Outubro 31, 2006

Corporações

"Cruz", México 1964 - Fotografia de Henry-Cartier Bresson
Há algum tempo passava um anúncio na televisão em que um aluno deixava cair um preservativo na sala de aula e o professor, depois de reparar no dito cujo, perguntava: de quem é? Um a um, todos os alunos diziam: fui eu. A saga Miguel Sousa Tavares está a tomar caminhos semelhantes. Hoje Clara Pinto Correia vem no 24 Horas escrever: "O Miguel Sousa Tavares plagiou alguém ao escrever o seu romance? Então olhem, eu também." Uma coisa é mostrar-se solidária com MST, pela amizade que os une. Só lhe fica bem. Mas ao usar os media para esboçar uma defesa só porque sim, já não. Não sei se MST plagiou alguém ou não, mas ele já está a resolver o assunto pelas vias correctas. Mas se as atitudes corporativas ficam tão mal aos juízes, aos tubarões do futebol, aos empresários e se são tão criticados por isso, porque razão vêm os jornalistas fazer o mesmo? Além do mais CPC revela um provincianismo absurdo quando diz: "não entendo de onde vem este vício tão português de estar sempre à procura de qualquer forma de demolir(...)". Lá fora situações destas são mais que muitas e os pedidos de indemnizações por plágio envolvem milhões. Muitos deles não têm razão de ser porque na sua base está apenas a tentativa de sacar uns trocos pela pior via e com base nas piores razões. Mas vício tão português é usar indevidamente estes meios para defender ou atacar pessoas ou grupos, de amigalhaços ou não, só porque sim. Eu acho que não.

Outubro 30, 2006

Prémios "Pop Vox"

Prémio "O aborto católico"
"Quem lançou a ideia do referendo fui eu. Na altura em que o PS não queria. Eu lancei em Outubro de 1996, faz agora dez anos. É com alegria que vejo hoje o PS todo pró-referendário". Marcelo Rebelo de Sousa, in RTP, 30.10.2006

Prémio "Diz-me lá espelho meu?"
"Hoje como nunca no passado recente, estamos entregues a nós próprios, sem especiarias da Índia ou ouro do Brasil. Ora isso é provavelmente o pior que podem fazer aos portugueses, deixa-los a desgovernarem-se. E é porque poucas sociedades haverá onde tantos factores se juntaram para nos fechar as mentalidades e tornar insensíveis aos sinais do tempo." José Manuel Fernandes, in Público, 29.10.2006

Prémio "O director putativo"
"O canal de TV do Estado criou e bem, espaços de debate com representantes de todos os partidos. Mas, se tal facto alarga a democraticidade do espaço público, o reverso da medalha é perverso: o debate fica-se e, pior, ao ser-lhes dado espaço em programas, os partidos da oposição, do CDS ao BE, calam-se por completo a respeito da propaganda e do controle governamental da informação" Eduardo Cintra Torres, in Público, 29.10.2006

Prémio "Corin Tellado meets Carl Jung"
"Poderão perguntar-me por que, tendo pruridos exóticos, decidi casar-me. Sucede que ninguém tem nada com isso, muito menos o Estado; o que me interessa são os efeitos indevidos da situação." Maria Filomena Mónica, in Pública, 29.10.2006

Prémio "Mao Tsé-Tung"
"Ao contrário do que se pensa, Fidel sempre gerou uma grande desconfiança entre os soviéticos, que nunca o entenderam, nem às suas raízes ideológicas" Luís Delgado, in Diário de Noticias, 30.10.2006

Prémio "Vai trabalhar malandro"
"Desde 2000, quando começou a subir, o desemprego aumentou já de 179 mil pessoas. Mas, no mesmo período, foram criados e ocupados mais 209 mil postos de trabalho. Cresce o desemprego e o emprego. Como se explica o paradoxo? São tarefas que os jovens não querem fazer." João César das Neves, In Diário de Noticias, 30.10.2006

Lula de volta na primavera brasileira

Os mais desfavorecidos não podiam ficar de fora no discurso da vitória de Lula da Silva. Se há coisas em que ele é intocável é na arte de comunicar. Foi penalizado por não o fazer na primeira volta. Mas à segunda foi de vez. Começou a pôr a boca no trombone e o eleitorado saltou-lhe de novo para a palma da mão. Nesta troca de juras de amor, o presidente reeleito atribuiu o seu triunfo à melhoria das condições de vida dos brasileiros mais pobres. Eles sentiram a mudança "na mesa, no prato e no bolso", afirmou Lula, que quer continuar a tomar conta do seu povão.
Leia AQUI mais sobre a vitória de Lula e saiba porque 2007 vai ser o ano de todas as maldades.

Outubro 29, 2006

Porque

Parabéns Ivone
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in “No Tempo Dividido e Mar Novo”, 1985

Bolívia: capitalismo socialista em marcha

A partir de agora, todas as empresas petrolíferas estrangeiras a operar na Bolívia passaram a ser prestadoras de serviços. Colocadas entre a espada e a parede quando Evo Morales anunciou a nacionalização dos recursos de hidrocarbonetos, em Maio passado, as petrolíferas depois de engolirem muitos sapos lá acabaram todas por assinar os novos acordos. Prevêem a entrega de toda a produção ao Estado, recebendo em troca um valor compreendido entre os 18 e os 50% da quantidade extraída. É uma empresa estatal que vai passar a comercializar o gás e a definir volumes e preços dos produtos a colocar no mercado. Há quem considere estas medidas próprias de um “socialismo retrógrado”, mas o intelectual de serviço do novo poder boliviano, o vice-presidente Álvaro Garcia Liñera, chama a isto “capitalismo andino-amazónico”. Num artigo publicado no Le Monde Diplomatique, Liñera considera fundamental a construção de um Estado forte, que regule a expansão da economia industrial, e transfira excedentes para o âmbito comunitário. Este aspecto é fundamental para o surgimento de um “regime socialista comunitário”, uma utopia que, segundo Liñera, pode começar a ser encarada a sério dentro de 20 a 30 anos.

Tarrafal

«A 29 de Outubro de 1936, na pequena baía do Tarrafal desembarcávamos 150 presos antifascistas, os primeiros que o fascismo português atirou para o Campo de Concentração de Cabo Verde. (...) Quando chegámos ao Campo de Concentração do Tarrafal fomos alojados em barracas de lona, com 12 homens em cada uma. Durante quase dois anos as barracas, que depressa o sol e a chuva apodreceram, serviram para nos arruinar a saúde. Os ventos que sopram continuamente faziam-nas dançar, os ferros que as mantinham entortavam-se, partiam-se ou rangiam a noite inteira. Em noites de vento mais forte a poeira invadia tudo; as lonas rasgavam-se, algumas barracas ficavam sem tectos, os suportes de madeira caíam, e nós passávamos a noite a consertar as nossas moradias.

Durante 3 anos, nas barracas onde vivemos, depois nos barracões, não havia luz de noite. A alimentação era intragável. A comida era de tal ordem que algumas vezes a comemos com bolas de pão no nariz. A louça ficava no chão, ao pó, muitas vezes sem ser lavada... porque não havia água.

Foram-nos fornecidos dois fatos de caqui, duas camisas, dois pares de cuecas, um chapéu de palha, um par de botas. Meias nunca tivemos. Toalhas também não. E com este uniforme, as palavras do director Manuel dos Reis: «Quem entra naquele portão perde todos os direitos e só tem deveres a cumprir».

in “A resistência em Portugal” de José Dias Coelho. Foi assassinado pela PIDE a 19 de Dezembro de 1961.

