Novembro 09, 2009

Uma chanceler, um muro e dois postos fronteiriços

O muro de Berlim caiu há 20 anos. Mais logo, às seis da tarde, começam as obras de reconstrução. É a grande festa do cimento-cola, patrocinada por uma marca de vodka. Absolutamente. Depois das seis, começa o conserto. Os operários são os da bancada da Ópera de Berlim. Só podiam ser. Se tiver uma espátula, um martelo de carpinteiro ou hidráulico, não falte. Em complemento, pode ouvir Ângela Merkel. Ela e outros convidados têm algo a dizer. Têm sempre. O Sócrates também lá vai estar. E quer participar nas obras. Na parte da tarde, a chanceler alemã visitará uns postos fronteiriços, onde teve experiências inesquecíveis com alguns guardas. Eles já confirmaram a presença por iPhone. Ela quer reconstituir tudo o que fez. Faz questão. Mesmo sem a elasticidade de outrora, ousa tentar. De repente lembrei-me que tenho de comprar uma máquina de filmar. Há uma marca que gosto. Também é a preferida de alguns arquitectos. Tem dado bons resultados. Afinal, it's a Sony.

Novembro 08, 2009

The Wall

Em Berlim, "The Wall" era a novidade do ano. Estava-se em 1961 e os Pink Floyd ainda não existiam. Mas é curioso que os trabalhadores do leste já eram mão de obra barata. Na construção do Muro da Vergonha, na Bernauer Strasse, era fácil arranjar trabalho. Não pagavam mal. Andaram por ali mais uns anos e quando acabou o muro passaram por uns cursos de formação e acabaram em agentes secretos. A reciclagem laboral dava os primeiros passos. Mas, como hoje, ninguém controla o pensamento, amanhã já estamos em 1989. O mundo murado de Berlim começa a ruir a 9 de Novembro, 16 anos depois de Lou Reed ter gravado o álbum "Berlin", precisamente em Berlim. Já andava ás voltas com uma doença chamada "Cold Turkey" que na altura era uma espécie de "Gripe A" dos freaks. Mas não foi por causa disto que o leste alemão entrou em colapso. A questão era ideológica por isso já devia ter entrado em desagregação há mais tempo. Mas a Stasi não deixava, pois não queriam perder uma série de subsídios. Mas o materialismo fraquejou e, curiosamente, a Europa de Leste foi a primeira vitima da dialéctica. A ideologia gripou e a coisa complicou-se. Primeiro agarraram-se ao cabo do martelo porque a outra foi-se. Agora, são todos homens de negócios, usam óculos escuros, têm muitos guardas-costas e só usam mulheres loiras.

