitárias galegas, que viram "excesso de médicos onde ele não existia".
Pedro Lopez, in “El País”, Espanha

Julho 02, 2007

Jogos eleitorais em Lisboa

Na corrida à Câmara de Lisboa uma coisa parece ser certa: não haverá ninguém com maioria absoluta. Neste caso, ninguém chama-se António Costa. A menos de duas semanas das eleições, a situação parece estar a clarificar-se. O candidato do PS só em duas sondagens num total de sete conseguiu valores próximos dos 40%. A salvação do PS passa agora por uma coligação com Helena Roseta. Ela rouba a maioria absoluta a António Costa e inevitavelmente vai ter de negociar com ele. As condições do entendimento parecem estar em curso. Helena também está em queda. Os 11,3% que a líder dos "Cidadãos por Lisboa" obteve na sondagem Expresso/SIC/Rádio Renascença, estão longe das primeiras projecções da Marktest que lhe davam 17%. No entanto, parece ter dois mandatos garantidos. A colagem de Maria José Nogueira Pinto ao PS vai dificultar a eleição de Telmo Correia do CDS. O pró-PSD e o ex-PSD estão muito próximos. Ainda de acordo com a sondagem Expresso/SIC/Rádio Renascença, tanto Carmona como Negrão têm três mandatos garantidos, pois oscilam entre os 17 e 18%. E agora? Entram os pesos pesados em jogo na campanha. Sócrates e Marques Mendes. Conseguirão alterar estes resultados que, ao que parece, estacionaram por aqui? Talvez, mas não muito. Sócrates está em queda mas a presidência da UE pode dar-lhe alguns trunfos, ao contrário de Marques Mendes que já não tem nada para dar. Prognósticos? Alguém arrisca?

Do ser e do parecer

A notícia que a TV Cabo está a vender às redacções é: "esperamos erradicar totalmente a pirataria» em 2007. A notícia que os consumidores gostariam de ouvir ou ler era: "a TV Cabo tornou-se numa empresa séria e honesta." Ao que parece aqui há um conflito de interesses. Para a TV Cabo, uma empresa não pode ser séria, se quiser ganhar dinheiro. Para a TV Cabo, a lei é para cumprir apenas quando se é obrigado através de uma decisão judicial. Como muitos consumidores não podem suportar custas dos tribunais recorrem à Defesa do Consumidor. Resultado. É a empresa líder em reclamações na Deco. Como cartão-de-visita, só pode ser dourado. É uma empresa em que os clientes pagam para reclamar. A chamada que efectuam para protestar contra qualquer anomalia, que é da responsabilidade da TV Cabo, é paga pelo cliente. É uma empresa que usa e abusa do seu poder. Liga ou desliga canais integrados no pack da assinatura, nomeadamente quando há jogos de futebol. Tudo para obrigar o cliente a aderir à SportTV. É uma empresa que sistematicamente se atrasa nas instalações de equipamento. É uma empresa que cobra indevidamente serviços não prestados. Foi uma empresa monopolista até há muito pouco tempo, mas continua a fazer do consumidor gato-sapato. Quem é o pirata? De onde vem o exemplo? Não sei se resolve o problema da pirataria, mas sei que não lhe interessa acabar com as irregularidades e ilegalidades que pratica desde que foi criada.