Outubro 28, 2006

Atavios

Spectacles

Helmet Tortoiseshell

Peças em cerâmica
Jonassane (2006)

Quando a dor no peito me oprime

Mãos - Fotografia de Jan Saudek
"Quando a dor no peito me oprime, corre o ombro, o braço esquerdo, surge nas costas, tumifica a carótida e dá-lhe um calor que não gosto; quando a respiração se acelera em busca duma lufada que a renasça, o medo da morte afinal se escancara (medo-mor, tamanha injustiça, torpeza infinita), aperto a mão da Irene, a sua mão débil e branca. Quero acordá-la. E digo : «não me deixes morrer, não deixes...» Penso para comigo, repito para me convencer: «esta pequena mão, âncora de carne em vida, estas amarras suas veias artérias palpitantes, este peso dum corpo e este calor, não me deixarão partir ainda...» E aperto-lhe a mão com força, e acabo às vezes por adormecer assim, quase confiante, agarrado à sua vida. Ah, são as mulheres que nos prendem à terra, a velha terra-mãe, eu sei, eu sei ! São elas que nos salvam do silêncio implacável, do esquecimento definitivo, elas que nos transportam ao futuro, à imortalidade na espécie (nem teremos outra) pelo fruto bendito do seu ventre (eu sei, eu sei...)"
Luiz Pacheco, in "Comunidade", Contraponto, 1964

Outubro 27, 2006

O sol ainda não brilha em Timor

Timorenses - Fotografia de Elaine Briére

Timor-Leste recomeçou a ser assunto nos noticiários pela pior razão. Violência, fracturas sociais, ódios regionais era algo que não se integrava na perspectiva paternalista portuguesa, quando se falava em Timor durante a ocupação indonésia. Nem mesmo depois da sua retirada. Os primeiros sinais de crise ainda eram pouco perceptíveis no período de transição mas estavam lá e era notório para quem estivesse atento. Começaram a tornar-se mais visíveis pouco depois da segunda independência. O país manteve-se numa paz podre até à revolta que culminou com a queda do primeiro governo de Mari Alkatiri. Este foi acusado de tudo e mais alguma coisa, mas com o novo executivo a situação não só não melhorou como tem tendência para piorar. A divisão e os ódios regionais, que estiveram interiorizados muito tempo, teimam agora em se revelar através de actos de violência constantes. Mas há algo novo deveras preocupante que vem de sectores intelectuais. Vários responsáveis timorenses interrogam-se agora quanto à viabilidade de Timor-Leste como país. As dúvidas quanto à identidade como povo e à capacidade de, sozinhos, resolverem os seus próprios problemas, revela que a fractura é mais grave do que alguma vez se imaginou. Os 25 anos de ocupação mexeram de forma profunda com a sociedade timorense. Ao que parece, nunca foi feita uma reflexão séria sobre o assunto. Continua viva uma reserva mental que não desapareceu com a saída da Indonésia do país. E quando em breve começar a chegar a Timor o dinheiro do petróleo e uma nova pequena burguesia começar a tomar forma, as fracturas sociais vão agravar-se. A questão da liderança é fundamental e o populismo não é o melhor remédio. Há que tomar medidas de fundo e as pessoas querem respostas rápidas. A pobreza não é uma opção de vida e porque a população sabe disso, não quer que ela se torne numa fatalidade.

Outubro 26, 2006

Sáurios

Teapot

Lizard

Peças em cerâmica
Jonassane (2006)

Grass na cidade branca

Gunter Grass vai apresentar a sua polémica autobiografia em Lisboa, a 3 de Novembro. O Instituto Goethe é o local escolhido e onde Grass vai ler o primeiro capítulo de "Descascando a Cebola". Há debate. O primeiro a chamar nazi, perde.

Radares? Isso era dantes...

Ontem cheguei à conclusão que preciso de comprar um GPS. O Jornal de Notícias divulgou a história e os canais de televisão fizeram eco dela. Já é possível saber os locais onde estão instalados os radares da Brigada de Trânsito. Há um SITE com informação para GPS que alerta os condutores quando se aproximam de um radar. Os dados estão disponíveis para download, no fórum sobre GPS. É compatível com os diversos modelos existentes no mercado. A base de dados é alimentada e actualizada pelos participantes do fórum. Devido à sua divulgação, aceder ao site é difícil porque a procura tem sido tanta que entupiu. Não há bela sem senão. Mas dá para ir tentando.

Outubro 25, 2006

Insegurança social

Um estudo da DECO feito em 123 serviços de atendimento da Segurança Social revelou que a esmagadora maioria não soube responder às questões colocadas. As perguntas incidiam sobre: desemprego, maternidade/paternidade, prestações por morte e trabalho independente. 105 não respondeu a dois dos quatro cenários apresentados. Deram informações erradas ou incompletas. De um total de 123 serviços de atendimento, apenas 5 satisfizeram os requisitos mínimos. Em 23, os funcionários negaram mesmo dar informações. Ainda de acordo com a DECO, 81 serviços deram informações erradas em duas das quatro questões colocadas. Oito serviços erraram todas. Uma reforma profunda chegará?
Resposta do assessor de imprensa do ministro: “cada utente que se dirige aos serviços tem um assunto sempre diferente, o que pode gerar problemas”.

Whatever happened to the heroes?





Whatever happened to Leon Trotsky?
He got an ice pick
That made his ears burn

Whatever happened to dear old Lenny?
The great Elmyra and Sancho Panza?
Whatever happened to the heroes?

Whatever happened to all the heroes?
All the Shakespearoes?
They watched their Rome burn
Whatever happened to the heroes?

No more heroes any more
The Stranglers, No More Heroes, 1977

Outubro 24, 2006

Cadeira Branca

A Cadeira Branca
Peça em cerâmica

Jonassane (2006)

Fraude ou Difamação?

Miguel Sousa Tavares está a ser acusado de plágio. Em causa estão as semelhanças entre o seu livro Equador e o livro de Dominique Lapierre e Larry Collins, “Cette Nuit la Liberte”. A denúncia está neste blogue e vem hoje no Diário de Noticias. No FreedomtoCopy são apresentados alguns exemplos. Se tiver o livro em francês ou em inglês, de nome «Freedom at Midnight», compare e deixe aqui a sua opinião.

Dia negro para os mercados financeiros

24.10.1929 - "Quinta-feira negra" na Bolsa de Nova Iorque. A queda vertiginosa das cotações colocou este dia fatídico na história dos Estados Unidos. Foram vendidas ao desbarato 13 milhões de acções, o que na altura era uma operação sem precedentes. Foi o início da grande depressão, que colocou milhões de norte-americanos na miséria. Durou até 1932. Na altura, a globalização não existia e este crash em Wall Street não afectou as outras praças financeiras. No entanto, o recorde da queda de acções num só dia é mais recente. Foi atingido a 19 de Outubro de 1987. Nesse dia o índice Dow Jones perdeu mais de 22%.

Outubro 23, 2006

Galp: quem dá mais?

A partir de amanhã volta a agitação do capitalismo popular à bolsa de Lisboa. Os investidores vão começar a fazer contas à vida e tentar ganhar as mais-valias possíveis na negociação das acções da Galp. Valem à partida 5,81 euros. Este montante vai permitir ao Governo um encaixe próximo de mil e 100 milhões de euros, o que representa 70% do previsto para as privatizações em 2006. Como o total ronda os mil e 563 milhões de euros ainda falta algum. A Portucel é a empresa que se segue. Aí, o Estado vai buscar qualquer coisa como 400 milhões de euros.
Assim se cumpre o encaixe estabelecido no Orçamento de Estado para as privatizações deste ano. Para o ano, faça-se luz.