Novembro 07, 2009

Moçambique: o partido dos brancos

Coisas estranhas estão a acontecer nas eleições deste ano. Números anormais de votos nulos e em branco estão a complicar as já magras contas dos eleitores que foram depositar os votos nas urnas. Uma parte dos nulos, sabemo-lo por algumas evidências, ficam a dever-se a zelosos funcionários nas mesas eleitorais que, para agradar ao seu partido e candidato decidiram inutilizar os votos dos candidatos rivais. Com cruzes extras ou, mais atabalhoadamente, com a tinta indelével disponível nos locais de votação. Tal como os militantes que decidiram desancar os seus rivais políticos durante a campanha, estas novas “militâncias” borram sobretudo a pintura dos que querem aparecer na fotografia eleitoral como acima de qualquer suspeita. Mais complicada é a profusão de votos em branco. Os votos dos que foram exercer o seu direito de cidadania mas que acabaram por não dar o voto a nenhuma entidade em particular. Até há quem diga que é o não voto. Mas o não voto é a abstenção, a maior força política do país. Nas propostas unilaterais de votação num único partido para as Assembleias rovinciais, para muitos, o “voto branco” foi a opção. Mas também há muitos “votos brancos” nas presidenciais. Uma as explicações é que três opções, tantas quantos os candidatos, não foram suficientes. Tanto esforço para nada, argumenta-se. Pode ser. Mas também houve quase 10 milhões de moçambicanos que fizeram um esforço por terem o cartão com fotografia e depois, menos de quatro milhões se preocuparam com as eleições. Nas eleições legislativas há a explicação MDM (Movimento Democrático de Moçambique). Ao contrário dos outros 18 partidos que foram total ou parcialmente excluídos da participação no pleito, o MDM, através do seu candidato presidencial mostrou consistência mínima na votação que obteve por todo o país.
Poderá argumentar-se que votações de 6-7% são irrisórias. Contudo a estória de quatro eleições multipartidárias em Moçambique, mostra que “terceiras forças” dificilmente chegaram à fasquia dos dois pontos nacionais. Objectivamente, algumas centenas de milhar de eleitores foram confrontados com este dilema: não terem como oferta um rectângulo de voto com as insígnias do galo do MDM. Só havia oferta em quatro dos 13 círculos eleitorais. Por extrapolação, com base nos resultados da candidatura presidencial, poderia haver no poleiro da Assembleia da República mais nove “galos” do MDM. Mas não vai ser esse o cenário. Só há oito seleccionados por Sofala e Maputo Haverá um grupo do MDM no Parlamento que não atingiu o 11 mágico, capaz de lhe dar estatuto de bancada. O que vai limitar a acção e visibilidade de um grupo com potencial para fazer a diferença das olímpicas sonecas que se desfrutam no palácio da 24 de Julho. O pluralismo e a diferença tiverem que ser sacrificados por um discutível determinismo normativo que trata cidadania como um vulgar saco de carvão. No nervosismo dos prazos que vão caindo, espero pelas contas finais desses estranho “partido dos brancos” que esteve em destaque nos quadros pretos da madrugada eleitoral do dia 28.
Sem xenofobia.

Fernando Lima
in "Savana", Maputo, 06.11.2009

Novembro 05, 2009

Comumente é assim



Cada um ao nascer
traz sua dose de amor,
mas os empregos,
o dinheiro,
tudo isso,
nos resseca o solo do coração.

Sobre o coração levamos o corpo,
sobre o corpo a camisa,
mas isto é pouco.

Alguém
imbecilmente
inventou os punhos
e sobre os peitos
fez correr o amido de engomar.

Quando velhos se arrependem.

A mulher se pinta.

O homem faz ginástica
pelo sistema Muller.

Mas é tarde.

A pele enche-se de rugas.

O amor floresce,
floresce,
e depois desfolha.

MAIAKÓVSKI

20 anos depois do Muro, a história continua



Passaram vinte anos depois da queda do Muro de Berlim, um dos símbolos vergonhosos da divisão da Guerra Fria e da perigosa separação do mundo em blocos e esferas de influência. O período actual permite-nos observar aqueles acontecimentos e formar uma opinião menos emocional e mais racional. Os políticos do século XX evitaram uma guerra nuclear. Mas o mundo não é um lugar mais seguro.


A primeira nota optimista indica que o muito anunciado fim da história não aconteceu em absoluto. Mas também não atingiu o ponto esperado pelos políticos da minha geração: um mundo em que, com o fim da guerra fria, a humanidade pudesse finalmente esquecer a aberração da corrida ao armamento, os conflitos regionais e as disputas ideológicas estéreis e entrar numa espécie de século dourado de segurança colectiva, uso racional dos recursos, fim da pobreza e da desigualdade e a restauração da harmonia com a natureza. Outra consequência é a interdependência das questões importantes que têm que ver com o sentido da existência da humanidade. Esta interdependência não se dá apenas entre os processos e feitos que ocorrem nos diferentes continentes, mas também com o vínculo a interligação entre as mudanças económicas, tecnológicas, sociais, demográficas e culturais de milhares de milhões de pessoas. A humanidade começou a transformar-se numa civilização única.

