Fevereiro 04, 2007

Voando sobre dois ninhos de cucos

Esplanada do Café Maputo. Noite quente, papo morno e zero de estimulantes.
- Meus! Vamos passar pelo Goa. Deve lá estar o Domingos, que tem uma alta cota-cota. Fumamos uma, passamos pela Colmeia para beber um copo e arrancamos pró Naval.
- Vamos lá - responde o João Manuel.
- Na boa! Devem lá estar o Jorge e o engenheiro - diz o Paulo.
A revolução era generosa. Dava ao povo um tanto de tudo: terra e habitação, saúde e educação, filas para a alimentação, chamboco e confusão, longos discursos e corrupção, prisão e reeducação! A qualquer hora, o divertimento era enorme. Nos bares e pequenos restaurantes a exigência era a mesma: cada prato de arroz branco com dois carapaus fritos tinha direito a quatro copos de cerveja. Resultado: mesas cheias de comida e de copos vazios. Ao fim de algum tempo, dormitava-se de cabeça apoiada no tampo ou discutia-se em alta voz. O Desportivo e o Maxaquene. As banhadas. A revolução. A contra-revolução. A vida. A morte. O sexo. A Sofia, a Belinha e a Laura entravam e saiam à procura de quem lhes pagasse uns copos de cerveja ou tivesse um bocado de suruma. Ou uma cama para dormir!
Noite dentro, chegamos ao Búzio. O frenesim e a agitação eram grandes. Aparelhagem em altos decibéis, pouca variedade de comida, muita cerveja e algum vinho. As bebedeiras eram mais que muitas, fortíssimas e variadas. Comia-se, pulava-se, gritava-se. No fundo todos andavam à procura de tudo e nada. Estavamos no mês de Junho de 1980. Era mais uma noite de inverno tropical. No dia seguinte estaria no verão europeu. A bordo de um "DC-8", eu e o Luís fizemos a primeira de muitas aterragens em Paris. Foi a primeira estadia de uma semana, hotel de cinco estrelas com pequeno-almoço, dólares para despesas e total liberdade de movimentos.
- Já telefonei à Belinha. Vamos ter com ela e jantamos em casa do Virgílio de Lemos - desafia-me o Luís.
- A Belinha, irmã do Pipe? - pergunto eu.
- Sim, pá! Vamos a isso! - reponde-me ele. E lá fomos aos primeiros contactos.
A volúpia veio com Montparnasse, Quartier Latin, Barbés, Montmartre, St. Denis, a Notre Dame, o Sacré Couer, a Ópera, o Lido e o Moulin Rouge, os "peepshop's", os supermercados cheios, os museus e galerias, o metro e os sem abrigo, os cemitérios, o Sena, as vestes clássicas e as modernaças, o "cous-cous", as gentes. Tudo era diferente! O tempo voou.
Uma semana depois, eis-me de volta a casa. Depois dos beijos e abraços, abro a mala no meio da sala. Os meus filhos, ávidos, saltam-lhe para dentro e encontram os Legos, as louças e as mobílias de bonecas que prometi trazer-lhes. Também sabonetes e águas-de-colónia, latas de conservas, queijos, algumas roupas e revistas. Da cidade luz trazia tudo o que podia. Já na cidade sem luz comprava o resto. E tinha de ser com dólares na Loja Franca ou na Loja dos Diplomatas. Mas há mais. Hei-de contar-vos.
João Fróis, in "Notebook", Maputo 80's

6 vox pop:

Carlos Simões disse...

Ricas vidas de freaks.
Por isso é que a revolução moçambicana deu no que deu, primeiro num socialismo sorumático e depois num capitalismo sorumbático.

Anónimo disse...

A "revolução" moçambicana deu no que deu, sem ter nada que ver com os tais de freaks.... a malta só se ia tentando aguentar, e curtia quando e quanto podia

Anónimo disse...

Eu sou da geração anterior à vossa, pelo que li. Estive por lá uns tempos durante essa fase pós-independência e no início havia muita militância, mas os camaradas eram demasiado formais. Por vezes o país parecia um grande seminário, mesmo andando todos com a revolução na boca. Saí de lá sem poder ver balalaicas e estruturas à minha frente.
Em Angola eram mais descontraídos mas eram mais chatos, com mais manias...

Joaquim Alves

Carlos Gil disse...

conta, conta, que eu adorei! - um que, vindo em Jan'76, ainda viveu algumas das 'especificades' da revolução laurentina - seim, sei que absuo no cognome, mas que lhe hei-de chamar, quando se fala em duas rev. que se tentaram 'casar? _freak, versão africana tardo-colonial, e socialista, versão "a Hoxha" ou "à Mao"
mas conta mais João, simplesmente adorei, repito-me - morei quase em frente ao Goa e à Colmeia, tb por isso 'adorei'...

Carlos Gil disse...

n liguem aos erros: 'especificidades' e o mais que para lá esteja :-)

maria disse...

O comentário do carlos simões dava uma bela discussão. Como diz o povo: "ele sempre há cada um"...
Prefiro repetir o carlos gil: conta, conta, que eu adorei.
Continua Fróis; as tuas notas são uma delícia.Abraço