Revolta hungara faz 50 anos

Faz hoje 50 anos que os húngaros se revoltaram contra o regime socialista. As comemorações desta data em Budapeste são feitas numa altura de intensa contestação ao Governo. Os manifestantes exigem a demissão do primeiro-ministro, porque Ferenc Gyurcsany admitiu ter mentido quanto ao programa de rigor económico em Abril passado. As manifestações populares de 1956 ,exigiam o estabelecimento da democracia e a adopção do pluripartidarismo. No entanto, a revolta durou apenas duas semanas. Moscovo não autorizou tamanha rebeldia. O Outono sorridente na Hungria terminou com a ocupação do país por soldados soviéticos do Exército Vermelho. Vinham equipados com dois mil carros de combate para o que der e vier. Resultado final: 2800 mortos e 12 mil feridos.

Outubro 22, 2006

Moçambique: ex-ministro da Segurança escreve memórias

O ex-ministro moçambicano Jacinto Veloso vai lançar um livro de memórias. É uma prática que virou moda nos políticos reformados, um pouco por todo o mundo. Mas quem esperava que o homem forte da SNASP, a polícia política moçambicana pós-independência, revelasse pormenores sobre as actividades dos serviços de segurança no interior do país, desengane-se. Sobre este assunto, tudo indica que pouco ou nada de interessante se saberá. De acordo com o site de Jacinto Veloso, o livro chamado “Memórias em Voo Rasante”, relata entre outras coisas, episódios da sua fuga para a Tanzânia em 1963, o acordo de Lusaka, a forma como as tensões da guerra fria se reflectiam em Moçambique, o acordo de Nkomati e os contactos secretos com a Renamo antes do acordo de paz. No jornal Savana, Fernando Mbanze relata um episódio interessante sobre a fuga de avião de Jacinto Veloso para Dar-es-Salaam:

"Quando Jacinto Veloso abandonou Moçambique, a 12 de Março de 1963, pilotando um avião militar Harvard T-6 da força aérea portuguesa para se juntar à FRELIMO na Tanzânia, o plano era de levar consigo Samora Machel. (...) Não foi concretizado porque o avião só podia levar duas pessoas e quem acompanhou Veloso foi João Ferreira, mentor do referido plano. O avião militar descolou da Mocímboa da Praia, na província de Cabo Delgado, tendo aterrado em Dar-es-Salaam com Veloso nos comandos do aparelho. Samora Machel acabaria por chegar a Dar-es-Salaam via Botswana, depois de conseguir lugar num avião cedido por Joe Slovo, secretário-geral do Partido Comunista da África do Sul".

O mundo é grande

Fotografia de Man Ray - Sem título, 1931

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.
Carlos Drummond de Andrade

"Nascemos todos originais e morremos cópias"
Carl Jung

Outubro 21, 2006

Lisboa, uma selva urbana

Quanto mais se constrói em Lisboa, menos lisboetas moram nela. Mesmo assim, os projectos sucedem-se e as irregularidades também.

Por mais eufórico que possa ser o discurso dos promotores - seja do imobiliário, seja dos megaeventos culturais, seja do estrelato de alguns arquitectos... - um facto permanece cravado na história recente da capital: cada vez há menos gente a morar nela. Viver em Lisboa é cada vez mais penoso. Aquilo que noutras cidades chega a constituir recreio: ir às compras, dar uma volta, visitas culturais, ir ao café, descansar num jardim... tornou-se aqui um tormento. A cidade está esgotante e a ficar insuportável como lugar de residência. Basta pensar na gestão das rotinas familiares, como seja o dia-a-dia escolar e as suas actividades complementares; o ir e vir dos empregos; as compras. É este abismo entre as duas perspectivas - a eufórica dos promotores e a exausta dos lisboetas - que constitui a pedra de toque em qualquer debate sobre a cidade.
Luísa Schmidt, in Expresso

Vagabundo do Dharma

"O mundo é o que é e nada mais, é feito de mudança e coisas transitórias, visto numa perspectiva de longo prazo acaba por ser porreiro e não temos razões de queixa. (...) Todos concordamos que não conseguimos acompanhar esta pedalada, que estamos cercados pela vida, que nunca a compreenderemos, de maneira que optamos por concentrá-la nos nossos corpos bebendo goles de whisky pelo gargalo da garrafa e quando esta fica vazia, saio a correr do carro e vou comprar outra, ponto parágrafo."
In “Big Sur”, Jack Kerouac

Outubro 20, 2006

SCUT: um sim inesperado

Não resisto em divulgar parte do artigo de opinião do Vasco Pulido Valente sobre as SCUT. Eu partilho dessa opinião, mas tenho sido contestado. Muitos teimam em ver a questão de forma parcial e não conseguem alargar as vistas. O impacto social e económico das SCUT é maior do que se pensa e deve ser visto em função do país que temos e não como uma mera questão académica.

“As Scut não foram um “disparate” e uma “asneira”. Foram um esforço, e um esforço necessário, para ligar o interior ao litoral. Ou, se quiserem, para diminuir a distância crescente entre a civilização do interior e a civilização do litoral. O valor das Scut não se mede em “desenvolvimento”. O que interessa saber é se mudaram o interior e, para bem ou para mal, às vezes para muito mal, mudaram. Quem sugere que o principio do utilizador-pagador se aplique às Scut não percebe com certeza esta evidência primária: faz todo o sentido que toda a gente pague uma política que na prática se destina a transformar todo o país.”
Vasco Pulido Valente, Público, 20.10.2006

CBGB: that´s the end my friend

Patti Smith foi a principal atracção na festa de encerramento do CBGB, o bar que foi a maternidade do movimento punk nova-iorquino na segunda metade dos anos 70. Além de Patti Smith, por lá passaram os Ramones, Blondie, Television e os Talking Heads, todos em início de carreira. Há 30 anos, a zona de Bowery, East Village, era decadente, underground, low cost e com uma frequência pouco recomendável. Hoje, os ricos tomaram conta do bairro. O senhorio pede 65 mil dólares por mês por aquela espelunca afamada. Tal como no Rivoli, também há movimentos contra o “crime cultural” que é o encerramento do CBGB. O mayor de Nova Iorque, Michael Bloomberg, não fez como Rui Rio e mostrou-se interessado em manter o clube a funcionar. Como os encargos são mais que muitos, o dono não aceitou e vai levar tudo para Las Vegas, para aí recomeçar de novo. Significa que a magia do CBGB acabou de vez. O palco está desmontado. A renda está paga até ao fim do mês. Na memória fica o último espectáculo de Patti Smith no clube, no passado fim-de-semana, onde cantou ”Jesus died for somebody’s sins/But not for CBGB’s.” R.I.P.

Aborto despenalizado: é desta?


A Pergunta:
"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?".