É tempo de namorar o futuro

"Músico", Macia, Moçambique, 1974
Fotografia de José João Faria Nunes

Há uns dias, em Maputo, deparei com dois jovens sentados no muro da minha empresa e a um deles perguntei o que ele fazia ali. A resposta veio célere:
— Não estou a fazer nada.
Fiz a mesma pergunta ao outro jovem que me respondeu com a mesma prontidão:
— Eu ? Eu estou aqui a ajudar o meu amigo.
(...) Pois essas mesmas personagens poderiam tecer entre eles o seguinte diálogo:
— É muito cedo para fazermos qualquer coisa, diria o primeiro
— E esperamos até quando? Perguntaria o segundo.
E o primeiro responderia:
— Esperamos até que seja demasiado tarde.
Temos um modo estranho de lidar com a realidade, como se o real fosse um contrabando a transportar para territórios que não são nossos. Um dos territórios a que nos habituamos que não fosse nunca nosso é o futuro. Os outros, de outras línguas, parecem sentir-se mais à vontade nesse lado de lá do tempo. Tanto nos disseram que éramos pequenos para ter presente que acabamos por encarar o futuro com suspeição. Contentamo-nos com viver de desbotadas memórias de um passado longínquo. É verdade que não podemos criar a história fora do passado. Mas não podemos fazer do passado a nossa História.
Falo da dificuldade de nos projectarmos no Tempo porque aquilo que nos traz aqui hoje — a lusofonia – existe no futuro para ser pensado ontem e produzido hoje. A lusofonia é algo estranho, pois é um ser que existe para nascer. A lusofonia é qualquer coisa que é já nosso, mas que parece ainda não nos pertencer a todos por igual. De uma criatura assim seria mais fácil dizer mal e lançar suspeições. O projecto da lusofonia tem essa enorme desvantagem de ser preciso fazer qualquer coisa e de nos empurrar para fora desse invisível muro onde descansamos existências e lançamos culpas sobre os outros. O debate sobre o que somos e seremos deve prosseguir. Mas será no que fizermos que nos converteremos realmente numa comunidade capaz de propor discursos inovadores e introduzir mudanças.
Dizemos que a língua portuguesa não é apenas dos portugueses. E acreditamos que isso seja a manifestação de uma intenção política, de uma vontade adoptada. Mas não se trata de intenção ou vontade. Trata-se de uma questão histórica: há séculos que a língua portuguesa é também africana. O que seria do idioma português se não tivesse beneficiado das contribuições linguísticas dos árabes que ocuparam e viveram na Península Ibérica? Esses árabes ajudaram a tecer este grande tapete onde se deitam as nossas almas. Esses árabes são africanos, tanto como nós, os que habitamos mais a Sul. Há séculos que o idioma lusitano é um filho mestiço de namoros feitos entre as duas margens do Mediterrâneo.
E mesmo se nos quisermos abster à influência das línguas bantus nascidas depois do tempo das caravelas: há quanto tempo palavras como minhoca, cambada e candonga e tantas outras se instalaram na língua portuguesa? Pois eu vos digo, tomando apenas um exemplo: a palavra minhoca instalou-se no século XVI e hoje a maior parte dos portugueses nem sequer suspeita da sua origem longínqua. Meus amigos, a verdade é a seguinte: a lusofonia não começou hoje. A nossa língua comum foi construída por laços antigos, tão antigos que por vezes lhes perdemos o rasto. De uma vez por todas, superemos receios e fantasmas. De uma vez por todas namoremos o futuro para que ele se enamore de nós.

Mia Couto, excerto de uma intervenção na conferência sobre “Serviço Público de Rádio e Televisão”

Julho 01, 2007

O primeiro dia

Começa hoje a presidência portuguesa da UE. Os problemas poderão começar já a 23 de Julho conferência intergovernamental (CIG), com a Polónia a dizer o dito pelo não dito. De novo, vai estar em causa o futuro tratado europeu. Os gémeos, retirados da família Adams, não vão deixar de morder as canelas de Sócrates. Mais dificuldades irão surgir com a cimeira Europa-África. Mugabe vai ser convidado, o que fica mal tanto à presidência portuguesa como à União Africana, que age como uma espécie de cartel continental. Em relação à «Agenda de Lisboa», Sócrates vai ter de olhar primeiro para o seu país, que em termos de emprego está uma calamidade. E se nada se conseguir, não vale a pena continuar com o blá blá do costume, ou seja “temos de debater as melhores formas de coordenação das políticas de emprego, tendo em vista potenciar a criação de postos de trabalho sustentáveis no actual quadro de competição global».

Liberdade

O Homem só será

livre
quando tiver destruído
toda e qualquer espécie

de ditadura
religioso-política

e quando for capaz

de existir sem limites.

Então o Homem
será o Poeta
e a poesia
será o
Amor Explosivo.


Poema: Mário Cesariny
Arte em cerâmica: Jonassane, 2007