Ao mesmo tempo, o desaparecimento da chamada Cortina de Ferro e das fronteiras uniram não só os países que até há pouco tempo representavam diferentes sistemas políticos, mas também civilizações, culturas e tradições. Os políticos do século passado, podem-se orgulhar de ter evitado o perigo de uma guerra nuclear. No entanto, para milhões de pessoas, o mundo não se tornou num lugar mais seguro do que era antes. Conflitos locais numerosos, guerras étnicas e religiosas têm surgido no novo mapa da política mundial. A prova evidente do comportamento irracional da nova geração de políticos é o facto dos orçamentos de defesa de muitos países, grandes ou pequenos, são maiores do que eram durante a Guerra Fria, assim como os métodos repressivos são cada vez mais o meio para resolver conflitos, que se tornou num aspecto comum e normal das actuais relações internacionais. Infelizmente, nas últimas duas décadas, o mundo não se tornou um lugar mais justo. As disparidades entre a pobreza e a riqueza aumentaram, não só nos países em desenvolvimento, mas também nas nações mais desenvolvidas. Os problemas sociais da Rússia, tais como em outros países ex-comunistas, são uma prova de que o simples abandono de um modelo defeituoso de economia centralizada e de planificação burocrática não é suficiente para garantir tanto a competitividade do país numa economia globalizada, como o respeito dos princípios da justiça social.
Devem-se acrescentar novos desafios. Um deles é o terrorismo, convertido na "bomba atómica dos pobres" não apenas no sentido figurado mas também no sentido literal. A proliferação descontrolada de armas de destruição em massa, a concorrência entre os antigos adversários da Guerra Fria para atingir novos níveis tecnológicos na produção de armas e a emergência de novos pretendentes a desempenhar um papel de protagonismo num mundo multipolar, aumentam a sensação do caos que está afligir a política global. As verdadeiras conquistas que podemos celebrar têm a ver com o facto de o século XX ter posto um fim às ideologias totalitárias, especialmente as inspiradas por crenças utópicas. Mas também ficou evidente que o capitalismo ocidental, privado agora do velho adversário histórico e imaginando-se como o vencedor indiscutível e a encarnação do progresso global, pode conduzir a sociedade ocidental e o resto do mundo a um novo e ameaçador beco sem saída.

MIJAÍL GORBACHOV

In "El País", 05.11.2009 (excerto)

Toda a arte deve dar prazer


A arte suprema tem por fim libertar - erguer a alma acima de tudo quanto é estreito, acima dos instintos, das preocupações morais ou imorais. A arte nada tem com a moral, quanto ao fim; tem, quanto ao conteúdo. Toda a arte deve dar prazer - o tipo de prazer é que varia. A arte inferior dá prazer porque distrai, liberdade porque liberta das preocupações da vida; a arte superior menor dá prazer porque alegra, liberdade porque liberta da imperfeição da vida; a arte superior dá prazer porque liberta, liberdade porque liberta da própria vida. Um assunto sexual deve ser tratado em arte de modo que não suscite desejo. Para suscitar desejos, serve melhor uma fotografia pornográfica.

Fernando Pessoa
(domingo, 13 de Outubro de 1914)

Novembro 04, 2009

Pela luz dos olhos teus




Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar

Ai que bom que isso é meu Deus
Que frio que me dá o encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus

Resiste aos olhos meus só p'ra me provocar
Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar
Meu amor, juro por Deus

Que a luz dos olhos meus já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus sem mais lará-lará

Pela luz dos olhos teus
Eu acho meu amor que só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar.