A Resposta, se o referendo fosse hoje
SIM 72%
NÃO 28%
Intenção directa de voto:
SIM: 53%
NÃO: 21%
INDECISOS: 10%
NÃO VOTA: 16%
(Sondagem da Universidade Católica para a RTP/Público/Antena 1)

Outubro 19, 2006

Uma grande portuguesa

Não vi o programa da Maria Elisa nem tenciono ver. Mete-me pena ver pessoas doentes a trabalharem. Não me sai da cabeça a imagem que ela deixou quando foi à televisão dizer que sofria de cansaço crónico. Eu também. Descobri-o nesse dia, graças à Maria Elisa. E fiquei a respeitar mais os doentes. Não sou como muitas pessoas que dizem: vai trabalhar malandro. Gente sem educação. Também não sou como o Bettencourt Resendes, que está sempre a mandar recadinhos na sua coluna no DN à Maria Elisa. Que coisa. Ter amigos é sempre bom mas melgas assim devem dar cá uma canseira. Já ser do PSD não dá trabalho nenhum. Isso é Impulse. Dá prémios e viagens a Londres. Mas aqui também há gente cansada. Principalmente na embaixada e nos consulados portugueses. Durante o tempo em que a Maria Elisa lá esteve, li várias histórias nos jornais sobre as longas filas de pessoas para tratar de passaportes. Gente à espera desde as três da manhã. E ainda por cima a queixarem-se. Não há respeito. Não compreendem o cansaço que dá trabalhar no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Sarnas. Agora fiquei com uma dúvida. Será que um cansado pode ser um grande português? Bom, não faço ideia. O inverso sei que é verdade.

Samora vive. Afinal.

Samora Machel morreu há 20 anos. Em 1986, quando o avião em que viajava caiu em território sul-africano, Moçambique vivia uma guerra fratricida, que Samora nunca assumiu ser do foro interno. Para ele, os inimigos vinham de fora, os internos eram apenas fantoches. Ao dizer um dia que "os vizinhos não se escolhem", Samora queria manter a raposa vizinha na toca, coisa que ele próprio sabia não ser possível. No entanto, tentou. O acordo de Nkomati foi feito de desconfianças bilaterais e debaixo das críticas dos aliados da Democracia Popular. No fim, ficaram as feridas profundas causadas por uma guerra que matou cerca de um milhão de moçambicanos. Aos poucos, as coisas foram melhorando e o acordo de paz e as eleições de 1994 foram determinantes para a reconciliação. A família moçambicana fez-se à estrada e recomeçou a caminhada de novo. Mas o mundo estava diferente. E na estrada poeirenta e esburacada, poucos conseguiram passar à frente, muitas vezes da forma menos ortodoxa. As fracturas sociais e económicas sentiram-se logo. Os governantes eram "diferentes" e os governados desconfiavam. Por isso, 20 anos depois Samora está de volta. A sua popularidade aumenta ao mesmo ritmo da crise de valores com que se confronta a sociedade moçambicana. Corrupção, nepotismo e abuso de poder são o alimento do mito, o "único" que pode pôr tudo na ordem. Face a uma burguesia nacional desenraizada que choca o cidadão comum, este recorre ao imaginário dos primeiros anos pós-independência e Samora é a referência de um homem íntegro e honesto. Para muitos a realidade seria diferente se Samora fosse vivo. 20 anos depois, muitos moçambicanos ainda esperam por um líder que dê a voz aos mais desfavorecidos. O mito está aí e a personagem também. Samora vive. Afinal.

Outubro 18, 2006

Banda sonora do viajante cósmico

It's not that I'm so cheerful, though I'll always raise a smile
and if at times my nonsense rhymes then I'll stand trial
My friends are all around me but they only breathe through fear
Were I to cry, I'm sure that still they'd never see a tear

In darkness through my being here, away from you
the bright light of your star confronts me shining through
All This and More, Procol Harum,
in "Live In Concert With The Edmonton Symphony Orchestra", 1971

Um album que ouvi recentemente e me enviou para um tempo de grandes músicos e de grandes criações. Obrigatório regressar ao topo da lista: "álbuns para ouvir com urgência".

Um outro olhar sobre a escola

“ – A escola?... Bem, aqui em Portugal há muita coisa boa... Eu estou na praia, faz sol, o mar é óptimo. Tenho trabalho… Mas a escola aqui é mesmo um problema. Muito fraca.”
Telefonema de uma imigrante para os seus familiares na Rússia.
In “Os Lisboetas”, documentário sobre os imigrantes em Portugal, realizado por Sérgio Tréfaut, 2004

A menina da Rádio

Em Nangololo não há energia eléctrica.

Há apenas uma linha telefónica de instalação recente.
Há uma rádio e chama-se S. Francisco de Assis. Há uma única animadora e chama-se Teresa Luís Makanga. Tem 19 anos e está na 9ª. classe.
O pai não gosta muito da actividade. Os amigos do pai tentam influenciá-lo. A rádio não dá pão. A Teresa é teimosa e resiste às pressões – “não tenho subsídio, mas estou a aprender”.
A rádio tem entretenimento e noticiários. Não entra em cadeia nacional, nem transmite a voz do dono. As notícias só acontecem três vezes por semana: às terças, quintas e sábados. Como faz para arranjar matérias noticiosas se é única? Deixa a rádio a tocar.
Aos domingos, o único microfone da rádio é instalado na igreja. Para transmitir a missa.
Se há problemas com a rádio, “o sr. padre resolve”. O dinheiro das mensagens e discos pedidos também são entregues ao sr. padre.
A Teresa não está habituada a ver cinema e nunca ouviu falar de Woody Allen e dos “Radio days” que imortalizam as Teresas bem mais crescidas num bairro de Nova Iorque.
A Teresa não conhece a Rosa Langa nem a maneira atrevida de fazer perguntas a personalidades e suas sexualidades. Está a aprender. Talvez um dia seja a Rosa do planalto dos makondes.
A Teresa não sabe o que é o Gabinfo, não tem sintomas de insónias ou pesadelos.
Quando não sabe responder, sorri. Sorri ingenuidade.
No sul de Cabo Delgado, junto ao rio Lúrio, com letreiro comunitário, também há rádio e não há energia. Funciona com nove assalariados, pagos do orçamento geral do Estado, Um é contínuo, um outro é servente de limpeza.
Ainda bem que o pai da Teresa não sabe.

Fernando Lima, in "Jornal SAVANA", Maputo, 06.10.2006

Outubro 17, 2006

Posteridade


Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem.

Os jornais dirão:
Cansado da terra
poeta fugiu para o céu.
E não voltarei de facto.
Serei lembrado
instantes
por minha família,
meus amigos,
alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores.

Então meu nome começará a aparecer
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.
Rui Knopfli

OE: a bolsa e a vida

O próximo ano não vai ser fácil. O governo vai ter em 2007 a última hipótese de nos obrigar a apertar o cinto da forma violenta como o tem feito desde que tomou posse. Para o ano o ciclo eleitoral está a meio e a partir de 2008 as coisas vão começar a abrandar. Porquê? Porque há que preparar as próximas eleições e é necessário começar a pensar nos bombons a dar aos eleitores. No entanto, saber se o desafio de pôr as contas públicas em ordem foi ganho, continua uma incógnita. Há ainda muito caminho para andar e a estrada está a chegar ao fim.
Para explicar o que nos espera, a Helena Garrido faz no editorial do
DN uma síntese excelente sobre tudo isto.

