Janeiro 26, 2006

ACIMA DA VERDADE estão os deuses.
A nossa ciência é uma falhada cópia
Da certeza com que eles
Sabem que há o Universo.
Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses,

Não pertence à ciência conhecê-los,
Mas adorar devemos
Seus vultos como às flores,
Porque visíveis à nossa alta vista,

São tão reais como reais as flores
E no seu calmo Olimpo
São outra Natureza.
*
"Homenagem a Fernando Pessoa"

Ricardo Reis

Janeiro 08, 2006

O físico Leonardo Vetra sentiu cheiro de carne queimada e sabia que era a sua. Levantou os olhos, aterrorizados, para a figura sombria que o dominava.
- O que você quer?
- La chiave - respondeu a voz rascante. - A senha.
- Mas eu não...
O intruso curvou-se de novo para a frente, pressionando com mais força o objecto em brasa no peito de Vetra. Ouviu-se um chiado de carne grelhando.
Vetra gritou alto, agoniado.
- Não existe senha nenhuma! - E sentiu que mergulhava na inconsciência. O rosto do homem encheu-se de uma fúria contida.
- Ne avevo paura. Era o que eu temia.
Vetra esforçou-se para manter os sentidos, mas a escuridão envolvia-o pouco a pouco. Seu único consolo era saber que o agressor jamais obteria o que viera buscar. Um momento mais tarde, porém, o homem fez aparecer uma lâmina e ergueu-a diante do rosto de Vetra. A lâmina adejou no ar. Precisa. Cirúrgica.
- Pelo amor de Deus! - gritou Vetra.
Mas era tarde demais.

Dan Brown, Anjos e Demónios

Janeiro 05, 2006

Eu estimo sobre tudo os teus olhos incolores
as tuas mãos inúteis, a tua boca verde
Eu falo somente dos relógios caídos, dos autocarros
Eu falo somente dos pés vermelhos
Eu falo... eu falo... eu falo...
No vigésimo século as nuvens são árvores
e os pássaros mais pequenos grandes paquidermes
Sim, é verdade, os cabelos loiros
Então, meia-noite!
Senhora, se me dá licença, este dia acabou
por este dia
simplesmente
A criança é porca, é inútil
Muito obrigado…
Varech, de António Maria Lisboa
O Surrealismo na Poesia Portuguesa
Organização, prefácio e notas de Natália Correia
Frenesi, 2ª edição, 2002

"Nem o passado existe nem o futuro.
Tudo é presente".
Gonzalo Torrente Ballester, escritor espanhol.

Janeiro 01, 2006

Bom Ano

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:

"Navegar é preciso; viver não é preciso".


Quero para mim o espírito desta frase,

transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo
e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

Fernando Pessoa