Vinícius de Moraes

Novembro 01, 2009

António Sérgio

Fotografia de Rita do Carmo

Quando se fala em António Sérgio lembro-me imediatamente do Som da Frente. Nos anos 80, era o programa "a não perder", na Radio Comercial. Foi aqui que conheci muitos grupos de música que só mais tarde começavam a ter divulgação nas rádios e nos jornais locais. António Sérgio foi um profissional sério nas escolhas que fazia. Não fazia concessões. Os discos que divulgava eram novidade em qualquer lado do mundo. Muitas das bandas que divulgava eram uma novidade para mim. Começavam a ser conhecidos mais tarde e os discos só chegavam ás discotecas meses depois de serem divulgados nos programas do António Sérgio. Ao longo de muitos anos, fez da divulgação do rock alternativo um serviço público para uma imensa minoria. Marcou um tempo e uma época que não se esgotou nos anos 80. Depois do Rolls Rock e do Som da Frente vieram Lança-Chamas, O Grande Delta e A Hora do Lobo, programa onde actualmente trabalhava. Em 2008, António Sérgio comemorou as quatro décadas dedicadas à rádio e à música. Morreu sábado à noite. Tinha 59 anos.

Peter Murphy

Fotografias de António Oliveira

Peter Murphy passou por Lisboa e eu fui ouver. Um concerto para enormes minorias que ultrapassou a volumetria da Aula Magna. A digressão chama-se Secret Covers e anuncia um novo disco. Cantou novas versões de músicas de John Lennon, David Bowie e Joy Division, assim como músicas do próximo álbum, que ainda não tem sem título. Continua a ser uma referência no grupo dos independentes.

Outubro 30, 2009

Festas e reencontros

A Ivone, a Amélia e o João Fróis fizeram mais uma vez anos. Andam a anunciar 35 há uns bons anitos. Todos acreditam, como não podia deixar de ser. Isto é terra de gente séria. A Isabelinha também apareceu. Está um pouco mais madura, mas ninguém lhe dá os 31 anos acabados de fazer. Só o Henrique é que não acredita. Nunca percebi muito bem o facto de nestes encontros de aniversários e aniversariantes se fala tanto de idades. Mas esteve muito animada, principalmente a parte musical. Um grupo coral, corajoso mas sem nome, lembrou a história recente da república interpretando, com galhardia, músicas que vão da primeira república às músicas da moda, passando pelas aparições de Fátima. No entanto, foram os cantos revolucionários em voga nos últimos 40 anos que deram cabo da garrafeira. Foi um regresso em grande ao PREC, cantado com uma emoção, que secou muitas gargantas. Mas a luta continuou até às tantas...

Outubro 28, 2009

Eleições moçambicanas

Hoje é dia de eleições em Moçambique. O escrutínio visa todos os orgãos: Presidência, Parlamento e Assembleias Provinciais. Os oito milhões e 800 mil eleitores vão escolher um dos três candidatos à Presidência da República. São eles: Armando Guebuza, Afonso Dhlakama e Daviz Simango, a novidade política, em ascensão, que é apoiado pelo Movimento Democrático de Moçambique. Para o Parlamento e Assembleias provinciais concorrem 19 partidos e coligações, em 13 círculos eleitorais. Vamos votar, para mais tarde recordar...

Outubro 27, 2009

A revolta do imobiliário

Estive numa festa de aniversário. Cheguei já de manhã ao bairro. De repente, deparo com esta situação. Houve uma revolução, sem dúvidas. A revolta foi liderada pelas casas de três assoalhadas e pelas garagens. Não há nenhum comunicado nem porta-voz. De que é que as condições estão à espera para se reunirem? De liderança? Que coisa esquisita. Desisti de encetar qualquer diálogo. A conjuntura não o permite. Só quero descansar. Deixo este assunto para o novo governo. Desde quando é que o mal-estar chegou ao imobiliário?