O tempo de anunciar reformas acabou. O ano de 2007 vai finalmente basear a redução do défice orçamental em cortes nas despesas do Estado, com um ligeiro apoio do aumento global da carga fiscal. A manifestação a que assistimos na semana passada é a imagem mais viva da dor que a proposta de Orçamento do Estado para 2007 vai causar a algumas pessoas, especialmente as que trabalham para o Estado.Os gastos com a função pública vão dar o maior contributo para a redução do défice público. A participação das prestações sociais, a grande fatia da despesa pública neste momento, faz-se pela contenção do seu crescimento. É já o reflexo das medidas, em concretização, no domínio das pensões de reforma e dos subsídios de desemprego. Mudanças que se vêem no peso dos gastos do Estado com as funções sociais, a registarem uma quebra, em benefício da área de soberania, nomeadamente a Justiça e a Administração Interna. O maior peso das funções de soberania nas despesas públicas é teoricamente inesperado quando temos um Executivo de esquerda. Mas revela bem o carácter pragmático deste Governo e como os tempos obrigam, frequentemente, ao desencontro entre as convicções e a prática política.Do lado dos impostos, continuamos a assistir a uma subida da carga fiscal global. Ninguém pagará menos impostos. Alguns vão pagar mais, nomeadamente os deficientes e os solteiros.
A concretização do Orçamento de 2007, que ontem foi apresentado pelo ministro das Finanças, Fernando Teixeira dos Santos, é a hora da verdade do Governo de José Sócrates. É no próximo ano que vai ser efectivamente testada a capacidade de realizar a urgente e inevitável reforma do Estado. E é em 2007 que se joga o futuro político do primeiro-ministro. Se sair vencedor desta batalha, com uma conjuntura económica minimamente favorável, terá condições para ser reeleito em 2009. Se falhar, será vencido. E o país continuará a penar pelas mudanças que lhe podem garantir o crescimento.

Albert Camus

Albert Camus, 1946 - Fotografia de Henri Cartier-Bresson
"
Para muitos, a guerra é o fim da solidão.
Para mim, é a solidão infinita".

Albert Camus

Outubro 16, 2006

Muhammad Yunus, o anjo dos esquecidos

Não é muito ortodoxo, bem sei, uma jornalista estar na assistência de uma conferência internacional e puxar do lenço porque já não consegue mais conter as lágrimas, desatando em tão ruidoso quanto embaraçoso assoo. Afinal, o dever de ofício obriga a algum distanciamento crítico e ensina-nos a suspeitar até da mais comovente das intervenções. Mas - e esse é o segredo de Muhammad Yunus - toda a resistência céptica desmorona-se perante o exemplo de humanismo e sabedoria transcendental que transborda daquele pequeno homem de aparência simples e espírito elevado. E que nos relembra verdades cruas: "Os pobres são apenas pessoas bonsai . Tal como as árvores, se forem colocadas em vasos pequenos, podadas e sem espaço, nunca ultrapassam um determinado tamanho." Como não sucumbir às palavras de um homem que dedicou 30 anos a lutar pelo direito à dignidade dos mais pobres, que não está na esmola, mas na consagração institucional do direito a condições de partida, através do acesso ao crédito? Combater a indiferença e acreditar nos homens é a sua divisa. Há 30 anos, no Bangladesh, Yunus percebeu que bastava o acesso a 27 dólares para libertar um grupo de 40 mulheres artesãs das garras dos agiotas. Nunca mais parou. E contribuiu para tirar vários milhões da pobreza extrema em todo o mundo. Quando Yunus ergue o seu corpo franzino, envolto num shalwar kamiz - o tradicional fato de túnica larga e calça - e nos diz, iluminado, que "é possível mudar o mundo" sinto o dever de acreditar. E de mudar.
Carla Aguiar, in DN 14.Outubro.2006

Marie Antoinette, the movie

É uma estória revisionista sobre Marie Antoinette e o período que antecedeu a revolução francesa. O filme de Sofia Coppola mergulha fundo no luxo da realeza e aborda a superficialidade da sua vida como rainha e da corte que a rodeava. A crítica caiu-lhe em cima não só no Festival de Cannes, onde foi vaiada, mas um pouco por toda a parte onde o filme foi estreado. Em contraste, a qualidade da banda sonora tem sido destacada pela positiva. A vida frívola de Marie Antoinette é revelada ao som new wave das bandas dos anos 80. The Cure, Bow Wow Wow e Siouxsie Sioux animam uma festa por onde passa Scarlatti e Vivaldi ao de leve. Curiosamente, dão força à história light de uma rainha, que segundo os críticos, aparece no filme com a life style algures entre a princesa Diana e Paris Hilton. Conclusão: banda sonora a não perder.

Maria Antonieta

Maria Antonieta foi decapitada em Paris a 16.10.1793

Outubro 15, 2006

Cão a sorrir práscada, lost in translation


Cão a sorrir práscada

Lost in translation - um prego e uma banheira
Peças em cerâmica
Jonassane (2006)
Em exposição na Islington Contemporary Art and Design Fair, Londres

The perfect lovesong

Fotografia de Pierre Magne, "Lovely Factory", 2004
Give me your love
And I'll give you
the perfect lovesong
With a divine Beatles bassline
And a big old Beach Boys sound
I'll match you pound for pound
Like heavy-weights in the final round
We'll hold on to each other
So we don't fall down
"Perfect Lovesong", The Divine Comedy, 2001

Outubro 13, 2006

No passado, o futuro era melhor?

Nos gloriosos anos da luta de libertação nós gritávamos “Independência ou Morte, Venceremos”. Hoje sabemos: a independência não é mais do que a possibilidade de escolhermos as nossas dependências. Na década de 70, o mundo oferecia a possibilidade de diferentes opções e alianças estratégicas. Hoje as economias nacionais perfilam-se perante um modelo sem alternativa. Escolhemos o que outros escolheram por nós. Uma parte da nossa alma foi já, mesmo sem o sabermos, conduzida para a capoeira e ali esquece a irreverência, a originalidade e o desejo de ser único. A redução da soberania não é um processo que esteja atingindo especificamente Moçambique. É um processo generalizado. Todas nações são hoje menos nacionais, todo o cidadão é menos dono do se mesmo. Uns dizem que, agora, somos todos mundo. Mas ninguém pode ser do mundo se não tiver a sua pequena aldeia.
Mia Couto, in "Moçambique, 30 anos de Independência. No passado, o futuro era melhor?" Suiça, 2005

Um olhar sobre Samora Machel

"Há quem pense que ideologia é apenas uma construção filosófica completa, contendo respostas claras para todos os problemas. Assim a Frelimo era marxista-leninista, agora o que somos? Parece-me excessivo este sentido de orfandade do rótulo.
E como chegamos àqueles princípios atrás referidos: foi entrando na prática, debatendo os problemas e a um determinado momento elevando esse debate ao nível teórico através de análises e de escritos. Na preparação de um novo trabalho, Samora chamava alguém de novo que ele tinha ouvido em algum momento, procurando rodear-se sempre dos melhores. Detestava a mediocridade. “Estabelecer o Poder Popular para servir as Massas”, “Fazer da Escola uma base para o povo tomar o poder” e outros tantos títulos dos cadernos intitulados “Estudos e Orientações” são momentos dessa produção de ideologia. Mas para que um texto nascido na prática fosse mais do que um discurso ou um livro, era preciso que ele fosse praticado, ou como se dizia nesse momento voltasse à prática para ser de novo desenvolvido como novo instrumento de prática e novo discurso.
O suíço Jean Ziegler perguntou-lhe durante a visita a Maputo: “Quando leu Marx no original”? E Samora: “Eu li Marx no chão da minha terra”. O que quer dizer que Samora encontrou nas filosofias políticas do socialismo a expressão de desditas iguais dos pobres deste mundo, aqueles que Frantz Fanon chamou os condenados da terra".
José Oscar Monteiro, membro da Frelimo e colaborador de Samora Machel
In “Jornal SAVANA”, Maputo, 13.10.2006

Cosmocópula

Fotografia de Henri Cartier-Bresson - Mexico City, 1934

Membro a pino
dia é macho
submarino
é entre coxas
teu mergulho
vício de ostras

O corpo é praia a boca é a nascente
e é na vulva que a areia é mais sedenta
poro a poro vou sendo o curso da água
da tua língua demasiada e lenta

dentes e unhas rebentam como pinhas
de carnívoras plantas te é meu ventre
abro-te as coxas e deixo-te crescer
duro e cheiroso como o aloendro.
Natália Correia, in Antologia da Poesia Erótica e Satírica, 1966

