A polémica já tem algum tempo mas em Angola as feridas continuam por sarar. Estou a referir-me a José Eduardo Agualusa. É um dos escritores angolanos mais conhecidos e a sua frontalidade ainda incomoda muita gente. Recentemente, a polémica rebentou devido a uma entrevista que o escritor concedeu ao jornal Angolense, na qual atacava de forma frontal a poesia de Agostinho Neto. O terramoto veio a seguir. Aparentemente acalmou. Porque considero interessante ter uma ideia da polémica vista através dos seus intervenientes angolanos, aqui vão uns excertos recolhidos no Jornal Savana. Jornal Angolense: A inexistência de bolsas será uma “boa” razão por que não vemos muitos escritores angolanos a publicarem as suas obras?
José Eduardo Agualusa: (...) O fundamental, como em tudo na vida, é a paixão. Em Angola o problema principal tem a ver com a carência de livros. As pessoas, mesmo os escritores. A mim impressiona-me nos inquéritos as pessoas indicarem como escritores preferidos escritores angolanos. Pode fazer muito bem ao nosso ego, mas a verdade é que a nossa literatura é incipiente, quem realmente goste de ler vai indicar escritores de outros países, com obra feita. Uma pessoa que ache que o Agostinho Neto, por exemplo, foi um extraordinário poeta é porque não conhece rigorosamente nada de poesia. Agostinho Neto foi um poeta medíocre. O mesmo se pode dizer de António Cardoso ou de António Jacinto. Foram todos eles grandes figuras do nacionalismo angolano, e eventualmente muito boas pessoas, não sei, não conheci nenhum deles, mas eram fracos poetas. Ruy Duarte de Carvalho é um bom poeta. Ana Paula Tavares tem um trabalho muito interessante.
Entrevista de José Eduardo Agualusa ao Jornal Angolense
O comerciante desalmado
(...) O senhor José Agualusa tem o direito de dar a sua opinião. Mas não pode dizer que quem considera Agostinho Neto um grande poeta “não percebe rigorosamente nada de poesia”. Quando a arrogância se associa à ignorância e ao despeito, só pode dar Agualusa. Mas por muito que lhe custe, o império colonial caiu mesmo e já não volta a ressurgir dos escombros. E nem o facto de ser um angolano tardio ou um balbuciante empregado de balcão no difícil comércio das palavras lhe desculpam o atrevimento e a cobardia de bater em quem não pode defender-se. O que me deixou mais preocupado na entrevista de Agualusa foi ter-se refugiado na amizade de Mena Abrantes e João Melo. O moço agrediu, cuspiu e depois foi avisando que tem amigos no campo das letras. Presumo que ambos perderam o sentido do olfacto. Caso contrário, quando recebem a visita de Agualusa, devem contorcer-se com vómitos. Cuidem da saúde, queridos companheiros!
Artur Queiroz in Jornal de Angola
Em defesa do José Eduardo Agualusa
(...) Quando o Agualusa diz que o Agostinho Neto foi um poeta medíocre não está, nem de longe, a questionar as suas credenciais como nacionalista angolano. Isto está fora de questão. A fusão do Neto-poeta com o Neto-político, muitas das vezes feita, é que resulta em afirmações intelectuais pouco firmes. Um bom político não é necessariamente um bom poeta e vice-versa. O senhor Artur Queiroz afirma que Agostinho Neto é universalmente reconhecido como grande poeta. Tenho dado aulas e feito conferências de e sobre Literatura Africana em várias partes do mundo. Muitos dos meus alunos e participantes dessas conferências nunca ouviram falar de Agostinho Neto. Isto é a verdade! Da África Lusófona só há dois escritores de que se fala muito: o moçambicano Mia Couto e o angolano... José Eduardo Agualusa.
Sousa Jamba in Semanário Angolense
Direito de resposta
Mobutu não gostava de calças à boca de sino. Mugabe odeia (e persegue) os homossexuais. No Chile de Pinochet, e em Moçambique, no tempo de Samora Machel, jovens com cabelo comprido não eram muito apreciados pelo regime. No seio do partido no poder confrontam-se hoje em dia democratas autênticos, democratas de fantasia – que ainda há poucos anos defendiam o sistema de partido único –, e uma mão cheia de órfãos da ditadura, mortos-vivos que não conseguem adaptar-se aos novos tempos e insistem em classificar como traidores à pátria todos os que se atrevam a contestá-los. Partido e pátria são para estas pessoas exactamente o mesmo, ou, ao menos, o partido constitui uma extensão da pátria. Estes zombies são hoje, dentro do MPLA, um arcaísmo deselegante.
José Eduardo Agualusa in A Capital, semanário de Luanda
Sobre a poesia de Agostinho Neto
(...) Julgo que a comparação entre Agostinho Neto com outros poetas, feita por Agualusa e retomada por Sousa Jamba é patológica. Patológica porque toda a comparação que visa denegrir uns e valorizar outros não é comparação. A comparação deve resultar de uma perspectiva diferencial, ou seja, compreender o que cada um tem de diferente em relação ao outro e de que forma estas diferenças podem ser construtoras de sentidos epistemológicos ou de outra natureza.
Laurindo Vieira in Jornal de Angola