Outubro 26, 2009

Vestígios de deleite

Eu sei que o capot de um carro é um lugar como outro qualquer. Dá para fazer piqueniques, sentar enquanto se conversa, fazer desenhos, etc. É um espaço sem classificação etária. Significa que nunca foi para maiores de 18. O que Saramago diz sobre o Antigo Testamento e o Corão é um caso sério, mas isto é mais sério ainda. O capot do meu carro não é um assento no Parlamento Europeu, um cenário do filme American Grafitti ou um assento da bancada do PSD. Para a próxima vez, os utentes do meu capot querem fazer o favor de não deixar vestígios nem de deleite nem de delitro? Não me importo de chegar ao trabalho e olharem para mim como o Serge Gainsbourg, mas tanto não. Com aquelas marcas até uma criança fazia uma longa-metragem de um filme sobre cegonhas. Para a próxima, seja verde. Limpe, depois de usar.

Outubro 24, 2009

Reflexões de viagem

Quando viajo para outras terras e países, sou, à partida, desconfiado. Se for à aventura, para locais onde nunca estive, levo sempre um kit de salvação. Por exemplo, quando visitei a Califórnia levei duas garrafas de bourbon e a minha mulher. Nesses sítios, nunca se sabe. É verdade, eu nunca minto. Às vezes faço ficção, mas nada demais. Não é como nas revistas e na internet, que quando se deseja algo manda-se vir via Amazon. Nesses locais está tudo demasiado à mão e eu gosto de bourbon de qualidade. Por exemplo, Nova Iorque. Se encontrar o Scorsese na rua, falo com ele sobre o quê? "Shine A Light", com os Rolling Stones, "Taxi Driver" ou "Goodfellas" (Tudo bons amigos)? Não sei. É por isso que sempre que lá vou o evito. Além do mais, eu gosto de "Macao", um filme a preto e branco de Josef von Sternberg e Nicholas Ray. Como é só meio americano, pouca gente o conhece e sempre dá para fazer uma dissertação sobre a ocupação chinesa do território. É como diz o ditado: "se a vida fosse fácil, nenhum bebé nascia a chorar." De facto, a vida é dura e aprender a vivê-la é difícil. E acreditem que quem ri por último, só pode ser demasiado lento no raciocínio.

Outubro 22, 2009

Louis Daniel Armstrong

Era um homem verdadeiramente calmo. Tocava trompete e cantava como ninguém. Sempre bem-disposto e de trato fino e agradável, respirava tranquilidade. Há quem diga, que era do chá que bebia, pois Louis sempre teve uma fixação em chás, além de outras coisas mais alcoólicas. Conhecia a história das ervas milagrosas e sabia que tinham sido descobertas na China, há quase 5.000 anos. As mulheres que com ele privavam, sabiam como ia ser a disposição ao longo do dia. Se, nas noites longas e agitadas, cheirasse a Gengibre, o dia seguinte iria ser difícil e com pouco diálogo. Caso cheirasse a Limão ou a Ginkgo Biloba, elas podiam fazer dele o que quisessem. As mais ousadas, ainda ganhavam um casaco de peles, no dia seguinte. Elas nunca perceberam que era do chá. Ele também não. Mas quando cantava "What a Wonderful World" ou "Jack The Knife" com aquela voz especial, a força não lhe vinha do chá mas sim do Bourbon. Só podia...

Outubro 20, 2009

Construções na areia

video

Kseniya Simonova, ucraniana nascida em 1985, é uma animadora de areia no seu país natal. Numa impressionante performance, usa uma enorme caixa de luz, música dramática, imaginação e talento para interpretar a invasão alemã e a ocupação da Ucrânia durante a 2ª Guerra.