Outubro 12, 2006

Nobel da Literatura

O escritor turco Orhan Pamuk, de 54 anos, é o novo prémio Nobel da Literatura. O galardão foi-lhe atribuído por ser um escritor que "na busca da alma melancólica da sua terra natal, encontrou novas imagens espirituais para o combate e para o cruzamento de culturas". Defensor da causa arménia e curda, Orhan Pamuk tem sido fortemente criticado pelos nacionalistas turcos e muitos consideram-no "persona non grata". Porquê? Por dizer coisas como estas: "um milhão de arménios e 30 mil curdos foram mortos nas suas terras, mas ninguém, para além de mim, ousa dizê-lo". Disse isto a um jornal suíço e por isso foi acusado e levado a tribunal. Sobre o julgamento, escreveu este artigo chamado “On Trial” para a revista “The New Yorker:

“In Istanbul this Friday—in Şişli, the district where I have spent my whole life, in the courthouse directly opposite the three-story house where my grandmother lived alone for forty years—I will stand before a judge. My crime is to have “publicly denigrated Turkish identity.” The prosecutor will ask that I be imprisoned for three years. I should perhaps find it worrying that the Turkish-Armenian journalist Hrant Dink was tried in the same court for the same offense, under Article 301 of the same statute, and was found guilty, but I remain optimistic. For, like my lawyer, I believe that the case against me is thin; I do not think I will end up in jail. (…)

Pode ler o resto AQUI.

As voltas que a história dá!

Cristóvão Colombo chegou num dia como este à América. Como na altura não havia televisão, não soube que no dia anterior uma avioneta pilotada por um jogador de basebol colidiu com um arranha-céus em Manhattan. Mas com uma diferença de 514 anos, não sabia nem poderia saber, a não ser se tivesse entrado no filme “Regresso ao Futuro”. Ao atingir a costa, Colombo pensou que estava na Índia, Não sei porquê. Nesta altura a Índia não existia. O seu nome na época era o Hindustão, a terra dos hindus. Em Bali, na Indonésia, os hindus também são muitos e constituem 95% da população. Em 2002, neste mesmo dia, sofreram um atentado terrorista que matou 200 pessoas. Mas não foram os hindus os seus autores, foram os muçulmanos. Alguns, por acaso, também gostam de chocar com torres em Nova Iorque. Ou seja. Toda esta estória nos leva de novo a Cristóvão Colombo. Será que ele era da Al-Qaeda e na altura já tinha pesadelos com prédios altos?

Outubro 11, 2006

Cenários

A Comissão Europeia reviu hoje em baixa as previsões de crescimento para a Zona Euro para a segunda metade de 2006 e não afasta um cenário de estagnação para o primeiro trimestre de 2007.
O Ministro das Finanças declarou ontem no Luxemburgo que vai anunciar na próxima semana uma revisão em alta da economia portuguesa.
Em que ficamos?

Farpas de Alegre a Sócrates

Gostei da reacção de Manuel Alegre às medidas agora anunciadas pelo Governo. As críticas às mexidas no sector da saúde e da segurança social foram feitas no timing certo. Alegre considerou que a consolidação das contas públicas deve ter em conta a coesão Social e avisou: "quem exerce o poder tem de ouvir a rua". “O compromisso com Portugal é o compromisso com a defesa da escola pública, com a modernização do Serviço Nacional de Saúde, com a manutenção da solidariedade entre gerações na Segurança Social. Não é o compromisso da aplicação de taxas moderadoras sobre cirurgias e internamentos”, criticou. Manuel Alegre lançou estas farpas a José Sócrates durante o lançamento da página na Internet do Movimento Intervenção e Cidadania.

Outubro 10, 2006

Fotografia de Jan Saudek
“O desejo é a metade da vida, a indiferença é a metade da morte”
In “Areia e Espuma”, Khalil Gibran

Kora

"Kora"
Peça em cerâmica
Jonassane (2006)

Negócios pouco virtuais

Se ainda não sabe, está a utilizar um meio virtual onde se fazem negócios multimilionários, quase do mesmo calibre dos relacionados com jóias, armamento ou imobiliário. Se é uma pessoa informada, fique a saber pormenores desta transacção: o Google vai comprar o YouTube por mais de mil e 300 milhões de euros. E ainda por cima vai dar emprego não só aos patrões mas também aos 65 trabalhadores da empresa. Sem greves, protestos ou peixeiradas. É obra. Tanto a primeira como a segunda empresa começou neste ramo da forma mais desinteressada e informal que se possa imaginar. E o ramo virou floresta. De repente, estão na lista dos mais ricos na revista Forbes. Mais. Já batem a MSN, do camarada "filantropo" Bill Gates. Com esta compra surgiu-me um ideia. É um risco, porque é uma pechincha, mas vale a pena tentar. Anuncio solenemente que estou a vender o blogue Estrada Poeirenta. A base de licitação é baixa. Apenas 100 milhões de euros. Deixe mensagem.

Outubro 09, 2006

North Korea: No Nuke!!!

W.'s State of Denial

Bob Woodward lançou mais um livro. Chama-se "State of Denial" e é o terceiro da série "Bush at War". Woodward diz que a verdadeira dimensão do que se passa no Iraque está a ser escondida pela administração Bush. "Existe o público e existe o privado, mas o que é feito com o privado é mantido em segredo. Ninguém sabe o que se passa", escreve Woodward. O conhecido jornalista revela ainda que que ficou surprendido ao saber que Henry Kissinger também está a assessorar Bush. "Ele está de volta. De facto, Henry Kissinger é como um membro da família. Se está na cidade e se o presidente está livre, eles acabam por se encontrar". Woodward considera isto "fascinante. Kissinger está envolvido de novo na guerra do Vietname".

Jacques Brel

08.04.1929 - 09.10.1978
Le coeur bien au chaud
Les yeux dans la bière
Chez la grosse Adrienne de Montalant
Avec l'ami Jojo
Et avec l'ami Pierre
On allait boire nos vingt ans
Jojo se prenait pour Voltaire
Et Pierre pour Casanova
Et moi, moi qui étais le plus fier
Moi, moi je me prenais pour moi
Et quand vers minuit passaient les notaires
Qui sortaient de l'hôtel des "Trois Faisans"
On leur montrait notre cul et nos bonnes manières
En leur chantant

Les bourgeois c'est comme les cochons
Plus ça devient vieux plus ça devient bête
Les bourgeois c'est comme les cochons
Plus ça devient vieux plus ça devient c...
Jacques Brel, "Les bourgeois", 1961