Outubro 19, 2009

África à venda

Está para ser fechado um acordo pelo qual a República do Congo arrendará a uma empresa sul-africana, a Agri SA, o equivalente a um terço de seu território, exatamente 10 milhões de hectares. A Agri representa cerca de 70 mil agricultores e empresas sul-africanas, que ficarão com o direito a livre acesso às terras por um período até 90 anos, em troca de uma injeção de recursos que o governo local, em tese, aplicará nas zonas afetadas pela operação. Um bom negócio para o desenvolvimento da África, o continente esquecido? Pode ser mas pode ser também um passo adiante no que Jacques Diouf, diretor-geral da FAO chama de "neocolonialismo". A operação no Congo faz parte do que o jargão internacional batizou de "land grabing" ou "tomada de terras". Foi denunciada num relatório divulgado meses atrás pela própria FAO e um centro britânico de pesquisas, o Instituto Internacional para o Ambiente e o Desenvolvimento. O documento aponta, já no título, as duas possibilidades contidas nesse tipo de operação: chama-se "Tomada de Terras ou Oportunidade de Desenvolvimento?". O texto informa que "países africanos estão entregando vastos pedaços de terra cultivável para outros países e investidores quase de graça, com os únicos benefícios consistindo em vagas promessas de empregos e infraestrutura". A única diferença entre o "land grabing" na República do Congo e em outros países africanos está na nacionalidade dos investidores. No Congo, são da própria África. Nos países investigados pelo relatório da FAO e associadas (Etiópia, Gana, Mali, Madagascar e Sudão), são países ricos como a Arábia Saudita e a Coreia do Sul, temerosos por sua segurança alimentar. Mas a grande compradora de terras é a China, que busca, além de segurança alimentar, a exploração de minérios. O relatório da FAO diz que, nos últimos cinco anos, cerca de 2,5 milhões de hectares foram entregues a estrangeiros, o que equivale à metade da terra arável do Reino Unido. Mas há uma outra estimativa, feita por Peter Brabeck, presidente da Nestlé, que eleva o total a 15 milhões de hectares, ou meia Itália, distribuídos por África, Ásia e América Latina. O Brasil aparece na ponta africana da equação. O site Mother Jones, de temas ambientais e de desenvolvimento, visitou Massingir, no fundão de Moçambique, onde está em preparação um projeto de 500 milhões de dólares, que promete empregar duas mil pessoas e usar aproximadamente 300 mil hectares de terra para plantar cana-de-açúcar e produzir etanol, numa fábrica com tecnologia brasileira, o tipo de projecto que é a menina dos olhos do presidente Lula. O projeto, conhecido como ProCana, pode melhorar a vida de milhares de africanos pobres ou de pôr em risco o Krueger Park e outros projetos de conservação", escreve Adam Welz, o enviado de "Mother Jones".

Clóvis Rossi,
"Folha Online", 19.10.2009

Moçambique: fofocas eleitorais


* A campanha de propaganda contra alguns sectores das várias missões de observadores internacionais para as eleições do próximo dia 28 está ao rubro, com inventonas de que eles estejam a simpatizar-se com os partidos da oposição. Os mais atentos dizem que é a preparação psicológica para desacreditar os seus relatórios, os quais não se resumirão apenas ao acto de votação, mas que incluirão também tudo o que se passou ao longo de todo este tempo, incluindo o fenómeno PLD.

* Falando ainda das missões de observadores, há quem diga que os seus relatórios finais irão informar o novo relacionamento entre Moçambique e os países que metem metade da mola do OGE. Quem andou à procura de toda esta sarna para nos coçarmos?

* O político do turbante e das capulanas de cores vistosas teve que ser alavancado pelo não menos vistoso empresário que fez riqueza vendendo capulanas. O homem, que confiava o triste fundo, tinha dívidas até ao pescoço. Em troca da mola teve que anunciar que vai tocar batuque e comer maçaroca.

* Apesar da campanha estar ao rubro os “business” envolvendo frelimistas não param. Empresas de camaradas estão envolvidas na produção de material eleitoral, num claro conflito de interesses. É um jogador envolvido na produção do equipamento do jogo.

* A casa do primogénito do ex-timoneiro Chissano adquirida pelo empresário que ficou famoso por comprar canetas e cachimbos por um bis em vésperas de campanha está a dar que falar. Os vizinhos estão com os cabelos em pé. O homem quer erguer mais um piso o que impossibilita a vista ao mar a alguns deles.

* No país dos cunhados (África do Sul) anda grande agitação por causa do julgamento do “cash cop”, nada mais que o antigo chefe da polícia que recebia “luvas” a troco de consultorias para os “grandes businesses”. E quem está a testemunhar é o nosso conhecido Billy Reutenbach, um amigo de Mugabe e investidor no controverso biocombustível de Massingir. O homem aceitou ir a tribunal em troca de se passar uma esponja por cima dos vários crimes que o tornaram foragido no país ao lado.

in jornal "Savana", Maputo, 16.10.2009

Outubro 18, 2009

Philip Roth

Acaba de publicar nos EUA “The Humbling”.
“The Humbling” é sobre um actor americano de teatro, com 60 e poucos anos, que é muito bom e reconhecido, mas que descobre repentinamente que não consegue representar. Ele sobe ao palco e nada acontece, congela e acaba por fazer figura de idiota. O livro é sobre o que acontece a este actor depois de ele perder os seus poderes.

Qual é a sensação de terminar um livro?
Sinto uma enorme satisfação. O único problema é que sinto também que tenho de começar um novo. É um ciclo... Sim. O que me acontece é experimentar uma óptima sensação depois de terminar um livro, só que passada uma semana essa sensação esgota-se e começo a pensar que tenho de escrever outro. E reinicia-se o processo doloroso.

Como vê o futuro da literatura?
Acho que os leitores vão acabar. O público do romance diminui a toda a hora, em grande parte devido à tecnologia, que afasta as pessoas. O ecrã sempre distraiu as pessoas da palavra escrita. Primeiro foi o ecrã do cinema, depois a televisão e agora o computador...

Entrevista de João Luz (excerto)
Expresso, 17.10.2009

Outubro 17, 2009

Viver no Bairro Alto

Fotografia de António Oliveira

Despertaram sem nunca terem adormecido. Afiam o bico para o grão mas não puxam pelas espadas. Para o jantar há sonetos e pianos de cauda. Diz a fêmea: "paixão, não vais fugir de mim..." Ao que o macho responde: "ok."

Vidas pouco picantes

Fotografia de António Oliveira

Diz o Ernesto para a mulher: "vamos comer à Casa da Índia, mais logo." Ao que a mulher, a Dona Alice, responde: "já não gosto muito do picante. Além disso, pode-te fazer mal...". Ernesto ainda insiste: "era só para afastar a monotonia à noite na cama." Em direcção contrária vem a D. Ester a pensar: "Casa da Índia? Até via as caravelas a balouçar, depois do jantar. Que saudades do meu Vitinho".
Ditado popular: "não deixes para amanhã o que podes fazer hoje à noite"

Stop, look and listen

Fotografia de António Oliveira

O Zé da naifa era o dono deste carro, quando aqui ainda funcionava uma oficina. Um belo dia, logo depois de ter despachado duas garrafas de tintol ao almoço, carregou no acelerador por engano e o carro ficou ali. Para sempre. Passado uns tempos, a oficina virou boutique. Alguns empregados ainda se lembram da máxima do Zé da naifa: "eu cá prefiro as corcundas. Têm duas saliências para cada lado". Era, de facto, um desbocado sem maneiras. Foi há 35 anos mas o desabafo virou ditado.

Outubro 16, 2009

Cinquentões

Astérix e Obélix fazem 50 anos este mês. Por isso, não se admirem que já não batam com a mesma força aos romanos como o faziam há uns tempos atrás. Nessa altura, esses pobres desgraçados sofriam.... Mas agora têm melhor. O Berlusconi. Até lhe podiam dar umas valentes cacetadas. É romano, embora de tipo novo. Mas esse é assunto tabu para Astérix e Obélix. Têm uma casa de férias no sul de Itália e não querem problemas com a máfia berlusconiana. Além do mais também são convidados para as festas privadas e gostam muito das moças que dizem ser modelos... Longe vão os tempos em que não estavam comprometidos com o sistema. Quando começaram timidamente na revista Pilote, em Outubro de 1959, batiam em tudo o que mexia. Cinco décadas depois, são conhecidos em todo o mundo mas já não batem. Agora, têm pânico das multidões. São superstars, com tiques que nunca mais acabam. Para baterem em alguns romanos nos filmes até exigem um seguro para as mãos, além de luvas especiais. Ricas prendas. Os seus livros venderam mais de 325 milhões de cópias em todo o mundo, em 107 línguas e dialectos diferentes. É mesmo muita língua. Actualmente são idolatradas em todo o planeta, mas é em França que são os campeões. No entanto, não chupam o Sarkozy. A Carla sim. Mas o Sarko querem-no longe. Para terminar o telex resta-me dar os parabéns ao duo sertanejo Obélix e Astérix. Cuidem do reumático e façam ginástica. Não se esqueçam de comer mais vegetais e menos romanos.