Outubro 08, 2006

Quatro noites de um sonhador

Robert Bresson foi dos poucos cineastas que não fez nenhuma concessão à indústria do cinema. Os seus filmes foram sempre realizados sem actores profissionais e sem efeitos teatrais. Talvez por isso, apenas fez doze filmes em 40 anos. Marguerite Duras disse um dia: "o que os homens faziam até aqui em poesia, Bresson passou a fazê-lo no cinema". Na mesma linha estava Goddard: "Bresson é para o cinema francês o mesmo que Dostoievski para a literatura russa". Em "Quatre nuits d'un rêveur", de 1971, Bresson colocou no cinema a sua visão do conto "Noites Brancas", de Dostoiévski. Um filme inesquecível.
"Hoje, o dia esteve triste, chuvoso, sem luz, como a minha futura velhice. Fui assediado por estranhos pensamentos, sentimentos turvos, questões ainda obscuras para mim, comprimiam-se dentro do meu cérebro, sem que eu tivesse força ou vontade para as solucionar. Não, não seria eu quem poderia resolver tudo isso! Hoje não nos veremos. Ontem, quando nos deixamos, as nuvens espalhavam-se no céu e o nevoeiro adensava-se. Disse que o dia seria mau; ela não respondeu, pois não queria falar contra si própria: para ela, este dia é luminoso e claro e nenhuma nuvem poderá eclipsar a sua felicidade."Caso chova, não nos veremos", dissera ela, "não virei." Pensei que ela não iria notar a chuva de hoje, mas, no entanto, não veio.Ontem foi o nosso terceiro encontro, a nossa terceira noite branca."
in "Noites Brancas", Fédor Dostoiévski

Outubro 07, 2006

Ausência

"Olimpic Games", de Arthur Elgort, 1990
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
Sophia de Mello Breyner Andresen

"Eu nunca penso no futuro. Ele não tarda a chegar"
Albert Einstein

Outubro 06, 2006

Corrupção: contrato tripartido?

Cavaco Silva acaba de se juntar ao Pacto de Justiça celebrado pelo PS e PSD. A corrupção, aquela doença que mina a democracia, ao estar no centro do seu discurso do 5 de Outubro, simbolizou uma adesão a algo de já tinha sua bênção. Este é mais um episódio de um arranjo de bastidores de um Bloco Central XXL, ainda “em construção”. Todo este cenário foi preparado. As notícias sobre corrupção abundaram nos últimos dias. Vão desde o caso na Marinha, às histórias do futebol e às falcatruas nas autarquias. Na política, João Cravinho anda atarefado nas suas propostas anticorrupção. No meio disto tudo, eis que surge o novo Procurador-Geral da República. A parte mais académica também não faltou. Nos últimos dias, muitos jornais deram conta das “preocupações” dos experts da OCDE, e outros divulgaram estudos sobre corrupção, vindas de ONGs, como a “Transparency International”. Com todo este figurino composto, alguém pensava que o discurso de Cavaco seria outro? Não. Agências de Comunicação, assessores e coisas afins não descansaram. A questão põe-se nestes termos: é bom o combate à corrupção? É claro que sim. Em consciência, ninguém nega que é uma boa iniciativa. Mas quem são os seus autores? Todos políticos profissionais. Não digo que são corruptos, mas fazem parte de um sistema viciado. Aliás, foram eles quem o criaram. Os escândalos de corrupção percorrem as várias bancadas parlamentares, com a excepção do PCP e do Bloco. Talvez porque nunca foram poder. O que acontece? Nada. A impunidade parlamentar é usada para se resguardarem. Ninguém vai mudar isso. Saindo do sector dos políticos, veja-se a vergonha do futebol. Nos negócios, os casos são mais que muitos e o poder autárquico entra muitas vezes em campo. Os lucros da banca são escandalosos. Mas nos seus quadros é um vai-e-vem de ex-governantes e políticos profissionais. Um exemplo. Celeste Cardona, uma ministra incompetente, foi para administradora da Caixa Geral dos Depósitos a ganhar uma fortuna. Um dia destes, sai com uma pensão ultra dourada. Este não é um exemplo de corrupção e amiguismo politico? A justiça é outro problema. Ainda me lembro de, em 1995, João Cebola ter sido o primeiro empresário condenado a cumprir pena de prisão por fuga ao fisco. Mas foi só para ficar na história. Porque a sua pena foi suspensa pelo Supremo Tribunal de Justiça. Concluindo. Não sei porquê, o consenso nesta rentrée tripartida de Governo, Parlamento e Presidente da República cheira-me a trabalho de bastidores de spin doctors. Duvido que a partir de agora seja diferente. Mas uma coisa é certa. As medidas económicas estão a atingir os seus objectivos. A vida do cidadão comum está de facto cada vez mais difícil. Mas para dourar a pílula e nos acalmarem, lá estão de novo os tais spin doctors. Esses, são pagos a peso de ouro com o dinheiro dos contribuintes, o nosso, para ficarmos satisfeitos e contentinhos. Eu não!

Scott Walker no Porto

Scott Walker é hoje homenageado na Casa da Música. Para quem não saiba quem é, foi o mentor dos Walker Brothers, uma banda dos anos 60. Manteve, em paralelo, uma carreira a solo, que abrangeu outro público menos pop. Deu nas vistas quando cantou Brel e levou os anglófonos a perceberem que há mundos para além do seu mundo. Possuidor de uma voz perturbante, as suas canções influenciaram músicos como David Bowie, Brian Eno, Julian Cope, Tindersticks e David Sylvian, entre outros. O espectáculo de hoje tem como base o álbum “Angel of Ashes–A Tribute to Scott Walker”, e nele vão participar vários músicos nacionais e estrangeiros. Uma iniciativa de louvar.

Outubro 05, 2006

Agitação social desnecessária

No balanço da época balnear deste ano, há uma notícia curiosa. Uma pessoa que alertava através de um megafone para um falso alerta de tsunami na Costa da Caparica, foi alvo de um processo. O banhista em questão foi notificado pelas autoridades marítimas e poderá ter que pagar uma multa até 550 euros. Novas leis que entraram agora em vigor, diz a polícia marítima. Isso de mentir em público e provocar agitação social desnecessária, também se aplica à classe política? É algo que eles fazem diariamente. Não? Ah. Já me tinha esquecido. Dizem que a isso se chama liberdade de expressão e exercício dos direitos democráticos. Fico mais descansado.

Recordando Che, o "freak" da Rua do Sol


Morreu o "Che" numa sexta-feira que os cristãos designam como "santa". O "Che", de seu verdadeiro nome Luís Filipe Mota, morreu e nem sequer teve direito a anúncio necrológico. Foi-se um dos ícones da cidade, quem na década de 70 fez um "graffitti"por cima da placa da Rua do Sol redenominando-a Carnaby Street e a esquina com a J. Serrão (hoje Emília Daússe) a Haight-Ashbury lourenço-marquina, como se Londres e São Francisco tivessem o seu nicho "hippie" em terras de África. Não mudou muito o "Che" desde os tempos da Joaquim de Araújo (hoje Escola Estrela Vermelha). Dos tempos do Chiquinho da Mafalala e do imenso contínuo Marques, que era bombeiro no "Avenida", porteiro de cinema e futebol e fazia distribuição de "carolos" a tudo quanto era puto reguila. Porque era preciso ganhar a vida.

A "Araújo"do comandante de falange Gil Maússe, o primeiro negro a ter tal distinção na Mocidade Portuguesa, do desbragado comandante de castelo Nicos Tsitsivakos, dos mestres João Ayres, João Paulo, do Campos borboletando em torno da "stôra" Isabel Maurity e do seu "MG" descapotável vermelho, do "stôr" Cabral, que nessa época não se preocupava com museus e biologias e dava apenas aulas de ginástica e ... muitas borlas.
Morreu o "Che" que fez desaguar na Rua do Sol os meninos do Grémio, do Clube Militar, da Polana e do Sommerschield em busca de "prelos", de "lipos" e dos "mata-borrão" que chegavam em envelope de correio da metrópole. Do "Madeirense" que se despediu da cantina em frente, cansado de vender "catembes", rendido aos fumos alucinogénicos da "kota kota" do Malawi, da "Gorongoza" e da "DP" (pronunciar "dipi", para Durban Poison). Rendido ao sexo também. Havia muito sexo naquela varanda do rés-do-chão e no vão de escada, como se reeditasse o verão do amor e Woodstock. Enquanto outros jogavam futebol nos Maristas e faziam "visitas de estudo" à cave do "Dias dos Xaropes" ali no mesmo quarteirão. Por uma garrafa de groselha ou capilé.
Morreu o "Che" que continuou na época do puritanismo absoluto a consumir e a vender drogas. Mudou de discurso. Quem o ouvisse e fechasse os olhos, podia imaginar um daqueles comissários políticos "ten years" que agora batem com a cabeça nas paredes. Batem os que não se converteram ao capitalismo selvagem nem são testa de ferro de nenhum "tuga", "boer" e outras espécies faunísticas afins.
O "Che " morreu. Saiu sem despedir o "freak" mais "freak" da cidade".