Outubro 15, 2009

O jogo das damas

É um jogo simples, mas a primeira conclusão a tirar é a seguinte: as damas são difíceis de dominar. Basta falar com os experts e eles são peremptórios. As damas são selvagens! Principalmente as primeiras. As segundas também, a bem dizer. Há uma enorme bibliografia sobre como se comportar num jogo de damas, sem ceder território. O volume de informação necessário tem de ser grande, pois um jogo de damas é imprevisível. Não vale a pena avançar para vários territórios sem que o primeiro esteja bem consolidado. A experiência para lidar com o chamado "damage control" é necessária e fundamental. O conhecimento de algumas jogadas, típicas ou atípicas, ajudam a evitar cair em ratoeiras. Os supostos conquistadores em três jogadas têm a vida dificultada, pois nada decorre como está previamente estabelecido. As combinações são inumeráveis e num jogo de damas há mais ratoeiras do que no Afeganistão. Tem regras estranhas e fora do seu tempo. Por exemplo. São sempre as brancas a iniciarem o jogo. Francamente. Esse tempo já lá vai. Até para os prémios Nobel, como se pode constatar. Quanto ao facto de não se poder fazer dois lances seguidos, é outra regra sem sentido, nos dias que correm. As damas têm de ser encostadas às cordas logo no início, caso contrário podem vencer o jogo, por exaustão. Vão sempre até ao fim e não vacilam nem mesmo quando o adversário está meio moribundo. Para elas, a vítima torna-se mais apetecível. Nham, nham...

Hitler reage à reportagem de Maitê Proença em Portugal

Outubro 14, 2009

Canção da Saudade

Se eu fosse cego amava toda a gente. Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha irmã gémea que nasceu sem vida, e amo-a a fantasia-la viva na minha idade. Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde moras, dize se vives ou se já nasceste. Eu amo aquela mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longuíssimos. Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas. Eu amo aquelas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas. Eu amo os cemitérios - as lajes são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos floridos virgens nuas, mulheres belas rindo-se para mim. Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a lua do lado que eu nunca vi. Se eu fosse cego amava toda a gente.

José de Almada-Negreiro,
in "Orpheu Nº 1", 1915

Outubro 13, 2009

Nús contra o calor e a sede

700 pessoas despiram-se de preconceitos numa vinha da região francesa de Borgonha em resposta a uma iniciativa da Greenpeace para denunciar os efeitos das mudanças climáticas. Com uma garrafa de vinho na mão, as coisas melhoram mais rapidamente. A imagem tem a chancela do conhecido fotógrafo Spencer Tunick.

Father and son

Jean Sarkozy tem 23 anos, anda no terceiro ano de Direito e é filho de Nicolas Sarkozy. Tudo leva a crer que em breve vai ser presidente do organismo público que gere a zona de negócios de la Défense. É só o maior bairro de negócios da Europa. O pai, Nicolas Sarkozy, ocupou este cargo entre Abril de 2005 e Dezembro de 2006. O partido de Jean Sarkozy, UMP, garante que irá assumir o cargo em princípios de Dezembro. Afinal, não é só o terceiro mundo que pratica o nepotismo. É preciso ter lata.