Fernando Lima, “Jornal SAVANA”, Maputo, Abril de 2004

A República

" O pior uso que se pode fazer da liberdade é abdicar dela"
Provérbio popular

Outubro 04, 2006

Janis Joplin

19.01.1943 - 04.10.1970
If I could pray and I try, dear,
You might come back home, home to me.
Maybe
Whoa, if I could ever hold your little hand
Oh you might understand.
Maybe, maybe, maybe, maybe, maybe dear
I guess I might have done something wrong,
Honey I’d be glad to admit it.
Oh, come on home to me!

Well I know that it just doesn’t ever seem to matter, baby,
Oh honey, when I go out or what I’m trying to do,
Can’t you see I’m still left here
And I’m holding on in needing you.

Please, please, please, please,
Oh won’t you reconsider babe.
Now come on, I said come back,
Won’t you come back to me!
Maybe dear, oh maybe, maybe, maybe,
Let me help you show me how.
Maybe, in "I Got Dem Ol’ Kozmic Blues Again Mama!", 1969

Mulher na água de Eric Boutilier-Brown
"O amor é o desejo irresistível de ser irresistivelmente desejado"
Robert Frost

Outubro 03, 2006

Guerras boas para maus actores

A TSF contratou Santana Lopes como comentador. Para a estação, é uma aposta forte da nova grelha Outono/Inverno. Cá para nós, não a dignifica em nada. Desta vez, a TSF deu um tiro no pé. Esta é uma estória que pode ler AQUI. Sabe porquê? Porque o jornal PÚBLICO está agora com ACESSO LIVRE. Afinal a GUERRA dos jornais tem coisas BOAs.
Post inspirado no Jornalismo e Comunicação.

A Face da Morte

Está disponível a partir de hoje em Lisboa uma exposição fotográfica que mexe com alguns dos tabus que mais afligem a sociedade actual: a doença, a velhice e a morte. São 44 fotografias, a preto e branco, que fixam dois momentos de vários doentes em fase terminal, um ainda em vida e outra logo após a morte. As imagens são do fotógrafo alemão Walter Schels e os textos da jornalista da revista Der Spiegel, Beate Lakotta. A exposição chama-se Amor-te e conta as experiências, os medos e as esperanças daquelas pessoas.
Na Mãe d'Água, Amoreiras, em Lisboa, até 28 de Outubro. A não perder.

Outubro 02, 2006

Língua e jogos de poder

Moçambique entrou este fim-de-semana para a Organização Internacional da Francofonia. De acordo com o Presidente moçambicano, a adesão do país à organização pode “acelerar a implementação da agenda nacional de luta contra a pobreza". Países como a Albânia, Macedónia ou a Grécia são agora membros de pleno direito. Sérvia, Sudão, Ucrânia e Moçambique têm o estatuto de observadores. O que têm de comum todos estes países? Quase ninguém fala francês. Esta é mais um caso de utilização de uma organização linguística para objectivos económicos. Faz sentido? Também se pode aderir à qualquer Associação de Cinema para combater a malária? Ou à Associação de Escritores para melhorar a rede viária de um país? Moçambique é um globetrotter deste tipo de associações. Há uns anos a polémica Mozambique ou Moçambique fez correr muita tinta nos jornais. O governo de Maputo explicou que a integração na Commonwealth justificava-se pelo facto dos países vizinhos terem o inglês como língua oficial. Já a sua adesão Organização da Conferência Islâmica teve como base a forte implantação do islamismo no país. E a adesão à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) foi porque a língua oficial é o português. Moçambique é apenas um exemplo. Noutros países acontece o mesmo. Embora todo o apoio ao desenvolvimento seja sempre bem-vindo, esta opção da “língua por dinheiro” faz pouco sentido e é pouco dignificante. Sendo a língua considerada um idioma falado por um ou mais povos que muitas vezes ultrapassa fronteiras, faz sentido reforçarem-se esses laços de identidade, para benefício mútuo. Mas a actual situação cai fora dessa lógica. Não só é pouco nobre os países mais pobres procurarem benefícios a qualquer preço, como não é de bom tom os mais ricos continuarem a apostar em áreas de influência, que têm a ver mais com geoestratégia do poder do que com solidariedade.

Outubro 01, 2006

Até à próxima guerra

O exército israelita saiu finalmente do Líbano. O conflito durou 34 dias, causou cerca de 1.200 mortos, milhares de feridos, mais de um milhão de deslocados e um país meio destruído. O recurso à força resolveu alguma coisa? Não. As partes em conflito mantêm as mesmas posições que tinham antes da guerra. Os países vizinhos continuam a apoiar os mesmos. Mais uma guerra desnecessária. Como nota de rodapé destaca-se o papel de pateta alegre de Condoleezza Rice. Os neocons não se enxergam?

Music to Watch Girls By

O Outono está aí e com ele a mudança. É mais um ano que recomeça e que vai terminar no próximo verão, quando reduzirmos de novo a roupa à sua expressão mínima: o fato de banho. Aqui vão algumas propostas musicais, algumas delas intemporais, que dão para aguentar até ao inverno. Ouvem-se melhor com whisky, cognac e cocktails exóticos. A ordem dos factores é arbitrária.


The Killers estão de volta com o sucessor de "Hot Fuss". "Sam's Town" pretende provar que eles não brincam em serviço e os 5 milhões de cópias que venderam com o primeiro album não são só marketing. Vem na linha do rock independente, com guitarras bem marcadas e soltas. É o mainstream sonoro que cai sempre bem a quem gosta de uma boa batida.


Ravi Shankar and Phillip Glass gravaram em 1990 um álbum memorável. "Passages" é o resultado de uma fusão entre sonoridades avant-garde e tradicionais indianas. As orquestrações de Glass adaptam-se que nem uma luva à citara de Shankar. Para ouvir vezes sem conta.

Os Can eram um grupo alemão pioneiro do que hoje se chama rock alternativo. Exploravam territórios que podiam ir do sinfónico ao contemporâneo, passando por Zappa ou Velvet Underground. "Tago Mago" é uma pérola do chamado Krautrock, editada em 1971. Resiste ao tempo e é uma verdadeira trip. Quem não conhece acaba sempre por perguntar: quem é esse grupo novo? Indispensável.


Por último Ornette Coleman, um dos músicos mais inovadores e vanguardistas de sempre. A caixa "Beauty Is a Rare Thing: The Complete Atlantic Recordings" tem em seis CD as gravações que fez para a Atlantic entre 1959 a 1962. Pioneiro do "free jazz", Ornette Coleman confundiu público e criticos, com o seu estilo muito peculiar que caracterizou esta fase. Os improvisos fora das regras estabelecidas tornavam a sua música surpreendente e inclassificável. Era a revelação de um génio, que só mais tarde viria a ser reconhecido.